<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205</id><updated>2011-11-28T00:14:52.025Z</updated><title type='text'>Eu que me apaixono por tudo e por nada</title><subtitle type='html'>À procura do amor nos lugares mais reprováveis...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>27</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-6109438462256756701</id><published>2009-06-26T11:04:00.001+01:00</published><updated>2009-06-26T11:04:46.621+01:00</updated><title type='text'>Decibéis</title><content type='html'>Há duas coisas que prometi a mim mesmo não voltar a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ver uma partida de ténis feminino e começar as minhas histórias por "há duas coisas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ambos os casos falhei miseravelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se na parte de começar as histórias por "Há duas coisas" isso fica a dever-se a uma dolorosa e inesperada falta de criatividade (que alguns especialistas apontam como um sintoma de exaustão sexual).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso do ténis quebrei a promessa e voltei a desperdiçar duas preciosas horas de vida em frente à TV graças a um grito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou antes, graças a um gemido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para quem está demasiado sonolento para descobrir onde quero chegar, estou a falar da Michelle Grito... quero dizer, Brito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única mulher que é capaz de gemer unicamente com a ajuda de uma raquete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes dela só mesmo a Martina Navratilova. Se bem que, dizem as más-línguas, que a checa usava a outra extremidade do instrumento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, num desporto tão enfadonho e snobe como o ténis, ouvir uns guturais "ais", "uis" e "hummmmmmmms" é uma verdadeira lufada de ar fresco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um revolucionário toque de sensualidade num dos desportos mais pudicos à face da Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pudicos sim! Que já nem as freiras usam aquelas cuecas que eles obrigam as pobres das tenistas a usar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, desisti da modalidade quando cheguei à conclusão que jamais iria ver a Maria Sharapova a correr pelo court com um fio dental La Perla.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque com aquelas tendas de circo no rabiosque como é que a gente vê se as raparigas têm o relvado devidamente aparado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, vale-nos ao menos a Michelle, My Belle... ou antes, valia. Porque no jogo que eu vi, a rapariga passou o tempo todo a soltar gemidos abafados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim do tipo "Ai, Américo, não podemos gritar muito alto que os meus pais estão na cama ao lado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És muito pudica, és filha! Cá para mim és mas é uma daquelas dissimuladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de te ouvir gritar a plenos pulmões, em Roland Garros, e a seguir ires piar fininho para Wimbledon, bem podes berrar e espernear que nunca mais ninguém acredita que os teus orgasmos são genuínos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, as minhas queridas que não comecem já a olhar para mim com cara da má que eu cá não tenho nada contra os orgasmos simulados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito pelo contrário. Às vezes os gritinhos estridentes - e pouco convincentes - ajudam a abafar outros sons que nos deixam os nervos em franja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não estou a falar da respiração ofegante do vizinho tarado que aproveita para se masturbar, de ouvido colado à parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou mesmo a falar daqueles irritantes ranger de cama que nos estragam a concentração. Grrrrrr...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui fica um conselho útil, para quem precisar um dia de se defender das minhas investidas romântico-libidinosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitem-se comigo numa cama que range e pulverizam a minha libido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sério, sou daqueles gajos capazes de dar uma quecazinha nos lugares mais impensáveis. Até numa fila de hipermercado, se for preciso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem os olhares indiscretos me atrapalham... agora, fazer amor ao som de um persistente "nhec, nhec, nhec", isso, desculpem lá mas não é para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que os gemidos têm outras funções, bem mais terapêuticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, há sexólogos que defendem que o tom dos gemidos ou gritos é essencial para distinguirmos o tipo de orgasmo da nossa companheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim sendo, um grito estridente equivale a um orgasmo clitoriano, enquanto a um grunhido gutural corresponde um orgasmo vaginal (Alexander Lowen "Amor e Orgasmo" ).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, as coisas nem sempre são assim tão fáceis de distinguir. No calor do momento, reconheço que não estou de orelha em riste, a tentar perceber as variações do gemido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò querida, importas-te de repetir os gritinhos, que eu não percebi muito bem se isso foi um estridente clitoriano ou um gutural vaginal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Independentemente do timbre e dos decibéis produzidos, o importante é estarmos realmente empenhados em dar prazer à nossa companheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que não podemos ser anjinhos. E temos de perceber que os gritos, gemidos, grunhidos ou qualquer outra variação sonora, terão sempre um efeito secundário nefasto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que me apaixono por tudo e por nada, aprendi isso numa tempestuosa noite de Janeiro, durante uma ainda mais tempestuosa reunião de condomínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite em que os condóminos masculinos estavam mais preocupados em esconder o desfalque de 150 contos que fizeram para irem ver uma meia-final da Liga dos Campeões - seguido de uma ida ao bar de alterne - do que em tapar o buraco na clarabóia, por onde entrava água suficiente para fazer corar de inveja as Cataratas do Niágara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando assim o é, todo o pretexto é válido para desviar os olhares do extracto bancário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, isto da água é só mais uns dias, depois vem o Fevereiro, há sol e ninguém mais se queixa da clarabóia. A mim o que me incomoda é outra coisa - rosnou o Delfim, enquanto alternava os olhares cúmplices com os vizinhos, com olhares reprovadores na minha direcção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa altura que percebi que, de um dia para o outro, deixara de ser a mula de carga (que gentilmente o ajudara nas mudanças) e fora despromovido para a classe de bode expiatório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A mim o que me incomoda é que há aqui pessoas que não têm o mínimo respeito pelos vizinhos. São gritos até altas horas e ninguém consegue dormir - continuou o Delfim, que tinha nome de cetáceo e nariz de papagaio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já para não falar na pouca-vergonha de andar aí para cima e para baixo com mulheres que vêm, sabe Deus onde - completou o Martins, vendedor de parafusos, mas especialista em porcas, a julgar pelo à-vontade com que se movia nos bares de alterne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apelo à moral e bons estrumes - perdão, costumes - foi um isco lançado à medida, rapidamente mordido pelas mulheres do grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah pois é! Ainda esta noite ninguém dormiu com os berros de uma gaja qualquer que o senhor Jorge meteu lá em casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois a mim o que não me deixou dormir foi o barulho do seu marido a dar-lhe dois chapadões, por você não lhe ter passado a ferro a camisa Triple Marfel...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era esta a resposta que a Dona Conceição merecia. Mas não a levou, que eu cá posso não parecer, mas sou um gajo educado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez disso, fiz a maior cara de desavergonhado e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò minha senhora, eu por acaso acho que as pessoas não dormiram, mas não foi pelos gritos de prazer das minhas namoradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai não? - respondeu ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que não. As senhoras aqui do prédio não dormem mas é por causa dos gritos de dor dos vossos maridos - continuei eu, devagarinho, que era para doer mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porquê, caralh... - a carapuça serviu que nem uma luva ao Zé Miguel fotógrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhe, porque à dor de cotovelo que vocês estão, às tantas devem ter batido com o braço na mesinha de cabeceira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kiss Kiss&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vosso... desavergonhado... Adónis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS - 15 dias depois o senhorio deu-me ordem de despejo. E nunca mais no prédio se ouviram gemidos, nem gritos. Só suspiros de alívio...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-6109438462256756701?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/6109438462256756701'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/6109438462256756701'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2009/06/decibeis.html' title='Decibéis'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-4712988810743896423</id><published>2009-02-24T22:45:00.000Z</published><updated>2009-02-24T22:46:20.588Z</updated><title type='text'>A lenda da mini-meia</title><content type='html'>O casamento ensinou-me uma ou duas coisas interessantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre elas, a nobre arte da lavandaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hey, esperem lá que não é isso que vocês pensam. Eu cá não casei com nenhuma ditadora que me sujeitou à tirania das lides domésticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casei realmente com uma ditadora, mas ela não precisou de me sujeitar a esse tipo de tarefas, que eu já era rodado nessas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornei-me especialista na lavagem, engomadoria e arrumação das roupas aí pelos 8 anos, altura em que as minhas irmãs mais velhas se emanciparam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por "emanciparam" deve entender-se que trocaram as tarefas domésticas por uma carreira semi-profissional na modalidade de "saltar ao elástico".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas então o que é que a lavandaria tem a ver com o casamento? - perguntam, não as minhas queridas, mas eu que já me embrulhei de tal forma com isto que já nem sei a quantas ando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, o importante é que eu, que me apaixono por tudo e por nada, devo ser mesmo bom na coisa, visto que já levo dois casamentos na minha conta pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pelo Registo Civil e um outro, o primeiro, que foi assim uma espécie de casamento de faz-de-conta, com uma cerimónia hindu, sem quaisquer efeitos legais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E um dia vos contarei os pormenores desta trapalhada onde não faltaram trajes que pareciam saídos de um filme de Bollywood...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...um sacerdote indiano que celebrou a boda enquanto deixou um primo a tomar conta da sua banca de chamuças, ali no Martim Moniz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e de um tradicional jantar indiano, regado pela bebida tradicional desse longínquo país, o tinto do Cartaxo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e que terminou comigo - na altura um bebedolas de primeira - a virar-me para a gorducha madrinha de casamento e a gritar, alto e bom som:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado com a vaca sagrada!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única coisa boa que isto tem é que no próximo casamento, como é o terceiro, a congregação que celebrar o matrimónio terá que nos oferecer a lua de mel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois, que eu já me fui informar à Igreja Católica e eles, só para segurarem o negócio, já me apalavraram a oferta de uma viagem a Fátima a pé, para duas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que diabo é que o meus atribulados casamentos têm a ver com a lavagem de roupa suja?&lt;br /&gt;Tem tudo a ver, mas isso são contas de outro rosário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, que caraças, que eu ia jurar que até anotei a ideia numa folhinha de papel e tudo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às tantas usei o papel para embrulhar uma chiclet e amandei tudo para o lixo?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, pior, usei-o para escrever, na parte de trás, um recadinho romântico que deixei em casa de uma amiga!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, já sei! Meias!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu estou a tentar dizer-vos, há duas folhas A4, é que uma das tarefas mais árduas nesse fascinante mundo da lavandaria é que diz respeito às meias e peúgas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais concretamente, o acasalamento de meias soltas e reconciliação de casais desavindos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, os tais dois casamentos, mais não sei quantas relações falhadas, fazem de mim uma espécie de Dr. Phil das meias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando ali à volta delas horas a fio e não lhes dou descanso enquanto elas não voltarem a juntar os trapinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois, que eu sou um afamado conselheiro matrimonial, com doutoramento em casais disfuncionais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma peúga rota no dedão? Tunga... junta-te à que está rota no calcanhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma meia com uma malha? Prás, toca a viver feliz para sempre com a que tem um foguete!&lt;br /&gt;É claro que ninguém é infalível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em cada conselheiro matrimonial de meias há um capitão Ahab em busca da sua baleia branca. E a minha chama-se mini-meia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que eu me esforce, não há maneira de eu lhes arranjar um casamento feliz e duradouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, nem uma relação de 15 dias, quanto mais um casamento!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque as mini-meias são um bocadinho como as miúdas do Sexo e a Cidade. Nunca passam muito tempo com o mesmo par.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso quer dizer que são fúteis? Nem pensar!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mini-meias são, na verdade, amantes incompreendidas. Almas errantes, à procura daquele amor perfeito, que não sabem sequer se existe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, mais do que uma sazonal e desprezada peça de vestuário, a mini-meia é a herança de um amor furtivo, entre uma robusta e atrevida peúga e um elegante e sensual collant.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amor ardente e sufocante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também proibido pelos poderosos Deuses das Meias, que nunca toleraram o cruzamento das espécies.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, para aberrações já nos bastam os soquetes - terá dito, em tom exaltado, uma encharcada meia de futebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nada adiantou. Peúga e collant estavam dispostos a tudo para viverem esse arrebatador e sôfrego amor, que os consumia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foge comigo para um mundo onde não existam pés calejados e mal-cheirosos, nem botas apertadas - implorou a peúga para o nervoso collant, enquanto se escondiam no tambor da máquina de lavar, aproveitando um momento de distracção da manada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iam já perto do elevador, escondidos num saco de desporto, quando foram apanhados pelo cesto da roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ousadia deixou os Deuses em fúria. E a sua resposta foi impiedosa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- exílio da peúga no armário dos sapatos, onde a esperavam anos de trabalhos forçados, a engraxar calçado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- pena de morte para o collant, desfeito a golpes de amante fogoso numa - rara - noite de sexo selvagem, dos donos da casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz a lenda que antes de ser encaminhada para o cadafalso - que é como quem diz, as roliças pernocas da senhora - o collant deu à luz uma linda mini-meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tal que deu origem a toda esta história. E cuja atribulada vida amorosa é, afinal, o reviver de uma busca incessante dos dois amados separados pela crueza de quem não sabe o significado da palavra amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito que nos custe aceitar, em cada mini-meia vive uma peúga esburacada e coberta de graxa, em busca do seu amado collant, reduzido a umas quantas tiras de nylon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais se encontrarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o amor de ambos prevalece. E vive em todas as mini-meias que diariamente cobrem os lindos e delicados pezinhos das minhas queridas amigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque nada nesta vida é eterno. Excepto o verdadeiro amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-4712988810743896423?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/4712988810743896423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/4712988810743896423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2009/02/lenda-da-mini-meia.html' title='A lenda da mini-meia'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-7882444555362759601</id><published>2009-02-17T16:37:00.001Z</published><updated>2009-02-17T16:37:47.268Z</updated><title type='text'>Truces</title><content type='html'>Sabem qual a semelhança entre mim e a Bridget Jones?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos temos cá uma papada que mais parece que engolimos meia bola de queijo limiano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, essa é uma. Mas há outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A principal semelhança entre mim e a Bridget é o recurso estratégico às chamadas cuecas da avozinha, em ocasiões, digamos, especiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que no meu caso se deva falar de cuecas de avozinho. Mais concretamente, umas truces azul celeste, daquelas que têm uma abertura diagonal na braguilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora perguntam as minhas queridas: porque diabo é que um tipo que tem o mínimo de cuidados com a estética (depilação, esfoliamento da parte lateral das narinas e combinação aceitável das cores da indumentária) havia de usar roupa interior que já nos longínquos 80's era considerada o supra-sumo da parolice?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhem, pela mesma razão que a Bridget saiu à noite com as inesquecíveis cuecas da avozinha, que tanto deliciaram o não menos inesquecível Daniel Cleaver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, por uma questão de protecção. E não quero com isto dizer que sejam cuecas à prova de bala, ou à prova de violação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até porque aquilo não é feito para dissuadir estranhos de invadir propriedade alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sim para nos dissuadir a nós mesmos de exibir a propriedade aos estranhos e estranhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja: aqui o "je" arranja uma saída com uma amiga, mas acha que é melhor manter o júnior enjaulado porque:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) a relação tem potencial para voos mais altos e não quero estragar tudo com sexo logo na primeira noite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b  ) já saímos juntos, fomos para a cama e sei que me vou meter em sarilhos se o voltar a fazer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;c) a miúda é gira, o sexo vai ser brutal mas ou não fiz a depilação das "verduras", ou não cortei as unhas dos pés ou descuidei qualquer outro aspecto da higiene e estética masculinas, que desde logo inviabiliza um relacionamento de cariz sexual&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E qual a melhor maneira de não termos sexo quando estão reunidas todas as condições para a prática da modalidade? Sair com uma roupa interior de tal forma degradada, ou de tão mau gosto, que nem sequer nos atrevemos a ir ao WC para não termos sequer de olhar para ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, eu tive em tempos uns boxers de tal forma bimbos - com uns bonecos a dizer "Mister Lover" - que tinha de os vestir às escuras, ou de olhos fechados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, meus amores. Estas coisas são bem mais complexas do que vocês julgam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos eu, que me apaixono por tudo e por nada, recorro a diferentes tipos de roupa interior para diferentes níveis de alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, se eu tenho algumas esperanças de acabar a noite em cama alheia, não hesito em enfiar-me dentro de um par de boxers de lycra, todos modernaços, com as costuras na parte da frente a realçarem o Adónis Júnior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se estou assim na dúvida, posso sempre optar por uns boxers em algodão, daqueles que uso para correr. Se eu no último momento mudar de ideias e avançar para o quarto da miúda, posso sempre desculpar-me com o clássico: "isto vai cá um Inverno frio, hein?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, quando após a análise cuidada de todos os riscos se chega à conclusão que a arma deve ser mantida a todo o custo dentro do coldre, é altura de rumar ao fundo do baú e sacar lá do meio as naftalínicas truces ou mesmo aquelas cuecas com motivos (de surfista, animaizinhos ou mesmo de personagens dos desenhos animados... e nada de falarem do Tintim que já tive umas e nem depois de regadas com álcool etílico elas arderam).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E passemos agora à face mais complexa da empreitada: a logística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A parte mais embaraçosa é a compra. Se no caso das mulheres basta irem à feira pedirem "umas cuecas para a tia que está internada no lar", nós os homens desculpamo-nos com a crónica falta de bom gosto, aliada a um fortíssimo sentido prático:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò freguês não quer levar uma cuequinha da moda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai não que essas de lycra fazem-me assaduras na virilha. Deixe estar que eu levo umas daquelas branquinhas normais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então, pura e simplesmente esperamos que morra um tio velho para herdar a velha colecção de truces e ceroulas. Sim porque nós, os homens, temos com a nossa roupa interior uma relação que, por vezes, roça o coleccionismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Macho que se preze usa e volta a usar os boxers até ao dia em que vai à janela sacudi-los e eles se dissipam no ar como se fossem um dente de leão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora eu podia recostar-me na cadeira a imaginar as vossas gargalhadas, mas como sou um gajo às direitas cumpre-me o dever de vos informar que esta piada do dente de leão foi usada de empréstimo a um dos meus comediantes de eleição: o Jerry Seinfeld.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, empréstimos à parte, o importante é que a escolha interior define o nosso grau de voluntarismo sexual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, minhas queridas, da próxima vez que deixarem aterrar na vossa caminha um rapazola de cueca antiquada, mal engomada, com meia dúzia de rasgões e, talvez até, selada com lacre castanho, das duas uma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou têm perante vós um cavalheiro, a transbordar de boas intenções...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... ou então, calhou-vos em sorte um grandecíssimo javardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nesse caso, só há uma coisa a fazer: dar-lhe o mesmo destino que se dá à roupa interior usada. O Lixo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A não ser que sejam como a minha avó Chica que a usava como panos do pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kiss Kiss&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vosso Adónis... devidamente acomodado dentro de uns sexy, mas nada confortáveis, boxers da Zara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-7882444555362759601?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7882444555362759601'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7882444555362759601'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2009/02/truces.html' title='Truces'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-896517635363004541</id><published>2008-08-28T11:35:00.002+01:00</published><updated>2008-08-28T12:11:50.395+01:00</updated><title type='text'>Patinadora</title><content type='html'>Chegar a meio do mês com 9 euros e meio no bolso faz-nos pensar em muita coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente num triplo Jackpot do Euromilhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, quando se pensa nestas coisas em voz alta aparece sempre um esperto a fazer a pergunta do costume:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se te saísse o Euromilhões, que carro é que compravas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta é, invariavelmente, uma decepção. Uma dupla decepção, aliás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem pergunta. E para o vendedor de carros que estava escondido nas redondezas e esperava a oportunidade para se intrometer na conversa e dizer: "eh pá, acabei de receber um modelo desses".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que ele nunca me poderá dizer. Isto porque o meu carro de sonho é a máquina de teletransporte do Star Trek.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso mesmo, aquela maquineta que parece um chuveiro e nos faz desaparecer de um lado e aparecer sabe Deus onde, num piscar de olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora digam lá que em vez de andar às voltas para estacionar, de gastar uma pipa de massa em gasolina e seguros ou arriscar-se a levar com um camião TIR em cima, não é muito mais prático sair de casa, dar dois toques no bolso da camisa e dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Beam me up Scotty!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, enquanto o Diabo esfrega um olho - e o Scotty se esfrega na sua assistente - lá estou eu no emprego, no shopping, no restaurante e onde me apetecer ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já para não falar das vezes em que fosse apanhado em lugares menos próprios e após ouvir a pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Maria Amélia, explica-me o que este homem está a fazer todo nu no nosso armário embutido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me evaporasse antes que ele tivesse tempo de dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual vendedor do Circulo de Leitores, qual carapuça. Eu vou mas é buscar a caçadeira e acabar com esta pouca vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que há alternativas mais viáveis, para quem prefere um meio de transporte amigo do ambiente e, ao mesmo tempo todo estiloso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Segway, por exemplo. Confesso que simpatizo com a ideia de ir à padaria numa daquelas máquinas com duas rodas de lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era maneira de chegar mais depressa que as velhas do prédio em frente, que conseguem sempre levar o cacete acabadinho de sair do forno, deixando-me com o pão integral do dia anterior, que sabe tão mal que mais vale comer o saco de papel onde ele vem embrulhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, a Segway é porreirinha, se bem que, no meu caso, prefiro um veículo que não me obrigue a ir tirar um curso intensivo de equilibrismo no Chapitô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hey, vocês aí quietinhas com o rato! Onde é que as meninas julgam que vão?Ao site do El Corte Inglés para ver se já começaram os saldos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem pensem!!! Quero esses dedos quietinhos e pousados onde eu os possa ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá por eu ter começado a história de hoje com uma conversa de carros de sonho e mais não sei quê, isso não quer dizer que vão ter de gramar com mais 50 parágrafos de piadinhas do meu Ax!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada disso. Era só uma maneira gira de lançar uma história que se passou comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais concretamente um picanço. Um daqueles a sério, em que há ultrapassagens à tangente, tentativas de abalroamento e até agressões físicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual Auto-estrada, qual quê. A cena passou-se mas foi nos corredores de um hipermercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque, eu, que me apaixono por tudo e por nada, nunca consegui despertar em mim mesmo a paixão pela arte da condução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, o caso muda de figura quando estamos aos comandos de um carrinho de hipermercado, daqueles novinhos em folha, reluzentes e sem restos de Bolicao na barra onde pomos as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda por cima se estiver em causa um lugar vago na caixa, ao domingo de manhã. E então se o nosso adversário for um inimigo de longa data, ò minhas meninas, estão reunidas as condições para um picanço à moda antiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi precisamente isso que aconteceu naquela manhã quente de Verão. Quer-se dizer, a manhã era de Verão, mas naquela secção de congelados não passava dos 15 graus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as coisas iam aquecer. E de que maneira. Bastou a visão de uma caixa de supermercado acabadinha de abrir e um olhar de relance para o tipo que empurrava um carrinho todo brilhante, aí a uns dois metros de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- César, Grrrrrrrrrrrrrrrrr - rosnei eu, assim que deitei olhos ao meu arqui-rival. Aquele da pila d'Âncora, de que vos falei aqui há atrasado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por segundos ficamos ali, um ao lado do outro, como que a medir forças. Assim tipo aqueles bimbos que ficam lado a lado nos semáforos, a darem aceleradelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou melhor, quem fazia essas figurinhas tristes era o César. Que eu, mais dado a fitas antigas, esforçava-me por imitar a pose do Charlton Heston, naquela cena da corrida de quadrigas do filme Ben Hur.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem bem que num cenário desses o César estava em vantagem. Nenhum dos carros era puxado por cavalos, mas o dele tinha um burro aos comandos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Burro que nem uma porta, mas traiçoeiro que nem uma víbora. Assim que viu uma miudinha meter-se à minha frente para ir buscar uma caixa de canellonis ultra-congelados, arrancou a toda a velocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas de pouco lhe valeu o golpe. Não tinha passado a prateleira da macedónia quando o alcancei, graças a um bom golpe de rins e a uma manobra de emergência, que eu tive de fazer para aliviar o peso do carrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entenda-se com isto que deitei fora as 50 caixas de preservativos que me estavam a atrasar o andamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que o pila d'Âncora não perdeu tempo e lançou o carrinho dele para cima do meu, atirando-me violentamente contra a arca das ervilhas. Mais uma vez aguentei-me à bronca. Agarrei num alho francês, com a mesma destreza com que o Ben Hur empunhou o chicote e zás! Duas valentes chibatadas com a rama do poirot em cheio nos olhos dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cego de raiva e também de dores - que uma chicotada daquelas é coisa para doer que se farta - o César perdeu o controlo do carrinho e foi-se enfiar na prateleira do Actimel, espalhando pelo chão as embalagens do seu iogurte favorito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentava levantar-se para voltar à corrida, quando a tal menina dos canellonis aparece do meio do nada e passa-lhe por cima com o carrinho dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai que essa até a mim doeu - pensei eu, enquanto via o César em agonia. Não por causa das dores, mas em agonia porque as rodas do carrinho tinham deixado uma mancha das grandes no polo Lion of Porches azul-bebé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A saborear a minha vitória e ainda embuído do espírito épico da contenda, virei-me para a miúda da caixa e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Strengh and honour!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das duas uma: ou a rapariga não tinha visto o Gladiador, ou então estava mesmo lixada por ter de trabalhar a um domingo de manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem cartão Continente? - perguntou a funcionária, com a maior cara de enjoadinha que eu já vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engraçado. Uma miúda que não passa cartão a ninguém, pedir-me o cartão a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, o César conseguiu arrastar o que restava do seu carrinho de compras para a caixa ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vermelho de raiva, quer dizer, a cor seria o vermelho se ele não estivesse branco de tanto iogurte que se lhe entornou por cima, olhou-me de canto de olho e murmurou qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"I will have my vengeance... in this life or in the next one"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era isto que ele devia ter dito, se tivesse entrado no espírito. E se tivesse ido ao cinema ver o Gladiador, em vez de ficar em casa a ver o DVD do American Pie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo ele, um confesso admirador - e imitador - do Stifler. O parvalhão de serviço lá do filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou-te fod... a put... da vida, meu cabrão do caralh... - rosnou o César, ainda a tresandar a L. casei Imunitass.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o olhar fulminante - que é como quem diz "se tivesse uma Glock dava-te um tiro nas trombas” - em breve seria substituído por um sorrisinho triunfal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A manga não está pesada!!! - reclamou a enjoadinha da caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois não, está levezinha mas é mesmo assim. Eu só preciso dela para fazer umas raspas e deitar por cima da mousse de manga que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é isso! Não têm a etiqueta do peso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, em menos de nada a rapariga tinha deitado por terra o meu sonho de sair do hipermercado antes do César que, na caixa ao lado cantava entredentes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai buscá-la, vai buscá-la...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, meus anjos. As coisas não estavam nada famosas. Podia sempre optar por deixar lá ficar a manga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vão por mim... quando se leva três meses a tentar convencer a professora da body combat a jantar connosco e se consegue finalmente fazê-lo à custa de uma sobremesa na qual sou um reputado especialista, deixar ficar a manga não era opção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei um segundo a pensar. Não no que fazer em relação à manga, mas a pensar em qual das minhas compras atirar à cara do César? A lata de cogumelos? Leve demais. O pack de 6 garrafas de água tónica? Nem pensar, que eu depois fico sem a minha bebida cool...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que de repente, vinda do nada, ela apareceu ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é o problema? - perguntou o anjo de patins que se abeirara de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O cliente não pesou a manga - respondeu, com desprezo, a enteada de Satanás que se disfarçara de caixa de hipermercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão a ver quando trocamos olhares com uma perfeita desconhecida e de repente se estabelece assim tipo uma comunicação telepática?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi isso que aconteceu entre mim e a patinadora do Continente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queres ver eu a lixar esta gaja? – parecia dizer ela com o olharzinho malicioso, acompanhado de um ligeiro menear de cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sem esperar pela minha resposta, deslizou por ali fora, como se estivesse na final do Campeonato do Mundo de patinagem artística e precisasse de uma coreografia genial para derrotar uma búlgara de 15 anos que acabara de executar um triplo spin, sem tocar com o rabo no gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu a deliciar-me com aquele exercício de poesia em movimento, quando na caixa ao lado disparou o alarme anti-roubo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ânsia de se despachar antes de mim, o César tinha partido esmagado duas caixas de ovos, amassado quilo e meio de tomate chucha e partido uma garrafa de Muralhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nada disso importava. Sentia o triunfo próximo… mas era puro engano. Quem estava próximo era um dos seguranças, que ao ouvir o alarme disparar correu para a caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desculpe mas vamos ter que verificar os seus bolsos e a sua roupa. Importa-se de nos acompanhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acompanhar? Ouve lá, tu sabes quem eu sou? - resmungou o César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se o segurança não sabia quem ele era, também o César não sabia o que se faz a quem é apanhado a roubar nas grandes superfícies comerciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi precisamente quando olhava para o rabo do César - a imaginar como havia de lá caber a mão do segurança, durante a "revista às cavidades corporais" - que reparei na etiqueta com o preço da manga, colada no bolso de trás do meu arqui-inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal tive tempo para saborear a desgraça do César, porque novamente do meio do nada surge a minha patinadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um euro e vinte e nove - disse ela, ao mesmo tempo que me lançava mais um olharzinho, desta vez a dizer "He, he… hoje o Mendes da Peixaria vai ter que escamar o besugo sozinho que desta já não leva nada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, de repente percebi de onde é que vinha toda aquela empatia. Ou antes, telepatia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque entre mim e a Liliana havia uma história. Curta, é certo. Mas ainda assim uma história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passada duas décadas antes... eh, calma lá, que eu não comecei a namoriscar assim tão cedo! O que se passou foi, assim, um momento de carinho, partilhado por duas criancinhas inocentes, sendo que uma delas - eu - era o receptor desse carinho, por causa de um golpe no dedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época todos sonhávamos ser os irmãos Luke e Bo Duke. Ora, fã dos "Três Duques" que se preze, tem que entrar pela janela do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi isso que eu fiz. E teria feito o resto da tarde, não fosse o carro ser um Ford Capri da sucata, com um vidro partido, no qual eu deixei à volta de 350 gramas de pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele instante, ao olhar fixamente para a patinadora em pleno hipermercado, revi nos seus olhinhos negros a menina que, 20 e muitos anos antes tentara anestesiar-me as dores com um caramelo da vaquinha e dois beijos docinhos na cara, enquanto a enfermeira nariguda me cosia o indicador direito com a mesma brutalidade com que remendava as peúgas do marido, conhecido na vizinhança como o gavião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não era pelo porte de ave imponente, que o senhor Montalvão era assim pr’ó enfezado. Era mesmo pelas pontiagudas e resistentes unhas do pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espera lá, tu não és a sobrinha da enfermeira Elisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A miúda soltou um sorriso envergonhado e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Infelizmente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, estava oficialmente apaixonado pela patinadora. E o amor crescia, a cada frase sarcástica que ela soltava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes como é, as marcas do sangue são sempre difíceis de limpar... seja num episódio do CSI, seja numa família disfuncional como a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai... por esta altura já eu estava mais derretido que Straciatela que eu pensara em servir à professora de body pump, embrulhado em crepes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embrulhado, o Straciatela, não eu. Que não deve ser nada fácil cozinhar um crepe de metro e oitenta e pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Derretido ou não, o certo é que o Straciatela lá foi para a mesa. Só que em vez de se desfazer na boca da professora Filipa, desfez-se na boca da Lili.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desfez-se o gelado e desfiz-me eu. Vendo bem as coisas, nem sei como é que ao fim de tantas horas ocupados a saborear a boca um do outro, eu consegui saber tanta coisa sobre a vida da minha patinadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filha de emigrantes na Suíça, viveu uns tempos com a avó e a tia em Portugal antes dos pais a levarem para os Alpes. Aí ficou conhecida pelas acrobacias que fazia nos lagos gelados de Haute-Gruyère.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos lhe anteviam um futuro brilhante na patinagem artística. Todos menos o Américo, que lhe antevia um futuro brilhante a trabalhar para ele, enquanto o cromo passava os dias a beber cerveja no café La Portugaise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi precisamente com o Américo que a Lili derrapou pela primeira vez. Não na pista de gelo, mas na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farto da fama - e proveito - de caloteiro, o parvo do namorado meteu na cabeça que havia de voltar para Portugal. Bem pensado, porque se há sítio onde os caloteiros se dão bem, é por cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pobre da Lili ficou dividida. As perspectivas de uma carreira artística diziam-lhe para ficar na Suíça. Mas o namoro com Américo puxava-lhe a perna para Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gravidez puxou o resto do corpo para o país natal, onde faltavam lagos congelados e pistas de gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temperaturas baixas só mesmo no coração da patinadora, principalmente depois do palerma que a arrastara para cá ter rolado a toda a velocidade para fora da vida dela, assim que escutou o primeiro choro do pequeno Manelinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem local onde praticar a arte e com um filho para criar, não arranjou melhor do que um emprego como patinadora no Hipermercado da zona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui, honra seja feita ao grupo Sonae que, mesmo abdicando da extraordinária qualidade dos produtos Carrefour, soube aproveitar o melhor que multinacional francesa trouxe para este país: as miúdas em patins a deslizarem por entre arcas de salmão em posta e prateleiras apinhadas de bricolage com defeito de fabrico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mal o menos, todos os dias ia matando saudades da arte com que sonhou conquistar o mundo. Mas com um salário mínimo, nem um T0 conseguia conquistar, quanto mais o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, resignou-se ao seu destino: viver em casa da tia Elisa, conhecida pela sua língua viperina e pelo teste homónimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se no resto do mundo o teste de Elisa podia revelar uma doença capaz de destruir o sistema imunológico, lá na aldeia o teste com o mesmo nome era usado para diagnosticar todo o tipo de defeitos que se possam atribuir a um namorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defeitos que condenavam o examinado a uma morte lenta e dolorosa. Não no sentido físico, mas na sua reputação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, como devem calcular, aqui o amiguinho não passou no teste… pelo contrário, o resultado foi tão mau que não me deram três semanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou melhor, não deram três semanas de vida ao meu namoro com a patinadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Erro de diagnóstico! Só pode - pensei eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, aqueles olhares que diziam tudo, sem dizer nada, aquele gosto pelas frases encharcadas em sarcasmo que nos unia e toda a cumplicidade que crescia entre nós a cada instante criaram anti-corpos mais do que suficientes para resistir às ofensivas da tia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não eram os reparos à minha situação financeira ou o longo historial de relações falhadas que iriam enfraquecer o nosso amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Elisa tinha uma arma de peso. O César, um cancro terminal sempre pronto a espalhar as suas metástases para cima de mim e de quem se atrevesse a fazer-me feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo após o incidente no Hiper, o pila d’âncora procurara a enfermeira para ela lhe curar os males do corpo – rebentara uma embalagem de Cilit Bang e esguichara-lhe para o olho – e, já agora, para curar os males do coração da solitária enfermeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim que o PPR da velha não se conseguia só com sorrisinhos e uns porta-chaves do banco! Para conseguir os 60 euros de comissão o César teve de suar a camisola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso mesmo, a camisola… que a Elisa só conseguia fazer amor se o desgraçado usasse o velho pullover aos losangos que ela oferecera ao falecido no dia em que fizeram 25 anos de casados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre Montalvão, levou castigo a dobrar: não só foi obrigado a festejar um quarto de século de martírio, como o teve de fazer envergando um exemplar do que pior se produziu na indústria de malhas em Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi num escaldante final de tarde que, inebriados pelo cheiro a desinfectante hospitalar, misturado com o aroma da naftalina que emanava da camisola, que a Elisa e o César…grrrrrrr traçaram o meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas semanas mais tarde a Lili convidou-me finalmente para ir lá a casa. Afinal, mais cedo ou mais tarde eu teria que conviver com a besta... também conhecida como enfermeira Elisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim de hora e meia a ver um Especial Serviço de Urgência, no AXN, - e a dizer mal de tudo, incluindo, pasme-se, do George Clooney - a velha levantou-se e despediu-se com um lacónico "Até amanhã". E um surpreendente "Não me preparem pequeno-almoço que eu estou de urgência a partir das 6 da manhã".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu devia ter suspeitado que estava a ser fácil demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, nesse instante, a Liliana surpreendeu-me com mais um daqueles olhares telepáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez a mensagem era "Lembras-te daquela personagem do Boogie Nights? Eu fico mais sexy do que ela, toda nua e só com patins".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêm, a nossa relação corria sobre rodas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos os dois tão entretidos a deixar-nos consumir pelo fogo da paixão que nem notamos que alguém se esgueirara para o interior do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malditos sapatos de hospital! Graças a eles a Elisa entrou sorrateiramente e trocou os meus boxers por um par de cuecas roubadas a um paciente de Urologia lá do hospital…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, eu realmente devia ter estranhado que os meus Dim de licra se tivessem convertido numas truces azul bebé, daquelas com abertura diagonal na zona da braguilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As clássicas cuecas de velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Manelinho começara a chorar desalmadamente. E, já se sabe, quando aqueles 90 centímetros de menino abriam a goela, ui, não havia sirene dos bombeiros que lhe fizesse frente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente nada de grave. O único mal que afligia o Manelinho chamava-se Elisa…  e aqui, pela primeira vez em não sei quantas histórias, dou-me ao luxo de usar um palavrão, porque se justifica, mais do que nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que a puta da velha tinha ido sorrateiramente ao quarto espetar um alfinete nas coxas rechonchudas do menino, só para o acordar, criando assim uma manobra de diversão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mal o menos, o puto vingou-se uma semana depois, quando enfiou a traseira de um hotweels na retina da Elisa. Cabra-cega, chamaram-lhe os putos lá da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esfalfada de cansaço, a minha bela adormecida - ou antes, bela estremunhada - ainda esboçou uma tentativa para socorrer o filhote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu, que me apaixono por tudo e por nada, amava a miúda ao ponto de abdicar de todas as noites de sono deste mundo, para que ela tivesse um punhado de horas de sossego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, travei-lhe o avanço com um afago na cabeça. E fiquei ali a embalar o Manelinho nos meus braços, e a contemplar a minha patinadora, à medida que ela se deixava embalar nos braços de Morpheus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morpheus?! Mas que caraças é que estava o preto do Matrix a fazer no quarto dela? - pergunta uma das leitoras, que se distraiu a ver o "Querido Mudei a Casa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual Matrix qual quê! Não é esse Morpheus, é o outro. O Deus dos sonhos - responde uma outra leitora, um bocadito mais atenta, porque estava a ver "O Amor no Alasca", no Fox Life, mas como era um episódio repetido podia estar um bocadinho mais atenta a este naco de prosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, enquanto vocês as duas estavam para aí a discutir eu fui acometido de uma terrível comichão na região... digamos... genital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão terrível que, na manhã seguinte, não tive outra alternativa senão ir a correr ao centro de saúde, onde a enfermeira de serviço era... vejam lá se adivinham?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso mesmo, a minha futura tia por afinidade, enfermeira Elisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bonito! Vocês os gajos são todos merda da mesma merda... armado em bonzinho com a minha sobrinha e, vai-se a ver, anda a meter o coiso na primeira badalhoca que lhe aparece à frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh espera lá, que isto não é assim! Aqui o amigo pode ser um bocadito dado à malandragem, mas doenças sexualmente transmissíveis não entram no meu vocabulário. Nem no meu organismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só talvez na secção dos preservativos rasgados. Mas nem era esse o caso, que antes da Lili passara três intermináveis meses de jejum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não por falta de oferta, mas porque estava a guardar forças para o dia em que finalmente engatasse a professora Filipa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois, que uma noite nos braços uma instrutora de body pump, step e sabe-se lá mais o quê era bem capaz de me rebentar com as coronárias, se eu não estivesse devidamente preparado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vou falar com ela. De certeza que vai compreender que é tudo um mal entendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Compreender? Vai rezando, filho... pode ser que aconteça um milagre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois, um milagre. Ainda bem que no início desta história eu falei do filme Ben Hur. Assim já tenho um pretexto para meter a piada que se segue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu realmente ia precisar de intervenção divina. Mas, já se sabe, nestas coisas dos milagres há os filhos e os enteados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se ao Ben Hur bastaram uns anitos de escravatura e converter-se ao catolicismo à pressão para o Jesus Cristo curar a mãe e irmã de um grave caso de lepra, a mim que atravessei o Vale das Trevas com os máximos e as luzes de nevoeiro fundidos não houve milagre que me valesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se quis curar a herpes genital tive que gramar com uma injecção intramuscular de penicilina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, eu sei que a herpes não se cura com penicilina. Nem com ela, nem sem ela. Não se cura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas talvez a enfermeira Elisa tenha descoberto uma forma inovadora de curar a doença: aplicando a injecção como se fosse a Sharon Stone agarrada o picador de gelo, no Instinto Fatal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, dois dias depois de ter levado com aquela agulha em forma de vareta do óleo na nádega direita, eu estava curado. Completamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Milagre? Qual quê. Foi mas é erro de diagnóstico. Não comigo, mas com o paciente a quem a Elisa tinha gamado as truces para me contaminar com herpes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, parece que o homem tinha apanhado uma outra galiqueira qualquer. Igualmente feia e dolorosa. E igualmente propensa a atingir tanto os genitais, como a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o diga a enfermeira Elisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embriagada pelo aparente sucesso, no dia em que me atendeu nas urgências correu a telefonar ao seu queridinho César.... grrrrrrrrrrrrrr, dando-lhe a conhecer os resultados do plano maquiavélico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, somítica como só ela sabia ser, a Elisa aproveitou uma distracção minha - leia-se "a espernear no meio do chão, aos gritos e cheio de dores"-, agarrou no meu telemóvel e lá foi ela conspirar para a sala dos curativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamentavelmente, para ela, eu não sou nada do género de andar de puchetezinha a tiracolo. Daquelas onde se guardam carteira, telemóvel, chaves do carro e afins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comigo, funciona tudo na base de empurrar para dentro do bolso das calças até a chave de casa tocar no escroto. É claro que isso tem as suas consequências: a principal são os constantes rasgões nos bolsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perigosas cumplicidades se estabelecem entre os meus objectos pessoais e o júnior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que não fosse de estranhar que o telemóvel aqui do amiguinho estivesse impregnado daquela infecção que me consumia a genitália e áreas adjacentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um verdadeiro "porta-bactérias" mesmo ali, encostadinho à cavidade bucal da enfermeira. Tunga, 1 a 1. Tá empatado…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se a uma boca contaminada, juntarmos um chá ao final da tarde com o César - chá com pimenta, entenda-se - o resultado é uma vingança ainda mais doce que a minha já célebre mousse de manga. Pimba, 2-1. Já ganhei…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o corpo estava curado e a alma também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, infelizmente, isso não era suficiente para o final feliz que todas vocês esperam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque nestas minhas histórias, os finais felizes são um bocadinho como as erecções de 30 centímetros... só se vêem nos filmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao saber da infecção genital, a minha doce patinadora ficou de tal forma chocada que decidiu inverter os papéis: pôs-me um par de patins, fazendo-me deslizar delicadamente para bem longe dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, se ao menos eu tivesse aqui a máquina de teletransporte do Star Trek...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois toques no bolso da camisa, um lacónico "Beam me up Scotty" e zás, lá estava eu a bordo da nave Enterprise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rumo à galáxia dos corações despedaçados... full power Mr. Sulu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pst, ò amiguinhas, escusam de continuar a fazer scroll down que a história de hoje acabou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaba mal? Pois acaba, mas o que é que querem? A culpa é vossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixam-me passar o dia a ouvir o Nick Cave e depois queixam-se que eu estou assim amargo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vá, portem-se bem e se passarem na zona avisem que eu arranjo-vos uma tacinha de mousse de manga...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, beijocas e até breve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-896517635363004541?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/896517635363004541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/896517635363004541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/08/patinadora.html' title='Patinadora'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-5513442480850744856</id><published>2008-08-28T11:29:00.000+01:00</published><updated>2008-08-28T11:32:48.484+01:00</updated><title type='text'>Tata Clarisse</title><content type='html'>Hoje começo com uma adivinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é que eu e o Michael Douglas temos em comum?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Catherine Zeta Jones? Era bom, era! Nada disso…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu e o Michael temos em comum é uma Glenn Close. Quer dizer, não a actriz propriamente dita, que essa, merece-me o mais profundo respeito e admiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estou é a falar na personagem Alex, a loira encaracolada que faz a vida negra o Michael Douglas no filme Atracção Fatal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tal fita que tantas noites de insónia deu aos casados especialistas no "come e foge", que tremiam de medo só de pensar que as namoradinhas seguissem o exemplo e zás... lhe entrassem em casa aos berros, a empunhar um daqueles facões de cozinha do Ikea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo os do Ikea, que ganham ferrugem com tanta facilidade. Se o aprendiz de Michael Douglas não patinasse com duas facadas, o tétano encarregar-se-ia de acabar o servicinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, minhas queridas. Aqui o vosso amigo também teve direito à sua psicopata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que, no meu caso, era mais uma psicogata que a Clarisse era uma miúda bem gira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bocadinho assim pró alternativa - parecia saída de um videoclip dos Evanescence - mas a verdade é que dentro de mim sempre houve um Anakin Skywalker mortinho por experimentar o lado negro da Força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que força ela tinha! A única vez que me deu uma chapada deixou-me os pré-molares a abanar durante uns bons dois anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas pior que os maus-tratos físicos era a pressão psicológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante dias a fio fez-me marcação cerrada. Perseguia-me para todo o lado e plantava-se à porta da minha casa. O que pelo menos contribuiu para que durante uma semana não houvesse assaltos na vizinhança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando viu que a estratégia não resultava, virou-se para os meus amigos e familiares. Deu-lhes a volta à cabeça... no sentido figurado e literal, também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a Clarisse foi durante uns tempos assistente do endireita lá da terra. E tentou seduzir à custa de sessões grátis de tratamento a torcicolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a confirmação de que ela era efectivamente a minha Glen Close só apareceu quando numa bela tarde ela me arrombou a porta de casa, matou-me o coelho e deitou-o à panela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que neste caso até deu um certo jeito, porque o bicho tinha sido o presente de uns tios da aldeia. E eu confesso que não fazia a mínima ideia de como transformar o primo do Bugs Bunny no suculento Coelho à Caçador, que o cozinheiro Michel ensinava a fazer nas páginas da Nova Gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora que já estão feitas as apresentações - minhas queridas, esta é a Clarisse, Clarisse estas meninas são minhas leitoras e amigas que fizeram o favor de te vir visitar ao Hospital Psiquiátrico - chegou a hora de saberem como é que eu me fui meter nesta embrulhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo aconteceu num dos dias mais delicados na vida de um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual exame à próstata, qual quê!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estou é a falar do dia em que fui comprar umas calças de ganga novas. Sim, ou vocês acham que é fácil escolher um par de jeans que combinem bem com o resto da roupa que têm lá em casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois, que o orçamento aqui do cromo não dá para comprar mais que um par de cada vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante que eu tenho de acabar a história antes que comece o programa da Oprah e eu bem sei que vocês não se ensaiam nada de trocar as minhas piadolas foleiras pelos conselhos ainda mais foleiros do Dr. Oz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se escolher uns jeans novos já era tarefa para me levar a um princípio de esgotamento, a coisa piorou ainda mais quando tive a infeliz ideia de mudar de marca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque eu com as calças de ganga sou como a minha mãe com o arroz de marisco: quem nos tira a Salsa tira-nos tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a tentação aparece de onde menos se espera. E se Adão e Eva caíram no truque da maçã, eu caí no truque dos Saldos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A diferença é que, em vez da cobra, no meu caso a tentação foi-me gentilmente proporcionada pela loja da Levis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do resto do país, lá na terra tínhamos 3 épocas de saldos: no Natal, no Verão e quando o dono, o João Paulo, atingia o limite máximo de endividamento no Casino ilegal do Neca Almeida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, à primeira vista vender jeans de 75 euros por 25 paus não parece um bom negócio. E realmente não o era. Mas sempre era melhor do que ter as rótulas partidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim sendo, estava escrito que ao final desse fatídico dia e havia de sair da loja com um par de 501 debaixo do braço. Mas antes havia um longo e tortuoso caminho a percorrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque, no universo do pronto a vestir, há duas verdades universais: nunca vender fiado e só entregar calças Levis a quem tenha um par de nádegas dignas desse nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, minhas queridas, o vosso amiguinho leva uma abada das valentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que o Criador às vezes tem umas ideias assim meio parvas. No meu caso, achou que lá por me ter dotado de um sentido de humor… enfim, mais ou menos acutilante, não precisava de se preocupar com o rabiosque aqui do rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá o gajo até tem um humor porreirinho por isso as miúdas nem o vão olhar da cintura para baixo - terá o Criador magicado enquanto caprichava o desenho do rabiosque do Enrique Iglesias, que viria a nascer 3 meses depois aqui do "yours trully".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois. É que a mim ninguém me tira da cabeça que o belo par de nádegas do Enrique estava destinado a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só foi desviado para o sacana do espanhol porque o papá Júlio Iglésias arranjou maneira de meter uma cunha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que ter um filho equipado de série com um par de glúteos topo de gama tem o seu preço. E no caso do Júlio Iglésias ele foi bem elevado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia dúzia de anos depois foi obrigado a cantar um pavoroso dueto com o Willy Nelson - "To all the girls I've loved before" - um velho capricho da shô dona Criadora, que o recebeu de presente pelo 12354568499.º aniversário de casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, tudo isto para vos dizer que me calhou em sorte um par de glúteos tão minúsculos que é perfeitamente passar a ferro, em cima deles, um jogo inteirinho de lençóis 100 % algodão, sem o menor risco de deixar rugas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho de qualquer mulher-a-dias, pois com certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se combinarmos esse desastrado capricho da anatomia com a configuração específica das gangas Levis, o que temos é um par de jeans a descaírem por tudo quanto é sítio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenham dúvidas: as calças da Levis são feitas para gajos com um rabo e sem esse acessório fundamental, elas andam por ali à solta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sério, é indescritível. A meio da prova fui dar uma voltinha - que o João Paulo quando se via atrapalhado até nos deixava fazer um test-drive às calças e tudo - e quando voltei do café tinha os bolsos de trás na parte da frente e a braguilha nos joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esta altura estava decidido a sair dali de mãos a abanar e esperar que os meus velhos Jeans se desintegrassem pelas pernas abaixo, quando uma voz doce me fez mudar de ideias:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, que estrondo!!! Aí dentro ficas tal e qual o Tom Cruise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hum... as palavras - e o corpinho - da jovem vestida e maquilhada de negro deram-me o incentivo que faltava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, em certas circunstâncias muito específicas, a roupa descaída até acaba por ser favorável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente quando se tem no bolso um maço de lenços de papel - daqueles gordinhos, da Renova - e as calças giram uns 20 graus para a direita criando uma ilusão de óptica na zona pélvica, também conhecida como "chumaço".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que, apesar de constituir um caso grosseiro de publicidade enganosa - e poucas vezes o grosseiro foi tão bem utilizado - viria a salvar-me a vida, como o ficarão a saber uns parágrafos mais adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema - e na minha vida aparece sempre um problema que dá cabo do esquema todo - é que a minha nova melhor amiga não tinha dito exactamente Tom Cruise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era mais Tó Cruz, o ex-namorado, estrela de uma banda de garagem - para ser mais exacto, banda de lugar de garagem, que lá no prédio não havia garagens individuais - a quem os jeans Levis assentavam mais ou menos como a mim: meio metro abaixo da cintura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pior é que as semelhanças não se ficavam por aqui. Ao que parece, os meus pêlos no fundo das costas eram a cara chapada - salvo seja - dos pêlos no fundo das costas do Tó Cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O engano é compreensível. Alguma de vocês foi ultimamente a uma loja de gangas? É mais ou menos como estar dentro de um carro todo tunning: música nas alturas e toda a gente a olhar para nós com cara de gozo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que esta segunda parte talvez se aplique só a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for eu estava grato à Clarisse por ela me ter ajudado naquela hora difícil. Vai daí, achei por bem não me ir embora sem a convidar para sair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um convite que ela aceitou sem pestanejar. O que não me admirou porque até nisso ela era parecida com a Glen Close. Ainda se lembram da cena em que ela fica de olhos abertos dentro da banheira um montão de tempo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que brindei a Clarisse com o privilégio de me ajudar a fazer a rodagem aos novos 501. Se ela me ajudou a vesti-los, era justo que fosse ela a primeira a despi-los, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Errado! Cedo demais percebi que seria eu mesmo a tirar os jeans. Isto se eles não me caíssem pelas pernas abaixo, antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que entre mim e a Clarisse havia aquilo que eu chamo de "relação tipo isqueiros Bic": ao fim de duas fricções percebemos que não vai dar chama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, não me restava outra alternativa que não fosse uma despedida rápida, sem beijos a apanhar uma boa parte da boca nem afagos na parte que eu chamo costas, mas que ambos sabemos que se chama nádega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo rematado com um "xau, eu depois ligo" que é como quem diz "no dia de S. Nunca".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vocês já me conhecem e sabem que eu às vezes sou tão parvo que até dói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não resisto a armar-me em bom samaritano. Aliás, por causa disso há quem garanta que eu sou o cruzamento do Zézé Camarinha com a Madre Teresa de Calcutá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, olha, decidi dar uma segunda oportunidade à miúda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E que tal um cinema amanhã à noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa ideia. Mas só se for um filme com o meu actor preferido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual? - mais valia ter partido uma perna, a fazer esta pergunta, pensei eu 10 minutos depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquele bonzão que fez de Canibal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, eu que me apaixono por tudo e por nada tenho uma paixoneta por cinema. E na minha cabeça, quando se fala em canibal, só um há nome que vem à baila: Hannibal Lecter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, nessa altura eu ainda estava longe de saber que a Clarisse era uma das cinco pessoas que viu um horrendo filme dos anos 80 chamado Holocausto Canibal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, uma obra de culto... sendo que o culto deve ser aqui entendido como "curso de formação profissional para psicopatas em início de carreira".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, eu não podia saber disso! Como tal, ao ouvir falar em canibal, saí-me com esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "Quid pro quo Clarisse".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mal dos meus pecados a resposta não foi propriamente aquela que eu esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò querido, eu por acaso até gostava de experimentar, mas infelizmente tenho uma fístula no ânus que está sempre a deitar pus e me dói imenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como se eu não tivesse ficado suficientemente horrorizado com a resposta, decidiu ser um bocadinho mais explícita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espera aí que eu já te mostro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem que eu tivesse tempo de esboçar uma reacção - do género, fechar os olhos e começar a gritar "tem calma que é só um pesadelo" - ela virou-se, baixou as calças e mostrou a famigerada fístula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditem, meus doces, desde essa noite nunca mais olhei para um rabinho com os mesmos olhos. A sério, logo eu que sempre adorei aquele efeito de estrela que o ânus faz quando as queridas se dobram e afastam levemente as nádegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual efeito de estrela qual quê. No caso da Clarice era mais o efeito de uma Supernova acabadinha de explodir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, acabou ali a noite. A da Clarisse, entenda-se. Que a minha só terminaria 2 horas mais tarde, após ter ido à farmácia comprar duas caixas de Xanax.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque eu sou daqueles que não consegue pregar olho depois de ver um filme de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, um outro filme estava prestes a começar: um thriller.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava de me recompor daquele involuntário – e traumatizante – exame rectal. Por isso inventei uma desculpa para me descartar da ida ao cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, pelos vistos, a Clarice não era mulher para se contentar com um "desculpa lá, mas tenho uma unha do pé encravada e só posso andar para a semana".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro foram os SMS a querer levar-me ao podologista. Depois os telefonemas a pedir que mandasse fotos da unha. E por aí fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se passou em seguida já vocês sabem... pelo menos deviam sabê-lo se não saltaram os parágrafos 11 a 16. Se o fizeram, olhem, de castigo voltam para trás e lêem tudo de início.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O assédio continuou durante algumas semanas, até que houve um acontecimento que me fez perceber que precisava de ajuda. Urgentemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia de manhã acordei com um estranho formigueiro nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha passado a noite a sonhar que era atropelado vezes sem conta por um corta-relvas. Mas nunca imaginei que a Clarice fosse capaz de entrar pela janela e, enquanto eu dormia, me rapasse os pêlos do fundo das costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os tais que eram parecidinhos com os do Tom Cruise… quer dizer, do Tó Cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora que os pêlos se foram, sempre quero ver como vais engatar as miúdas das lojas - lia-se numa folha de papel que ela deixara na mesa-de-cabeceira, juntamente com uma daquelas depiladoras eléctricas Epilady.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse momento que decidi ir à polícia. Agarrei na folha de papel e lá fui eu ao posto da GNR mais próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reparem bem: "agarrei na folha de papel". Só na folha, porque a Epilady ficou bem guardadinha lá em casa. Havia de dar jeito no dia em que ganhasse coragem para aparar as sobrancelhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditem, um dia que me conhecerem pessoalmente irão perceber a piada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois é, meu amigo. Você arranjou um lindo serviço - disse o Sargento Carvalho, enquanto usava a folha A4 da Clarisse para apontar os números do Loto 2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro... quem é que o manda a si obrigar a rapariga a fazer sexo anal? - quem sabe para tentar cocar o decote da Serenela Andrade, o Sargento aproximou-se ainda mais da televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu não obriguei a nada!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ainda para mais tendo a rapariga uma fístula, que dói tanto. A minha mãezinha, que Deus a tenha, teve uma e sofreu tanto... cada vez que ia à casa de banho os gritos ouviam-se no café, que fica do outro lado da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Sargento, valha-me Deus. Esta mulher é doente, precisa de ser internada... faça alguma coisa antes que ela cometa um crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oiça lá, o que você aqui me traz não prova nada. É tudo circunstancial. De maneira a que, olhe, defenda-se como puder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Defender? Mas como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sei lá! Arranje uma arma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma arma!? Logo eu que nos tempos de tropa fiquei conhecido como o gajo que deu um tiro para o ar e acertou no pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não no meu, mas sim no pé do Furriel Amadeu, que por azar estava a jogar cartas no andar de cima da messe, no dia em que tive a infeliz ideia de praticar tiro às lâmpadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desesperado - não tanto por causa das maluquices da Clarice, mas sim pelas Levis que insistiam em cair-me rabo abaixo - lá fui eu ao centro da cidade, disposto a fazer qualquer coisa para me ver livre delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem que tenha que as trocar por umas calças de cota, tipo Marlboro - pensei eu com os meus botões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os botões da camisa, que os dos jeans iam longe demais para ouvir os meus pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu a remexer os bolsos, à procura do talão de compra, a ver se o parvo do João Paulo me aceitava as Levis de volta, quando uma voz familiar, outrora meiguinha, me invadiu os tímpanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde é que vais com tanta pressa, tarado? Arranjar uma parva que te deixe ir ao c...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Clarisse!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim era ela. Apesar do look um bocadinho diferente do que tinha quando a conheci. Em vez de Evanescence, o estilo dela era mais Moonspell.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no lugar do leitor de códigos de barras, ela empunhava agora uma tesoura de poda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem que eu tivesse tempo de reagir, virou a tesoura para mim e gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se não és meu, então não vais ser de mais ninguém...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E zás...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aplicou um corte na região onde o júnior se encolhia, a tremer de medo e a pedir perdão aos céus por todas vezes que se tinha metido onde não era chamado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.... um esguicho vermelho cobriu-lhe as mãos e ela não conteve uma gargalhada maquiavélica… também conhecida como gargalhada dos chanfradinhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... só mais umas reticências para aumentar a intensidade dramática...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, a esta altura convém lembrar que eu usava as famigeradas Levis, que não me assentavam nada bem no rabo e, como tal, descaíam para todos os lados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda bem que assim era porque, se em vez de ela cortar ao meio um maço de lenços da Renova, me tivesse cortado o... enfim, vocês sabem de quem estou a falar, a esta hora eu estava a cantar tão fininho que o mais certo era eu fazer parte do elenco dos Il Divo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ahs, já me esquecia do esguicho vermelho. Não tem nada que saber: na noite anterior tinha ido jantar ao Mac e claro eu nunca perco uma oportunidade de gamar uns sacos de ketchup.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que a Clarisse descobriu minutos depois, quando lambeu os dedos e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não há nada mais doce que o sangue da vingança!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permita-me que te corrija, minha linda. Acho que lá no Hospital Psiquiátrico para onde vais têm uma geleia de ameixa bem docinha, que combina muito bem com dois ou três Valium esmigalhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que, ao ver os enfermeiros a meterem-lhe o colete-de-forças, fui acometido de um inesperado momento de compaixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não fui capaz de a deixar partir sem uma despedida que honrasse os poucos minutos de sanidade mental que passamos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tata Clarisse - a frase era acompanhada de um leve aceno, a imitar o Hannibal Lecter que, soube mais tarde, ela sempre detestara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante, ela revirou os olhos como se estivesse possuída por um espírito maligno. Ou isso, ou com uma inflamação na fístula. Não deu para perceber ao certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tata não! Ratatatata - gritou ela, tentando imitar uma metralhadora - que eu da próxima vez que te encontrar não há cá tesourinhas de poda. Arrumo contigo à rajada de Kalashnikov que é mimo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante senti um arrepio na espinha. Não por causa das palavras da Clarisse, que de ameaças estão o inferno e o meu e-mail cheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O arrepio foi provocado pela respiração ofegante da Daniela, a giraça empregada da loja da Salsa, que se posicionou mesmo atrás de mim, no meio daquela confusão toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deves estar arrasado. Uma doida destas dá cabo da vida a qualquer um - sussurou a miúda ao meu ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tom de voz suave, o bafo quente e o afago no ombro foram o consolo que eu precisava naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pobrezinho, emagreceste para aí 10 quilos... nem as calças te servem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se ao menos tivesses por lá uns modelos porreirinhos em saldo – respondi eu a ver se pegava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Saldo? Esquece... depois do que passaste, o mínimo que posso fazer por ti é vender-te umas com desconto de funcionária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quê? 50 por cento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Exactamente... e ainda te fazemos a retoma das Levis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Dani, como é que eu te posso agradecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho a certeza que vais arranjar uma maneira de me recompensar - ao dizer isto, a Daniela não evitou um olhar malandro para o chumaço de lenços de papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera lá, eu não tinha dado os lenços de papel à Clarisse para ela limpar a maquilhagem borratada? Então se não são os lenços só pode ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uffffff... o júnior estava de volta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ver alguma coisa a crescer dentro da braguilha, a Daniela não conteve um gritinho de espanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas ele não tinha morrido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que por "morrido" a miúda entendia "castrado". E eu, talvez ainda sob o efeito do choque, percebi morrido, no sentido "impotente". E por isso, saí-me com esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah não te preocupes. Ele pode morrer mas cresce outra vez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim nasceu o mito do Pénis Imortal. Ainda melhor que o Highlander, porque, pelos vistos, o meu não morre nem que lhe cortem a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso é uma história que vai ter de ficar para outro dia, porque eu agora vou ter de ir ali comprar umas calças e levar uma miúda a jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não necessariamente por esta ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Dani, tu gostas de coelho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adoro!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Óptimo. Tenho lá no frigorífico um caseirinho, ideal para experimentar a receita de coelho recheado com frutos silvestres, que o Jamie Oliver ensinou a fazer na SIC Mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Note-se a subtil alteração no menu. Pelo aspecto, a Daniela era miúda de gostos refinados, muito pouco dada às charopadas do Michel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espera lá, caseiro? - perguntou a Daniela, sem disfarçar a carinha de enjoo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. Porquê? Não gostas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, normalmente o coelho caseiro ainda vem cheio de pêlo. E se há coisa que eu detesto é pêlo na comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah não te preocupes com isso que eu tenho lá em casa uma Epilady eléctrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A sério?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Regulamos aquilo para a velocidade de rapa-virilhas e não há pêlo que lhe resista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens a certeza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, passa a mão no fundo das minhas costas e vais ver…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-5513442480850744856?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/5513442480850744856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/5513442480850744856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/08/tata-clarisse.html' title='Tata Clarisse'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-8198511697224989064</id><published>2008-08-01T22:19:00.000+01:00</published><updated>2008-08-01T22:20:15.293+01:00</updated><title type='text'>Casablanca</title><content type='html'>&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;É costume dizer-se que a nossa vida dava um filme.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A minha então dava um clube de vídeo inteirinho. Com todos os géneros: drama, comédia, romance, acção... you name it!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ah, e sem esquecer uma prateleira discreta dedicada aos filmes para adultos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Infelizmente, como não temos tempo para falar deles todos, vou ter de escolher um: Casablanca, pois claro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ou será que ainda não deu para notar que eu tenho uma pancada das grandes por este filme?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Pancada, ao ponto de ter chamado Rick ao único animal de estimação que aceitei receber em casa (para além da tradicional colónia de aranhas e moscas).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Era um feiíssimo gato vadio, mas que entrou muito bem no espírito do filme. A diferença é que se enganou na personagem e, à semelhança da Ilsa, rumou a outras paragens deixando-me triste e abandonado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Mas, olha lá, que raio é que tem o Casablanca a ver com a merd.. da tua vida? - perguntam as minhas queridas, já fulas da vida porque o raio do Páreo do Augustus, que saiu na Caras da semana passada, ficou entalado no fecho da mala da Samsonite.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Tem tudo a ver! Para começar, a minha vida é um bocadinho como o Café do Rick, lá em Casablanca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Está sempre a entrar e sair dela gente como:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Oficiais nazis... que é como quem diz, mulheres dominadoras, dispostas a subjugar-me às suas vontades, como se eu tivesse cara de Polónia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Colaboracionistas franceses... mulheres desleais e traiçoeiras, capazes de me trocar pelo primeiro ariano loiro que lhes atire um piscar de olhos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Judeus em fuga... basicamente, mulheres desesperadas que já bateram em todas as portas e só me procuram em último recurso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E como se isto não bastasse, houve um momento da minha vida em que me vi envolvido num enredo que mais parecia tirado a copy-paste do argumento do Casablanca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Aconteceu aqui há uns 5 ou 6 anos, quando o centro do meu mundo era precisamente Casablanca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Não a cidade, que eu de Norte de África o único sítio que estive foi em Rabat...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;[uff, ainda bem que ninguém percebeu o trocadilho ordinário]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Era sim o Centro Comercial Casablanca. Uma superfície comercial simpática, com gente afável, educada e... endividada até à raiz dos cabelos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Aberto em época de crise e com obras permanentes que o tornavam num espaço tão acolhedor como a frente de batalha na II Guerra Mundial, o shopping nunca tivera grande clientela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Para além das moscas e do pessoal das obras, só lá paravam meia dúzia de parvos que iam ao engano, em busca de um bar de alterne com o mesmo nome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Como se não bastasse já esta generosa dose de misérias, os lojistas e os poucos clientes viviam debaixo do regime opressivo da Gest Apo, uma sinistra empresa de crédito ao consumo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Praticamente toda a gente tinha contas a ajustar com a temível multinacional alemã. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Remodelar a loja, reforçar o stock em épocas de maior movimento, comprar um plasma de último modelo ou mesmo um portátil todo catita eram tentações constantes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E, já se sabe, ceder ao chamamento consumista é um bocadinho como ir mudar a lâmpada à vizinha de cima. Ao princípio é mesmo muito bom... mas mais cedo ou mais tarde acabamos por apanhar um choque.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;No caso da vizinha, apanhámo-lo quando ela nos aperta um bocadinho mais a nádega e, acidentalmente, enfiamos o dedo dentro do casquilho, levando uma descarga eléctrica daquelas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Já no caso dos créditos, o choque só se dá um bocadinho mais tarde. Mais ao menos no final do mês, quando chega a primeira prestação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ora, por ironia do destino, a minha companheira da época era a Simone, uma gestora de crédito implacável, conhecida no meio como a Majora... por ter feito carreira na empresa de jogos didácticos com o mesmo nome, antes de ingressar na Gest Apo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Era uma relação complicada. Ela praticamente nunca estava em casa e quando aparecia, a altas horas, era como se me entrasse em casa um esquadrão panzer: avançava por ali dentro à força toda e só parava quando eu caísse no chão, inanimado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Qual "rendo-me" qual carapuça. O lema da Simone era "não fazer prisioneiros". Nem na cama, nem no trabalho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ah... o trabalho. Absorvia-a de tal maneira que nem no calor da paixão ela o esquecia. Diálogos como o que se segue, eram o prato do dia:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Com que então não tens dinheiro para pagar o crédito da mobília da sala? - gritava a Simone, enquanto me arrancava a roupa à bruta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Pois... será que não dá para renegociar o contrato? - confesso que o papel de desgraçadinho me assentava que nem uma luva.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Nein!!! Parece-me que vais ter que pôr alguma coisa no prego.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- No prego? Bem, se for no meu prego posso sempre pôr-te a ti!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Óptimo. Mas vais ter que te despachar que pelos vistos, essa tua taxa de juro está a subir em flecha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;É obvio que tudo não passava de um saudável jogo do gato e da rata... &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A verdade é que eu, que me apaixono por tudo e por nada, era dos poucos que estava a salvo da fúria da Gest Apo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Eu e a Ricoh's, a minha pequena loja de fotocópias, por muitos considerada a única zona neutra daquele conflito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Toda a gente a frequentava: universitárias, com as suas 20 toneladas de sebentas; lojistas com os seus dossiers intermináveis de processos contra os construtores do shopping; e - os meus favoritos - os funcionários da Gest Apo que iam lá fotocopiar (a cores, para posteriormente emoldurar) as suas primeiras ordens de penhora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A vida até nem me corria mal. Mas o destino tem a mania de se armar em croupier do casino e volta e meia lança as cartas de maneira a fazer-nos perder.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E foi assim que, numa bela tarde, estava eu a fotocopiar umas sebentas de filosofia, quando o não menos sebento Samuel - um cabo-verdiano, velho amigo dos tempos de escola, que ia lá de vez em quando mudar os toners - se lembrou de pôr a tocar no leitor de CDs o "One" dos U2.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Bolas, logo essa música que teimava em trazer-me à memória a mais triste das recordações.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Quantas vezes eu já te disse para não passares essa música, Sam!? - gritei eu, ao mesmo tempo que lhe amandava com uma gramática do Lindley Cintra à testa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ele ainda esboçou uma resposta. Mas não foi capaz: primeiro porque tinha um traumatismo craniano e o sangue escorria-lhe pela cara abaixo. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;br /&gt;E segundo porque nesse instante se chegou à frente um dos meus fantasmas do passado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Olá Rico! - disse a Elsa, sem disfarçar um brilhozinho nos seus doces olhos castanho-avelã.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;De um momento para o outro, tudo à minha volta ficou a preto e branco. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ia começar a berrar com o Sam por ele ainda não ter mudado a porcaria dos toners, quando me apercebi que estava a viver um flash-back, como aqueles que se vê nos filmes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Estava de volta a Paris, naquele inesquecível Verão de 1992.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Cumpria o sonho de adolescente: fazer um Inter-rail pela Europa fora, sem destino traçado nem horários para cumprir. Um lema que, descobrira nessa viagem, foi inventado pelos Caminhos de Ferro romenos, especialistas em chegar a desoras, a lado nenhum.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Acompanhado pelo inseparável Samuel - sendo que o inseparável deve ser aqui entendido como "colante que nem uma lapa" - tínhamos percorrido a Europa inteira e estávamos agora perante um dilema.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ir visitar o Museu do Louvre, a Paris. Ou ir à Love Parade, em Berlim. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Eu sei que ambas as opções são um bocadinho pr'ó abichanadas mas ao menos no museu não corríamos o risco de adormecer nos braços de uma Helga e acordar ao colo de um Helmut.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ao fim de algumas horas a tentar convencer o Sam, lá o consegui seduzir com as minhas descrições pormenorizadas do Pigalle.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E foi já na cidade das luzes que conheci a Elsa. Uma doce morena, alta e curvilínea, que frequentava um curso de Verão em Paris.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Bem, às tantas não era assim tão bonita e perfeitinha. Mas, convenhamos: ao fim de meia hora a olhar para a songa-monga da Monalisa, até um orelhudo como o Sarkozy passava por gaja boa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Seja como for, toda a gente sabe que em Paris o amor é um bocadinho como o café: instantâneo! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Uma intensa troca de olhares, no Louvre, seguida de uma não menos intensa troca de beijos na Torre Eiffel e zás... lá estávamos nós a trocar juras de amor eterno nas margens do Sena.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Nos braços um do outro, os dias fizeram-se horas, as horas fizeram-se minutos e os minutos fizeram-se poeira, que se esvaneceu pelos ares, levada pela suave brisa que nos acariciava os rostos, em cima da ponte Alexandre III...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ai... Por favor alguém me dê com um barrote de madeira na cabeça antes que eu me torne estupidamente romântico...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Boing!!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Obrigado, querida... assim está melhor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ora bem, onde é que eu ia? Ah na Ponte Alexandre III. Para quem não está bem a ver, é aquela de onde o Roger Moore saltou, no 007 Risco Imediato, aterrando em cima do Baton Mucho, ou lá como é que se chama aquela porcaria.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E foi precisamente em cima dessa ponte que as primeiras nuvens negras começaram a ofuscar o sol que iluminava esse Verão interminável em que se transformara o nosso amor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ui, que lá estou eu outra vez... barrote de madeira, please!!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Boing!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Gracias... as tais nuvens negras apareceram sob a forma de notícias. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Uma amiga viera dizer-nos que o Adolfo, um alemão minorca que se dizia namorado da Elsa, soubera do nosso petit affaire (que de petit não tinha nada).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Alguém lhe ligara para Berlim, onde tinha ido para participar num seminário - que é como quem diz na Love Parade - e o homem passou-se. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;br /&gt;Juntou uma data de rufias (hooligans lá do clube de futebol dele) e vinha em direcção a Paris, puto da vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A nossa única saída era fugir essa mesma noite para Lisboa, onde o Adolfo não se atrevia a ir, por causa de um mandato de detenção que pendia sobre ele. Ao que parece, provocara uns desacatos, no intervalo de um jogo do Hertha de Berlim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Uns anos mais tarde, uma delegada do Ministério Público que dormia lá em casa às terças e quintas, confidenciou-me que afinal o Adolfo era procurado por exposição indecente em pleno Parque Eduardo VII.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mas isso são contas de outro rosário.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O que importa para o caso é que, à hora marcada estava eu em plena Gare du Nord, pronto a embarcar no Sud Express, rumo a Portugal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Esperei, esperei, mas Elsa nem vê-la. Em vez dela apareceu-me o Sam, com um recado - "Ela não vem, já não me lembro muito bem porquê" - e com os gendarmes à perna, depois de ter fugido do Moulin Rouge sem pagar a conta.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Rico, Rico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ah, há tanto tempo que ninguém me chamava esse "petit nom"...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Com a sua voz meiga, a Elsa trouxera-me de volta ao Presente. Ainda por cima, um presente envenenado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Dez anos depois, estava casada com um comerciante de origem judaica. O Vítor Lázaro era o gerente da Resistência Francesa, uma loja de artigos de electricidade, especializada em resistências eléctricas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O negócio até nem lhes corria mal. Mas um dia tiveram a infeliz ideia de mudar a loja para o Centro Comercial Casablanca e em menos de nada estavam enterrados em dívidas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Agora, adivinhem lá a quem é o cromo devia? Correcto: à Gest Apo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E nessas coisas, os alemães não brincam. Em 15 dias penhoraram-lhe os bens todos. Mas como um Ford Fiesta e o recheio do apartamento não dão nem para cantar um cego, a financeira só ficaria satisfeita quando o visse apodrecer na cadeia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A única solução era fugirem para o Brasil, de onde não podiam ser extraditados.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mas, entre o shopping Casablanca e as praias do Nordeste havia uma complexa rede de informadores. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Detectives privados, coscuvilheiras profissionais e até mesmo simples comerciantes que, em troca do perdão das dívidas, estavam dispostos a ligar para a Gest Apo assim que o casal se aproximasse do aeroporto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Precisamos que nos arranjes urgentemente um passaporte falso!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E já agora não queres também um bilhete premiado do Euromilhões? É só pedir que eu ponho já o Photoshop a trabalhar...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Apeteceu-me muito dizer-lhe isto, mas quando a frase já ia a meio das cordas vocais ela fez aquele olhar tipo "Bambi a chorar a morte da mãezinha" e pronto, derreti-me todo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mandei-a voltar no dia seguinte e lá fui eu afogar as mágoas para a Praça da Alimentação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Depois de uma rápida ida ao Centro de Saúde - onde lhe coseram a testa - o Sam juntou-se a mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Como é patrão. Hoje não vais para casa?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Não!!!- grunhi eu por entre duas garrafas de whisky, que não eram minhas, mas sim do Freitas da garrafeira, que na mesa ao lado tentava desesperadamente vender uma caixa de Ballantines sem o selo do imposto, ao tipo da Casa das Francesinhas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Eh pá, não fiques assim por causa da gaja. Ela só nos traz sarilhos, patrão... o melhor é a gente meter-se no carro e tirar umas férias. Sei lá, ir até Berlim, à Love Parade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Fosga-se!!! De todos os quiosques foleiros, em todos os Shoppings do Mundo, ela tinha logo que entrar na minha loja de fotocópias!?!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Como se não bastasse a voz de cano de esgoto, decidi reforçar a frase com um murro na mesa que derrubou as garrafas de whisky... para grande sorte do Freitas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Sim porque depois de ver a facilidade com que o whisky marado tira os restos de pastilha elástica do chão, a mulher de limpeza comprou-lhe logo 4 garrafas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;É nesta altura que convém introduzir uma outra personagem. A Luísa Arnauth, mais conhecida por Luísa Renault, por causa da sua frota de viaturas Renault: uma Traffic e duas Kangoo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Todas elas ao serviço do seu negócio de venda de produtos cosméticos da Vichy. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Infelizmente, água termal e cremes hidratantes não enchem barriga - pelo menos a barriga da filha, que já rebentara com duas bandas gástricas - por isso a Luísa via-se forçada a acumular as funções de lojista com as de administradora de condomínio do Centro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E era precisamente nessa condição que, constava-se, vendera a alma ao Diabo. Ou seja, à Gest Apo. Com o pretexto de defender os interesses dos lojistas, a Luísa abriu as portas do Casablanca - e as pernas - aos alemães.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Bem informada como poucos – era magrinha como a Olívia Palito e não me admirava nada que tivesse rastejado pelas condutas do Ar Condicionado para ouvir a minha conversa com a Elsa - a Luísa ficou a saber que o Vítor Lázaro se preparava para dar de frosques.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Vai daí, fez-me uma espera, logo de manhãzinha, quando fui abrir a loja.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Ouve lá, ò palhaço! Eu sei que andas a tramar alguma com o Vítor e a namoradinha.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Eu?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Sim... não te armes em anjinho! Tu fica sabendo que eu cá não quero problemas com a Gest Apo!? Ainda por cima agora que vem cá o presidente da empresa...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- O presidente?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Um baixote, com ar de caga-tacos, chamado Adolfo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ò não, o Adolfo!!!! Eu estava totalmente lixado! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Sabia que o meu charme não resultava com a Luísa - tentara-o sem sucesso quando pedi uma licença para instalar um painel luminoso - por isso tinha que agir rápido, antes que ela fosse contar tudo à Majora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Sim porque quando a Majora se enervava, ui, ui! Era processo de execução e penhora, garantidos, no mesmo dia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Foi nessa altura que tive uma ideia genial. Quer dizer, foi mais genital, porque uma inesperada comichão nas virilhas trouxe-me à memória uma conversa atribulada que tivera dois dias antes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Durante as partilhas da herança de uma tia, chegou-se a um impasse. Ao que parece, a velha estava bem colocada na pirâmide de distribuição de uma conhecida marca de cosméticos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E como ninguém queria herdar aquela porcaria, eu arrisquei em ficar com ela. Reuniões com mulheres, demonstração de produtos de beleza, uma alça do vestido que cai e enfim... tudo demasiado irresistível para este coração de manteiga.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Só que, a aplicação de creme esfoliante na área genital - seguida de uma longa e desesperante comichão - deitou por terra as minhas esperanças de fazer carreira no maravilhoso mundo da estética corporal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- E se eu te fizesse uma proposta que não pudesses recusar?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Do tipo...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Distribuidora independente da Yves Rocher, com uma carteira de 150 clientes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- 150??? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E pronto, como se fosse uma personagem dos desenhos animados, o olhos saltaram-se-lhe fora das órbitas ao ouvir o númerozinho mágico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Isso mesmo. E sem precisares de loja, nem empregados, nem stock, nem coisa nenhuma. É o teu bilhete para a liberdade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- E o que eu tenho que dar em troca? - perguntou a Luísa, franzindo o sobrolho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Ajudas-me a fugir para o Brasil com a Elsa. E eu, de bónus, ainda te entrego o sacana do Vítor de mão beijada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Isso é que é falar! Aquele cabrão já me deve 8 meses de condomínio!!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;OK, eu sei que não é bonito passar a perna ao desgraçado do Vítor Lázaro. Mas a verdade é que eu ia precisar de estar bem longe, quando a Simone descobrisse o meu arranjinho com a Elsa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Por isso, deitei mãos à obra e toca a falsificar a papelada, com a ajuda do Sam, que me trouxe os passaportes de dois primos, recém-emigrados lá da terra dele.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;À hora marcada, a Elsa apareceu no Ricoh's. Eu esperava-a com os passaportes numa mão. E, na outra, um visto de residência no meu coração.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Para minha grande tristeza, ela aceitou apenas o primeiro. Quanto ao visto, disse que estava só de passagem e como eu tinha cara de gajo comunitário, não precisava dele para nada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E foi assim que nos entregamos um ao outro, para uma última noite de paixão. Um último fôlego, como uma chama que arde em fogo lento durante anos a fio, para logo se consumir num desejo incandescente...&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ò pssst, alguma de vocês ainda tem pr'aí o barrote?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Boin, Boing, Boing!!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ai, também não é preciso exagerar! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;O importante é que, naquela noite houve amor em estado puro. Bem mais puro que as minhas intenções, diga-se de passagem. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Com o pretexto que faltava o magenta na impressora, entreguei apenas o passaporte da Elsa. Ou antes, da Cesária Bijagós, cidadã africana que "gentilmente" emprestara o seu nome.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Quanto ao passaporte do Vítor - ou antes, do Valdemar Bijagós - fiquei de o ir levar ao aeroporto, no dia seguinte, ao fim da tarde. Altura em que estava marcado o voo para Fortaleza.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Quem viu o filme já sabe no que isto vai dar: o artista quando chega ao aeroporto, afinal entrega a papelada ao Victor e deixa-o ir embora com a Ilsa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Na vida real, não tinha vontadinha nenhuma de fazer isso. Mas sabia que a Elsa nunca seria feliz comigo, no Casablanca. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Não era miúda para passar o dia a tirar fotocópias. O estilo dela era andar de um lado para o outro, a fazer coisas. Era, o que se chama de uma miúda "eléctrica".&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Por isso, no último minuto o Rico das fotocópias transformou-se em Rick e troquei a fotografia no passaporte do Valdemar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Acompanhado da Luísa Renault, fui ter com eles à sala de embarque do aeroporto. Ao entregar-lhe o passaporte, o Vítor virou-se para mim de lágrimas nos olhos e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Obrigado, senhor Rico. Estou-lhe penhoradamente agradecido!!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Penhoradamente?! Bem podes dizê-lo ò Vítor!!! Só não te penhoraram a roupa interior porque ela está tão gasta que perdeu todo o valor comercial.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Quem não gostou nada da brincadeira foi a Luísa:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Eh pá, então como é? Se o gajo vai pr'ó Brasil eu nunca mais lhe apanho a massa do condomínio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Tem calma, Luisinha. Os 250 clientes do Yves Rocher dão bem para cobrir o prejuízo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- 250?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Sim, afinal eu fiz mal as contas e havia mais 100 velhas que a minha tia conheceu num passeio do Inatel.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A Luísa suspirou de alívio. Mas por pouco tempo. Subitamente, ouviu-se um grito atrás de nós.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Alto aí!!!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;A Majora?! Bolas, fomos apanhados! &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ao que parece, nos escritórios da Gest Apo receberam uma chamada anónima a denunciar o plano de fuga.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ninguém me tira da cabeça que foi o Sam quem bufou, mas depois de lhe abrir a cabeça com a gramática os tipos do SOS Racismo começaram a mandar bocas e eu cá não quero problemas com as minorias étnicas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Até porque o pessoal de Cabo Verde vai lá muitas vezes à loja para tirar fotocópias dos CDs piratas de Kizomba.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Não tens vergonha? Traíres a mulher da tua vida por causa de uma caloteira.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Simone, amor, tem calma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Calma o caraças! Eu vou mas é já ligar ao SEF a dizer que estes dois têm um passaporte falso.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Ai, ai! Isto de ser herói não é nada fácil, minhas queridas. Exige muitas horas de esforço, dedicação e, claro, preparação, porque há que ter sempre um plano B.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E se o Rick podia ter mais do que um trunfo na manga - com uma gabardine daquelas podia até ter o baralho inteiro - eu com uma t-shirt não podia ter grande coisa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mas tinha o suficiente para resolver o problema: uma embalagem de água termal, que acabara de comprar na loja da Luísa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Larga esse telefone, Simone.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Nem penses. Este telefone é meu, ao contrário de certos e determinados telemóveis comprados às prestações, não é senhor Rico?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;E pronto, foi a gota de água. Ou antes, o borrifo de água. Assim que lhe atingiu os olhos, a Majora caiu para o chão, a contorcer-se de dores nos olhos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Na noite anterior, enquanto ela sonhava com cobranças coercivas, eu fui à gaveta dos cosméticos e substitui um eyeliner da Yves Rocher - que herdara da tia - por um frasco cheiinho de tinta de fotocopiadora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Aproveitando a confusão, esgueiramo-nos para a porta de embarque. E foi aí que eu e a Elsa nos vimos frente a frente. Sem saber muito bem o que dizer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Vá, despacha-te miúda, que o avião está quase a partir - disse-lhe eu, tentando não dar parte de fraco.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- E nós, Rico?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Nós teremos sempre Paris.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Paris? Espera lá... não venhas com merdas que em Paris não se passou nada. Uns beijos, umas roçadelas e pouco mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Tá bem, não tivemos Paris até tu vires para o Casablanca. Mas ontem à noite recuperamos o tempo perdido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Podes crer. Sempre quero ver como é que vais limpar a marca das minhas nádegas da fotocopiadora a cores.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Não te preocupes. Uma passagem de Cillit Bang limpa tudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Só é pena não haver Cillit Bang para limpar os desgostos de amor do nosso coração.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Vá, ele está a olhar para ti - murmurei eu, tentando explicar-lhe que o Vítor estava a fitar-nos com cara de desconfiado.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Mas a Elsa pensou que eu estava a imitar o Humphrey Bogart com a frase "He's looking at you kid" e foi-se embora, lavada em lágrimas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Fiquei por ali, a vê-los entrar no avião e esperei até que o Air Bus levantasse voo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Foi nessa altura que a Luísa veio ter comigo, pôs-me as mãos nos ombros e disse:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Não te preocupes com a Majora que eu já tratei de tudo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- A sério? E a polícia?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Levei o inspector ali para uma sala de arrumos e mandei-o apalpar os peitos do costume.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Depois de trocar uns olhares cúmplices, saímos do aeroporto abraçados, a tentar perceber como é que eu havia de me safar do pessoal Gest Apo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Eh pá, uma amiga minha tem uma loja de produtos de beleza num shopping africano – disse a Luísa, como quem não quer a coisa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Ai é?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Sim, acho que se chama Brazaville. E por acaso eles estão a precisar de uma loja de fotocópias e impressão digital.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;- Luísa, acho que isto é o princípio de uma bela amizade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;FIM&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 10pt; line-height: 115%; font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-8198511697224989064?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8198511697224989064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8198511697224989064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/08/casablanca.html' title='Casablanca'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-8493957995740523924</id><published>2008-05-06T10:52:00.011+01:00</published><updated>2008-05-27T15:52:49.702+01:00</updated><title type='text'>Hermengarda &amp; Sueli</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:verdana;"&gt;Na vida só encontrei uma coisa mais devastadora que um desgosto de amor: os panados da D. Clara, proprietária do restaurante aqui ao pé de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta uma trinca para o pessoal ficar a tarde inteira com o hálito de uma centrifugadora acabadinha de fazer um batido de alho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma verdadeira arma mortífera, principalmente quando vêm encharcados em óleo. E nem sequer é do Fula... é daquele mais barato, que depois de usado uma vez não dá nem para reciclar para combustível de tractores, quanto mais para nova fritura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, há quem garanta que o próprio Hitler pensou seriamente em matar os judeus lá em Auschwitz com uma travessa de panados da D. Clara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saía mais barato que o gás e tinha um poder mortífero 20 vezes superior. Um panadito, regado com uma bela Coca-cola e zás, ao fim de dois arrotos estava feito o genocídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, houve alguém lá no III Reich que se lembrou que a coisa podia dar para o torto e se tivessem de pagar por crimes de Guerra ninguém lhes havia de perdoar semelhantes atrocidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando, então, os panados da D. Clara - que eu cá não quero chatices com a Convenção de Genebra - só encontrei outra coisa que consegue ser mais devastadora que um desgosto de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E qual é ela? Dois desgostos de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi precisamente isso que me aconteceu vai fazer agora ano e tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu loucamente apaixonado pela Hermengarda, mulher de porte aristocrático, educada nos melhores colégios, que cultivava o gosto pela poesia... e também uns pezinhos de cannabis, nas traseiras da casa senhorial que herdara de um tio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah o Tio Barnabé. Homem generoso, que todas as tardes juntava lá no palacete a miudagem da região para partilhar com eles o gosto pela música... um autêntico melómano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente quando untava o corpo com mel e pedia aos rapazinhos para fazerem de conta que eram abelhinhas à sua volta, sempre prontos para lhe darem umas bicadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa deu para o torto quando um dos miúdos decidiu meter a boca no trombone... em vez de meter a boca onde o Tio Barnabé queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal rebentou o escândalo lá na vila, o tio, que sempre esteve muito à frente do seu tempo, zarpou para o Brasil, trilhando um caminho que algumas décadas mais tarde havia de ser percorrido pelo Padre Frederico, Fátima Felgueiras e mais uns quantos empresários de estabelecimentos de diversão nocturna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, esqueletos no armário à parte, as coisas entre mim e a Hermengarda corriam sobre rodas... e continuaram a correr até ela decidir pôr-me uns patins, depois da nossa relação ter sido abalada por um episódio tragico-marítimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou antes, trágico-fluvial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo por causa do raio da Florbela Espanca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, eu sei que a poetisa é uma das vossas favoritas e eu quero deixar desde já esclarecido que nada me move contra a senhora. E muito menos contra a sua poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, isso não quer dizer que eu tenha que ficar de cara alegre sempre a Hermengarda se lembrava de declamar "E é amar-te assim perdidamente..." cada vez que fazíamos amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que se fosse só pela poetisa, ainda vá que não vá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, um tipo estar ali a dar o seu melhor e, quando estamos quase a chegar lá - tipo, irmos na estrada e aparecer-nos uma placa a dizer "Orgasmo a 200 metros" - ouvirmos um poema que só nos traz à memória o cabelo oleoso e a cara impregnada de acne do Luis Represas isso, desculpem lá, mas é demais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São tudo preconceitos de uma mentalidade intoxicada pela cultura popular - dizia a Hermengarda sempre que eu lhe explicava as razões porque tinha novamente falhado a saída para o "orgasmo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A isto seguiam-se pelo menos duas horas de dissertações profundas sobre a minha sexualidade e a influência de uma educação castradora e blá, blá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois... tanto paleio só para dizer que hoje não há fellatio para ninguém - pensava eu com os meus botões. Ou com o fecho eclair, dependia do tipo de calças que usasse nesse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, foi precisamente depois de mais uma frustrante sessão de poesia em pleno acto sexual que a Hermengarda se lembrou de curar essa minha Espanco-fobia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solução para o meu problema era, achava ela, uma lavagem dos maus espíritos, através de um banho numa praia do Nordeste brasileiro, na companhia do Tio Barnabé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, que eu me lembre, a especialidade do tal tio era mesmo o banho do gato e eu para panasquices já me basta ter Orlando Barbeiro a roçar-se nos meus cotovelos cada vez que lá vou aparar a juba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, lá teve a pobre Hermengarda de desencantar uma solução alternativa. Que era, nem mais nem menos, um passeio de barco nas margens de um rio que passava ali perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia era recriar o cenário de início do século XX no qual decorriam as poesias da Florbela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, mas eu que das aulas de Português do 12.º ano só me lembro das pernas bem depiladas da setôra Manuela, fiz um esforço sobre-humano e lembrei-me que nessas histórias havia sempre irmãos que iam para a cama uns com os outros e um marmanjo que se pendurava de uma acácia por desgosto de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nesta altura do campeonato, incesto e suicídio eram duas coisas que não estavam nos meus planos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, eram indícios mais do que suficientes para me convencerem a ficar em casa a assistir ao Ovarense x Esgueira, a contar para o campeonato nacional de basquetebol, que estava prestes a começar, na RTP 2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque a Hermengarda mandou lá a casa um electricista para arranjar maneira de não dar mais canal nenhum naquela TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem mais delongas: algo me dizia que aquilo ia correr mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a verdade é que eu estava desesperado por tirar da cabeça aquela imagem das bochechas do Luís Represas. E, por isso, lá acedi a pegar num par de remos e fazer-me rio abaixo, a bordo de um velho barco de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Construído por quem? Vá, tentem lá adivinhar, que não é difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso mesmo! Pelo tio Barnabé. E não foi preciso remar muito para perceber que o velho Querelle II tinha algo em comum com o seu construtor: eram ambos rotos. Sendo que o barco o era no sentido literal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que não dá muito jeito quando se desliza pelas águas de um rio poluído e não se faz a mínima ideia de como se devem mover os remos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolas, aquilo parecia tão fácil lá nas regatas da Sport TV...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na altura não deu para perceber muito bem se estávamos à deriva ou a meio caminho do fundo do rio. De qualquer das formas, ambos entendemos que aquele era o momento para activar o plano de emergência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que, basicamente, consistia em esbracejar freneticamente e berrar o mais alto que pudéssemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem vivalma à nossa volta - sim, porque o cenário das poesias da Florbela não incluía figurantes e muito menos personagens das Marés Vivas - não tivemos outro remédio senão lançar-nos à água e esperar que a unção de Aloé Vera que a Hermengarda usava para tudo e mais alguma coisa fosse suficiente para sarar os vermelhões que entretanto se formaram na nossa pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque ao fim de dois anos a dar música aos "garotos" em Copacabana, o tio Barnabé ficou sem cheta e precisou de vender os terrenos à volta da casa senhorial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que uma tinturaria não é a vizinhança ideal, mas o tio estava demasiado longe para sentir o cheio dos produtos químicos a correr rio abaixo, em dia de tingir os atoalhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ensopados, com a pele encharcada em produtos potencialmente cancerígenos e com o cabelo assim do género da Wanda Stuart, lá nos arrastamos até casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreensivelmente, o ambiente não era dos melhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Hermengarda vinha com os azeites e, como que a querer passar-me uma mensagem subliminar, ela desatou a falar-me do alívio que sentiu quando se separou do "ex", um encenador à procura de uma nova definição artística.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é como quem diz "um gajo que carimba receitas no Centro de Saúde e, nas horas, vagas, orienta as peças de teatro do Grupo Recreativo Unidos do Vale da Casimira".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para o caso de eu não ter ainda compreendido que a nossa relação estava por um fio, a Hermengarda começou a declamar um poema que escrevera no dia em que deu com os pés ao aprendiz de La Féria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor, cheiras-me a mofo como a camisola da Mango /&lt;br /&gt;Amor, sabes-me a merda com arroz de frango&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, eu que me apaixono por tudo e por nada, nunca morri de amores por esse prato tão típico da gastronomia suburbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, se ainda por cima lhe acrescentam esse condimento fecal, podem ter a certeza que tão cedo não me apanham a comer um belo arroz malandrinho com uma coxa ou peito de frango.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para não mostrar a cara de enjoadinho que fiquei, achei que seria boa ideia espairecer com umas dedadas no monte de caruncho a que a Hermengarda carinhosamente chamava de piano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah o piano... não fosse eu ter a sensibilidade musical de uma Helen Keller e estes dedos finos e compridos haviam de fazer de mim um belo pianista. Mas à falta de talento, contento-me em dar-lhes uso enquanto máquinas infernais de prazer... mas isso, são outros 500!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim gostei de me ver ali, a dedilhar o teclado, ao melhor estilo do "Sam", do Casablanca. Só que, em vez do imortal "Play it again Sam" - que a personagem da Ingrid Bergman, efectivamente, nunca disse - a Hermengarda gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que é que estás a fazer? Não vês que me estás a pingar o piano todo com a água do rio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre Hermengarda. Tão culta e nunca ouviu o velho provérbio: "No melhor piano cai a nódoa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, já vos disse há uns parágrafos atrás que a nossa relação estava por um fio. Mas, afinal, estava era por uma corda. Mais precisamente uma corda do piano que se rebentou quando eu tentei, sem sucesso, acabar a minha actuação com um "tan tan tan tan".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desaparece-me da frente, seu orangotango!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto! Em menos de nada, estava eu a ser escorraçado porta fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Furiosa, a Hermengarda lançou-me um último olhar de desprezo e, antes de me bater com a porta na cara, deixou cair, em jeito de profecia, uma frase que, em certas zonas do país quer dizer qualquer coisa do género "Ainda vais passar um mau bocado"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hás-de ver o cú à preta!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E efectivamente vi-o pouco depois. Não em sentido figurado, mas sim no sentido literal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andava eu de carro, a ver se arranjava um sítio para comer alguma coisa - tinha ficado a remoer aquela coisa da "merda com arroz de frango" - quando, do interior de uma roulotte de comes e bebes, vi duas bochechas roliças e tostadinhas a quererem saltar para fora de um par de calças de licra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então patrão, que é que vai comer? - perguntou a Sueli, ao mesmo tempo que me lançava um daqueles olhares que nos deixa sem fôlego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que também podia ter sido o intenso cheiro a frituras, que me tivesse deixado sem fôlego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer das formas, tinha encontrado um petisco que me faria certamente esquecer o arroz de merd..., perdão, o arroz de frango da Hermengarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode ser um peito de cabritinha bem tostada - disse eu, enquanto procurava abstrair-me de dois factos perturbadores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Ter mandado uma boca atrevidota que, no caso da miúda não ter sentido de humor era bem capaz de me meter em apuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Ela ter à cintura um revólver de calibre 38&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, a Sueli não só tinha um apuradíssimo sentido de humor, como também não fazia a menor intenção de usar a arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabaria por usá-la nessa noite, mas num outro contexto: um cliente queria ficar a dever-lhe 25 cêntimos de um cachorro e duas Super-Bock e ela foi obrigada a espetar-lhe um balázio no pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contenda resolveu-se quando o cliente optou por devolver metade do cachorro e, em troca, a Sueli desistiu da ideia de o alvejar nas partes íntimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêm, a vida não era fácil lá no Bairro. Tudo muito diferente da vila campestre onde vivia a Hermengarda. Era como se eu tivesse saído de um poema da Florbela Espanca e tivesse entrado num videoclip do 50 Cent.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos fui-me habituando. À medida que me apaixonava pela Sueli, deixei-me seduzir por aquele estilo de vida. Ao ponto de, em nome do amor, estar disposto a renegar as minhas origens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farto de ouvir as bocas dos “dreads” lá do Bairro – do género “olha, lá vem o outdoor da lixívia Neoblanc – decidi que tinha de fazer algo que os levasse a aceitar-me, definitivamente, como um deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, fazer o quê? – perguntam as minhas queridas leitoras, já a congeminar ideias parvas, tipo cirurgia para aumento do pénis ou aulas para aprender Kizomba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, lá diz o ditado, “em Roma sê Romeno”. Por isso, achei que a melhor forma de me integrar na comunidade era adoptar um visual que agradasse ao pessoal afro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, na impossibilidade de escurecer a pele - o médico que esbranquiçou o Michael Jackson não arranjou maneira de reverter o processo - optei pela solução mais simples: as trancinhas à Bob Marley.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim, determinado em apagar quase três décadas de orgulho branco, que eu me dirigi à cabeleireira mais respeitada pela comunidade africana: a Tininha Congo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma transmontana loira que de africana só tinha mesmo o apelido, emprestado pelo marido, o King Congo – uma abreviatura de Joaquim Congo – militar de carreira, destacado em missão, sabe Deus onde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É melhor tirares a roupa que este gel deixa cá uma mancha que não sai nem por nada! Isto é ácido e às vezes até come o tecido – avisou a Tininha, ao mesmo tempo que calçava um par de luvas de amianto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teria sido esta a altura indicada para eu levantar uma pergunta pertinente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se o raio do gel faz isso à roupa então o que é que não fará ao meu couro cabeludo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que eu estava mais preocupado em olhar para dentro da bata da Tininha, onde repousava tranquilamente um par de maminhas bem brancas... mas ainda assim capazes de fazer corar de inveja as mais escuras mamocas das moças lá do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, um dia hei-de falar-vos do meu fetiche por cabeleireiras, esteticistas e afins...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por agora, o que interessa é explicar-vos como é que eu acabei despido no meio do salão de cabeleireiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bastaram meia dúzia de pinceladas para que o temível gel usado para engrenhar o cabelo me causasse uma das mais graves reacções alérgicas da minha breve, mas atribulada, existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tal maneira grave que a Tininha não teve outro remédio senão rapar-me a linda cabeleira, antes que eu coçasse o couro cabeludo até ficar com o crânio à mostra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, aproveitando que a miúda estava com a mão na massa… encefálica – que é, como quem diz, no cabelo – pedi-lhe que me rapasse também os sovacos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque o meu objectivo era parecer um deles... não era cheirar como um deles. Ah pois, porque aqui o rapaz, quando lhe crescem os pêlos nas axilas um bocadinho acima do tamanho regulamentar, desata a tresandar pior do que um tacho de refogado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma decisão que se havia de revelar desastrosa. Ao que parece, a máquina deve ter ficado cheia de pedacinhos do malfadado gel... só assim se compreende que os meus sovacos tenham começado também eles ferver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, levanta assim o braço no ar e põe esta lata de Coca-cola fresca nas axilas... vais ver que te acalma a comichão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tininha bem que se esforçava por me acalmar, mas eu quando me dá para as alergias, ui, ui. Fico mais descontrolado do que as hormonas de uma adolescente sempre que julga ver os caracóis do Mikael Carreira… quando, se ela olhasse melhor, percebia que é só uma esfregona preta enfiada dentro de uma camisa às flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto para vos dizer que, nessas coisas de comichões e ardimentos, sou o que se chama de um “mariquinhas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi, por isso, de admirar que ao sentir o frio da lata de refrigerante eu desatasse a esbracejar e só parasse depois de perceber que acabara de derramar uma embalagem de ácido altamente corrosivo – também conhecido como gel para encarapinhar cabelos – por cima da bata da Tininha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rápido, ajuda-me a tirar isto antes que me chegue à pele – gritou a cabeleireira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, que cena macabra... os dois semi-nus, no meio do salão!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Havia de ser bem complicado de explicar esta situação, se entrasse agora alguém – pensei eu, sem conseguir disfarçar um leve ruborescer das faces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, muito em breve isso ia mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha cara ia perder todo o rubor e o tempo verbal teria de ser alterado para outro mais adequado às circunstâncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez do “se entrasse agora alguém” impunha-se usar um “quando o Quim entrar por aquela porta”. Coisa que viria a acontecer poucos segundos depois do salão ser invadido pelo vozeirão do Cabo King:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Querida, cheguei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destacado para levar uns recrutas para a semana de campo, em Mafra, o marido da Tininha estava com pouca vontade de andar a tirar mancebos para fora da lama. Vai daí, lembrou-se usar o velho truque do alho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conhecem? Eh pá, no tempo da guerra colonial os militares que não queriam ir para o mato enfiavam um alho no ânus e, ao que se consta, ficavam com febre, ganhando assim direito a uma semana na enfermaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que, no caso do marido da Tininha, não era só um dentinho de alho que ele introduzia. Segundo se soube, anos mais tarde, aquando do processo de divórcio, além do alho o rapaz introduzia no dito-cujo umas gotinhas de azeite e… mais o pénis do Alferes Machado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai que o King Congo mata-te. Foge pela janela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde demais, Tininha. Quando te saíram as palavras da boca, já eu ia janela abaixo. Por sorte, a queda era só de um andar e ainda por cima fui amparado pelo estendal de roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fossem as enormes cuecas da cabeleireira e teria deslocado o osso sacro, ao bater no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, não evitei um galo na cabeça. Não pelo tombo, mas por ter levado com uma bota da tropa do Joaquim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como militar disciplinado que era, habituou-se a arrumar a roupa suja na lavandaria. Que é como quem diz: abrir o saco e despejar a roupa janela abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mal o menos, já não ia para casa despido. Certo que o King Congo não ia dar pela falta da farda – nos dias que passava lá no Bairro o homem andava sempre de calções e chinelos – decidi levar emprestadas umas pecinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa pouca, só essencial para chegar a casa nas condições mínimas de dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que eu me vi em pleno bairro de afro-português, com calças e botas da tropa, cabelo rapado e, melhor do que isso, com o braço estendido ao alto (por causa da alergia no sovaco), como se estivesse a fazer a célebre saudação nazi (que na realidade se chama "saudação romana").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alternativa tinha sido pegar nos lençóis brancos que a cabeleireira tinha no estendal e, para não ser reconhecido, enfiar uma fronha branca na cabeça, fazendo dois furinhos para ver o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois pensei que era capaz de ficar assim um bocadinho pr'ó KuKluxKlan, por isso a coisa ia ficar ela por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha andado dois metros com aquela indumentária, quando fui rapidamente rodeado por uma autêntica maré negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para mal dos meus pecados, não se tinham juntado para me dizer que, definitivamente, as camisolas de manga caveada não assentavam bem nos meus ombros ossudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era mais para fazerem comentários do género:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então Adolfo? És daltónico e ninguém te avisou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei à minha volta, para avaliar as possibilidades de sucesso de uma fuga, em grande velocidade - daquelas com que eu gosto tanto de acabar as minhas histórias - mas percebi desde logo que não era grande ideia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, sempre estávamos num bairro negro. E, convenhamos, até o velho Quimbé, que depois de duas décadas nas obras ganhara direito a um passaporte português e a uma crise diária de reumatismo, era gajo para deixar o Obikwelu nas lonas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Andas a comer cabritas pr'a desenjoar, ò Skin-Head da merda - gritou a Sueli, que entretanto se tinha chegado ao grupo, empunhando o que restava do biberão de um dos seus 4 filhos, que entretanto rebentara contra a parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rebentara com o biberão, não com os filhos, que esses ficaram em casa. Só nessa semana já tinham visto os tios aviar à porrada três polícias, dois cobradores do fraque e seis traficantes rivais e por isso começavam a achar aquilo um bocadinho monótono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, tens algum último desejo antes de morrer? - rosnou o Toni Mussulas. O mesmo que na noite anterior tinha dito que nunca conhecera nenhum branco tão bom como eu. Nem mesmo o Camilo Alves em pacote, que se bebia lá em casa, às refeições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez por este pensamento me ter passado pela cabeça, achei que talvez fosse boa ideia beber alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho a garganta seca... alguém me arranja uma Cola!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pepsi, ou Coca-Cola?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Coca-cola...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então estás com sorte. Tens uma debaixo do braço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio daquela confusão toda nem me lembrava que a Tininha me tinha arranjado uma lata para refrescar a axila irritada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, se isso me servia de consolo, dentro de poucos segundos o sovaco ia deixar de ser a única parte do corpo em ferida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentido o fim próximo, bebi a Cola com a mesma determinação com que o Hitler bebeu o cianeto, quando tinha os russos a baterem-lhe à porta do bunker.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, tal como aconteceu com o veneno, o refrigerante acabou por me libertar de uma morte violenta às mãos do inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, em vez de ser eu a cair para o chão a espumar da boca, foram os meus adversários que fizeram isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas goladas foram o suficiente para desencadearem cá uma reacção no meu estômago que só acabou num violento BRUUUP!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem dois segundos depois estava eu a pulverizar aquela gente toda com a suave fragrância de Panados, by D. Clara ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;He, he... por muito que os pulmões deles estivessem calejados, à custa das centenas de granadas de gás lacrimogéneo que a bófia lançava em cada rusga lá no bairro, nada os podia preparar para os efeitos de uma boa baforada de panados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto o pessoal vasculhava desesperadamente a atmosfera à sua volta, em busca de uns míseros 2 ou 3 centímetros cúbicos de ar puro, consegui escapulir-me para dentro de uma carrinha do Corpo de Intervenção da PSP que, entretanto, tinha chegado ao local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava safo... e tudo graças à Tininha cabeleireira, que ligou para o 112 quando me viu aflito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que não o fez por solidariedade para com o irmão branco. Foi sim porque eu envergava as calças do marido dela e a Tininha, já na altura desconfiada do King Congo, queria procurar nelas vestígios de sémen, usando uma daquelas lâmpadas fluorescentes azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha visto os gajos do CSI fazerem isso e estava convencida que era capaz de repetir a proeza com o detector de notas falsa que tinha encomendado num daqueles catálogos da D-Mail.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coitada! Ao cagaço que apanhei naquele dia, não deve ter encontrado mais nada que não fosse uma enorme massa acastanhada na zona do rabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que, naquele momento, as calças do Joaquim fossem a menor das preocupações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ver a Sueli ser metida à força num carro de polícia senti as minhas entranhas serem invadidas por uma imensa tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou tristeza, ou azia. Agora não sei ao certo qual das duas é que era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez tenha sido melhor assim. Pensado bem, a nossa relação não tinha futuro. Éramos completamente incompatíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não estou a falar dessa coisa do preto e do branco. Quando digo incompatíveis era porque tínhamos maneiras diferentes de ver as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo: para mim o amor era incondicional. Ao contrário da Sueli, para quem a liberdade era condicional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nestas coisas, já se sabe… bastou ela envolver-se naquela desordem pública para voltar direitinha para o Estabelecimento Prisional de Tires, onde cumpria pena por "tentativa de homicídio".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um exagero, coitada da rapariga. Apanhou o namorado na cama com uma prima - de ambos, visto que eles próprios eram primos entre si - e decidiu resolver a coisa cortando o mal pela raíz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente fez mal as contas e só cortou pela metade. Mas não se preocupem que o rapaz conseguiu orientar-se com os 16 centímetros que sobraram e é hoje o orgulhoso pai de 8 filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orgulhoso e babado. No sentido literal, porque depois de o mais novo ser preso por tráfico de droga o tipo sofreu um AVC e hoje passa os dias em estado semi-vegetativo a ver na TV as emissões do Preto Certo... quero dizer, do Preço Certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais uma vez fiquei sozinho. E desta vez, por muito tempo, diga-se de passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tanto por ter ficado magoado com dois desgostos de amor em menos de uma semana. Mas sim porque o efeito do hálito a panados tardava em passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a perspectiva de ver a miúda morrer-me nos braços, com uma insuficiência respiratória não era propriamente animadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe este bafo medonho não passa com um belo jantar. Sei lá, um arrozinho de frango...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E daí, talvez não.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-8493957995740523924?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com' title='Hermengarda &amp; Sueli'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8493957995740523924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8493957995740523924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/05/hermengarda-sueli.html' title='Hermengarda &amp; Sueli'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-352053037074058923</id><published>2008-04-15T11:57:00.000+01:00</published><updated>2008-04-15T11:59:31.396+01:00</updated><title type='text'>Punto G</title><content type='html'>As músicas que cantamos dizem muito sobre a nossa personalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, quando ouvimos o José Cid a cantar aquela coisa do "Cai Neve em Nova Iorque" percebemos imediatamente que ele faltou a muitas aulas de Geografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque é muito bonito fazer uma música sobre Nova Iorque, com o nome das ruazinhas e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando ouvimos lá pelo meio o homem a dizer que "não há mais pôr do sol, em Sunset Boulevard" - que por acaso até fica do outro lado dos Estados Unidos - desistimos logo daquela ideia parva de o convidarmos para ser nosso guia turístico na próxima viagem à Big Apple.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa lá, Zé. Eu compreendo-te. Afinal, também eu passo a vida a escrever sobre coisas que desconheço por completo: amor, sedução, mulheres e por aí fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro exemplo: quando eu canto "I'm too sexy for my car", isso não quer dizer que eu seja assim um gajo a tresandar a sensualidade... quando muito tresando a Old Spice, que eu tenho que dar uso às 14 caixas de after-shave foleiro que um tio me deixou de herança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, adiante... se me ouvirem cantar isso, a única coisa que quer dizer é que o meu parque automóvel é de tal maneira deplorável que até uma bola de unto como o Fernando Mendes é "too sexy for my car".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se isso é verdade hoje, então o que dizer há dois ou três anos, quando conduzia o já muito badalado AX, cuja acumulação de ferrugem era capaz de dar cabo da libido à mais assanhada das ninfomaníacas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas em breve isso ia mudar... ou pelo menos, pensava eu, naquela Primavera de 1996, enquanto levava a cabo um complexo estudo de engenharia financeira, para trocar de carro sem ter de abdicar de bens de primeira necessidade, como a comida e a roupa. Nem ser obrigado a vender um rim no mercado negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contas feitas e financiamento assegurado - que é como quem diz, encontrado um parvo, suficientemente parvo para me emprestar o dinheiro - havia que passar à segunda fase do processo: a análise comparativa dos vários modelos disponíveis no mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, do género do que fazem os gajos da TV Turbo, na SIC Notícias. Mas sem aquela parte de fazer posse para a câmara enquanto se contorcem de dores no cóccix por andarem no meio de um matagal a experimentar uma carrinha familiar à qual alguém colou uma placa TT por engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, como é que um gajo queimado em todos os stands da zona - que querem, confundi test-drive com crash-test? Acontece a qualquer um - arranja maneira de alguém lhe passar para as unhas um carro novinho em folha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta é fácil: basta esperar que o telefone toque. E do outro lado esteja uma ex-namorada a pedir ajuda para fazer a rodagem ao carrito novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, a rodagem. Esse clássico da indústria automóvel!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem não está familiarizado com o termo, há muitas formas de fazer a rodagem a um carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma delas é ir com a família toda a Fátima - avô incluído -, para benzer o carrito e rezar para que a junta da colaça aguente até estarem pagas pelo menos 30 por cento das prestações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra é andar muito devagarinho. Tão devagarinho que até um cortejo fúnebre é obrigado a ultrapassar-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o que aconteceu na rodagem do Opel Corsa da minha madrinha... ainda coro de vergonha, cada vez que me recordo da viúva, com um ramo de flores, a fazer sinal que nos ia ultrapassar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E há também quem aproveite a rodagem para ir de fim-de-semana à praia e, pelo caminho, ganhar um congresso do PSD... mas isso foi há 23 anos e a maior parte de vocês é capaz de não se lembrar disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje muita gente jura a pés juntos que, se o motor do BX tivesse dado o berro em Peniche éramos capazes de ser um país um bocadito menos desgraçado... Mas isso é o que dizem ali no café, que eu cá de política a única coisa que sei é que as miúdas giras ou estão no Bloco ou no CDS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E há ainda os que entendem a rodagem como o "tirar os três" ao carro. E não estou com isto a dizer que o pessoal leva o bólide para o meio de umas moitas, põe o tubo de escape a jeito e zás!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada disso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por "tirar os três" ao popó entenda-se usá-lo como... digamos, ninho de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque carro que não reúna as condições mínimas para a prática da modalidade no banco do passageiro - ou nos bancos de trás... ou em cima do capot - não serve para mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De que valem os estofos em pele se eles ficam mais aderentes que uma ventosa quando o pessoal está em pêlo, com o corpinho todo transpirado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a suspensão desportiva? Vale de alguma coisa se, ao fim de três horas aos saltos dentro do carro, tivermos que ir a correr para o mecânico mudar os amortecedores?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não haja dúvidas: o teste da quecazinha num beco escuro é 100 vezes mais importante na decisão final do que mil crash-testes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi isso mesmo que eu fiz ver à Natércia, quando insisti que fizéssemos a tão propalada rodagem, num sábado à noite, depois de um jantarinho catita e de uma ida à discoteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, não adianta estar para aqui a enrolar-vos. Vocês já me conhecem de gingeira e eu não consigo enganar-vos por mais mansas que sejam as falinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu queria realmente saltar para cima da moça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se lixe o teste! Se naquela altura toda a gente tinha um Punto, é porque o raio do carro devia ser bom, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, havia ali um assunto mal resolvido com o meu “ferrugentozinho”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo eu não me queria ver livre do AX. E a prova disso foi eu tê-lo deixado no "cantinho das quecas", um estacionamento junto à praia. Precisamente o sítio onde planeava acabar a noite com a Natércia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teste acabado, ia cada um para seu lado. No seu carro, pois claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que eu seja daquele tipo de gajos que depois de fazer amor vai a correr para casa, para dormir sozinho, para não ter que gramar com as cotoveladas da miúda a meio da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, não tinha nada a ver com ela. Tinha era a ver com o carro. Sim, porque depois deixar três ou quatro litros de suor naqueles estofos - confortáveis e nada susceptíveis de irritar a pele - eu sentia necessidade de voltar para a dureza dos bancos do AX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os remendos, a esponja a sair pelos cantos e os ferros a entrarem pelas vértebras dentro... tudo isso me fazia sentir verdadeiramente aconchegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digamos que eu era como aqueles cromos que vão para a cama com a amante, mas quando chega à horinha... zás, ó pr'a eles a correrem para os braços da esposa, cheiinhos saudades do toque áspero da camisa de dormir de flanela e do cheiro a Nívea Body Milk.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, se dúvidas houvesse sobre o meu amor por aquele monte de sucata, elas foram dissipadas quando, a dada altura, levei a mão ao bolso e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que chatice! Tenho que ir ao AX buscar os preservativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava uma noite chuvosa e com um nevoeiro cerrado. Noutra altura qualquer eu teria ficado ali, no quentinho do carro... e que quentinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque ao fim de hora e meia encontrei finalmente um defeito no Punto: o sobreaquecimento. Não do motor, mas dos dois passageiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, secretamente, eu sentia uma terrível necessidade de trocar aquele aroma a ambientador Air-wick pelo cheiro a gasolina que se entranhara no meu velhinho, desde que rebentou um tubo da bomba injectora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uns segundos deixei-me ali ficar dentro do AX. E, fosga-se, podem ter a certeza que a minha vontade era ligar o carro e pisgar-me dali para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é! Para as leitoras mais atentas, ficou claro como a pele da Nicole Kidman que este é o momento a partir do qual tudo começa a descambar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um momento em que a tragédia teria sido evitada se houvesse alguém de bom-senso a chamar-me à razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um momento, em tudo semelhante aquele em que o imediato do Titanic se virou para o comandante e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò chefe, não é perigoso conduzir o navio só com uma mão e ainda por cima com 6 whiskies no bucho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puto, eu trato por tudo todos os rochedos e calhaus destas águas... têm tanto medo de mim que eles até se desviam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá bem, mas nesta altura do ano o Atlântico Norte costuma estar infestado de icebergues.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha-me este!? Então não sabes que eu pedi emprestado o picador de gelo à Sharon Stone e espetei-o ali na proa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahn?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se algum icebergue tiver a infeliz ideia de se meter à nossa frente, fica todo esmigalhadinho. He, he… os peixes vão ter gelo que chegue para tomar caipirinha um ano inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não há mas, nem meio mas! Agora veste lá a fantasia de sereia e põe a tocar o CD do "In the Navy"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, tudo isto para vos dizer que o desastre está iminente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorando os meus instintos mais básicos, lá abandonei eu o desconforto do AX, com uma caixa de "zig-zag" no bolso de trás. E com uma coisa que definitivamente não estava aos zigue-zagues, no bolso da frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é que querem? O bolso das calças estava rasgado, por isso, aquela "coisa" insistia em enfiar-se pelo bolso dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os meus ânimos haviam de ser refreados. É que, ao chegar ao Punto dei com o nariz na porta, que a Natércia fechara a sete chaves - que é como quem diz, com o fecho central - com medo de ser atacada por um tarado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, pois. Primeiro deixa o tarado sair do carro e agora fica com medo que ele volte a entrar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim de meia dúzia de batidelas e de um esclarecedor "sou eu" - sim, porque se fosse um verdadeiro tarado diria "faxavor deixe-me entrar que sou um predador sexual e quero fazer-lhe maldades" - lá se decidiu ela a abrir a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo de espera teve o condão de me deixar ensopado, o que foi um belo pretexto para tirar a roupinha toda... e testarmos o aquecimento do popó novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, a miúda não era de ficar atrás e por isso seguiu o meu exemplo. E não tardou muito até estarmos os dois a fazer amor como se não houvesse amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo admiti-lo: o Punto era um carro talhado para estes momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espaço estava muito bem organizado. Ao contrário do Y10 que ela tinha antes, não aqui corríamos o risco de nos chegarmos demasiado ao tablier e ficarmos com os pêlos púbicos entalados no porta-luvas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para vos dizer a verdade, não era só o carro que tinha melhorado... a Natércia, com quem não ia para a cama - ou antes, para o carro - há meio ano, parecia-me bem mais sexy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até estive para lhe perguntar se tinha feito implantes de silicone. Livra, que a miúda tem cá uns faróis... e então quando liga os máximos!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolas, havia qualquer coisa esquisita. Talvez fosse o ambientador que tivesse efeitos alucinogéneos, porque ia jurar que a Natércia tinha crescido 20 centímetros nestes seis meses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cresceu de todas as maneiras: no peito, em comprimento e na língua... sim porque ela estava encostada ao pára-brisas e mesmo assim conseguia lamber-me os mamilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, seja como for, eu sai a ganhar, porque aquilo era bom demais... Hum, ou muito me engano ou o novo Punto vai levar 5 estrelas nos testes do Euro N Fuck.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava a sentir-me no Céu até que fomos bruscamente sacudidos uma valente pancada no vidro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tás a fazer, Xana!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Xana? Ui, só me faltava isto! Um bêbado à procura da ex...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò chefe, aqui não há nenhuma Xana - resmunguei eu, por entre uma frincha do vidro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparava-me para voltar ao "sex-drive", quero dizer, “test drive”, quando, da boca da minha companheira, saem 5 palavrinhas que eu preferia não ter ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah isso é que há!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ahn? Tu queres ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é esse gajo, Xana? - perguntou o grunho, enquanto tentava forçar a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Miguel, eu sei lá! Pensei que eras tu - respondeu a Natércia. Ou antes, a Xana. Ou sei lá quem era a gaja que estava ao meu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois, mas eu estou cá fora, encharcado até aos ossos. E tu estás aí dentro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encharcada até aos ossos, digo eu que estava suficientemente perto para me aperceber disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, pelos vistos todos metemos água. O Miguel, a da chuva. A Xana, a do suor. E eu meti água quando entrei no Punto errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, pior ainda, entrei na mulher errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah seu cabrão, que eu mato-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tarado! não tens vergonha de atacar assim, miúdas inocentes - dizia a Xana, acometida de um súbito acesso de inocência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, caso não tenham reparado, eu estava mesmo lixado de todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sai do meu carro! - gritava a miúda, cada vez mais histérica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o sais! Por entre um relâmpago e outro deu para ver que o namorado da Xana era um canastrão de metro e noventa. E pela mossa que acabara de fazer na capota, eu arrisco a dizer que o Miguel estava puto da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Xana e tu deixas entrar assim qualquer um no teu carro? - grunhiu ele, entre dois abanões no Punto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qualquer um não! Assim no escuro ele é parecido contigo. E até bateu à porta com o nosso toque e tudo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ena que original! Pelos vistos a senha secreta para entrar era o clássico toque do "tun tun-tun-tun-tun tun-tun".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá bem, mas o gajo é assim tão parecido comigo ao ponto de dares uma queca com ele e não notares a diferença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta dela, apesar de ter deixado o meu ego bem elevado, teve a particularidade de deixar o tal Miguel furioso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele realmente parecia-me mais rijo... mas pensei que me tivesse sentado na moca de velocidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, é o fim! Pelo menos era isso que eu pensava quando o calhau agarrou... perdão, quando o Miguel agarrou num calhau e espetou com ele no vidro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que a hora não era de explicações, mas num último esforço ainda tentei explicar o mal-entendido. Sem grande sucesso, devo dizê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que coisa! Até parece que sou o único homem à face da terra que confundiu o "Punto G" com o "Punto S"!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou dobrar-te ao meio e sentar-me em cima de ti!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito aliciante que fosse a proposta do Miguel – já tinha visto uma coisa parecida no Discovery - , achei melhor não ficar para ver. Por isso, abri a porta do condutor - e aproveito para saudar o fabricante por ter colocado o fecho das portas num lugar de tão fácil acesso - e saltei cá para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em desespero de causa corri para o carro onde realmente devia ter entrado e implorei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Natércia, abre a porta, depressa!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu nojento. Não tens vergonha? Deixares-me aqui à espera, enquanto comias a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu posso explicar, mor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Explicar o quê? Que te enganaste no carro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi isso, querida. Vê bem: são dois Puntos pretinhos, um ao lado do outro, numa noite de nevoeiro. Vê lá que o dela até tem matrícula ÉfeDê, como a tua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes que mais? Vai-te mas ÉfeDê! Tu, mais a outra badalhoca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E arrancou a toda a velocidade. O bom poder de arranque teria merecido os meus mais rasgados elogios, noutra altura qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, naquela noite, era preferível que fosse uma arrastadeira, do género do Y10 que ela tinha antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o Miguel e a Xana no meu encalço, acompanhados de uns quantos casais de namorados que se tinham juntado para dar uma lição ao "tarado" - aliás, estavam obrigados a isso por lei... se não o fizessem incorriam no crime de "omissão de auxílio" - não tive outro remédio se não recorrer ao meu bom velho AX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora é a vez das espertinhas dizerem: "Ah se estavas todo nú, onde é que tinhas a chave do carro"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elementar, minhas queridas Watsons. Como efectivamente me esqueci desse pormenor, inventei agora à pressa este parágrafo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente tinha deixado a chave na ignição. Já que ninguém o aceitava à troca, achei que saía mais em conta deixar que o roubassem do que pagar 40 euros ao sucateiro para ele ficar-me com ele, por especial favor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- He, he... eu devia estar parvo quando pensei em trocar-te por uma dessas latas novas - disse eu ao AX ao mesmo tempo que olhava pelo espelho e via os palermas a mastigarem o pó que acabara de lhes mandar para a tromba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, lá fui eu, estrada fora a pensar na Natércia e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hey, esperem lá, minhas lindas? Não levantem já esse rabinho bem-feito da cadeira que isto ainda não acabou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enganei-vos, não enganei? Pois, enganei-vos a vocês e enganei-me a mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque eu estava de tal maneira convencido que me safara que nem vi o GNR a mandar-me parar com o pirilampo às cores, dois quilómetros mais adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alto, se não eu disparo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Efectivamente parei. Não por ter visto a arma de 9mm aponta a mim. Mas sim porque me apontaram outra bela peça de artilharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestida com aquela farda verde, com um daqueles chapéus redondos, feitos com pano de mesa de bilhar, a Sargento Fernanda meteu-se à frente do carro e esticou o braço em jeito autoritário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hum, aquelas botinhas até ao joelho são um belo fetiche, são… - pensei eu, ao mesmo tempo que remexia o porta-luvas à procura dos documentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois, os documentos! No meio daquela confusão toda nem me lembrei que devo ter deixado ficar a carteira no carro da Natércia. Ou da Xana? Ou nos bolsos do Miguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não tem assim tanta importância. É que, naquele momento, a falta de documentos era o menor dos meus problemas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa noite. O senhor não sabe que é proibida condução sem calçado adequado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, o calçado!? Ainda tentei justificar-me, mas a verdade é que eu era culpado daquele crime hediondo. Afinal, eu estava a conduzir descalço... até às pontas dos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava de cair urgentemente nas boas graças da Sargento Fernanda. Isto se não queria acabar a noite na pildra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se um tipo já vestido tem dificuldades de sair de um estabelecimento prisional com a sua orientação sexual ilesa... e quem nunca ouviu falar nas histórias dos reclusos que deixam cair o sabonete nos chuveiros e, quando dão por ela, já alguém tentou fazer-lhes uma retroescopia artesanal?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora imaginem um artista a passear pelos calabouços da GNR em pêlo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai de lá a chamar-se Marlene e com uma porrada de números de telemóvel tatuados nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò sôra Guarda e não dá para fazer um jeitinho aqui ao rapaz? - murmurei eu, em desespero de causa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de se certificar de que eu não era um agente à paisana, com um microfone escondido - escondê-lo onde? nos pêlos púbicos? - a Sargenta virou-se para mim e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jeitinho até se dava... mas eram precisos uns 100 jeitosinhos... 50 pr'a mim e outros 50 para o Almeida, que está ali na curva, a abanar o pirilampo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, queres que te adoce o bico, não é? Pois, mas nem que a carteira tivesse vindo entalada entre as nádegas, este nudista do asfalto arranjava 100 euros a esta altura do mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem outra alternativa que não fosse propor um pagamento em géneros, lá tentei eu a minha sorte... mas, alto lá, que os géneros eram só para a Sargenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Almeida que tenha santa paciência, que eu cá não sou desses. Se quer um marmanjo para lhe abanar o pirilampo que vá fazer Operações Stop à porta das casas de banho do shopping, que o que não falta por lá são abanadores (e abocanhadores) de pirilaus… quero dizer, pirilampos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- OK, senhor condutor. Acompanhe-me até ao carro-patrulha para ver até que ponto esse método de pagamento está disponível...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, nem dois minutos depois lá estávamos os dois a testar em grande estilo o jipe da guarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E querem saber uma coisa? Apesar do aspecto tosco e da ferrugem, o velho UMM portou-se bem melhor que o Punto. Que os dois Puntos, aliás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, pelos vistos, não foi só o carro que passou no teste. Também eu tive boas prestações! Ao ponto de a Sargenta Nanda me emprestar o impermeável do Almeida, deixando o Cabo com o pirilampo a tremer de tanto frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora não julgues que escapas... amanhã à tarde passo em tua casa para buscar o impermeável. E cobrar o resto da multa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mau! Tu queres ver que depois termos rebentado com o cardan do jipe de tanto o abanar, a Nanda só avaliou o meu desempenho com uns míseros 50 jeitosinhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual multa? Da falta de documentos? – perguntei eu, a medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta fez-se ouvir com um estrondo. Prás... e lá voaram os vidros do farolim, depois de uma mocada com o cassetéte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A multa pela falta de um sinal luminoso de mudança de direcção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sorriso malicioso da Sargenta não deixava margem para dúvidas. A Nanda era corrupta. Ai não, que não era!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, que me apaixono por tudo e por nada, deixei-me seduzir pelo papel de corruptor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo eu, que em toda a vida tinha só subornado o árbitro de um torneio de sueca. E até nem foi para ganhar. Paguei-lhe duas cervejas mas foi para ele me fazer perder e assim eu poder disputar o prémio de consolação com a Aidinha…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, esperavam-me longos meses de contravenções e infracções rodoviárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, enquanto as multas continuarem a chegar, a Nanda vai continuar a aparecer à minha porta para cobrar os honorários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que é um jogo perigoso e ainda arranjo maneira de ir dentro por corrupção activa. Mas mesmo aí, talvez tenha a sorte de encontrar uma juíza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, já se sabe, tal como os homens, todas as mulheres têm o seu preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em géneros, entenda-se…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-352053037074058923?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/352053037074058923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/352053037074058923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/04/punto-g.html' title='Punto G'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-2176511617996152077</id><published>2008-04-03T19:17:00.000+01:00</published><updated>2008-04-07T16:28:45.847+01:00</updated><title type='text'>Wonderwoman</title><content type='html'>Sabem o que há em comum entre as minhas segundas-feiras de manhã e a América dos anos 30?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma grande depressão!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se na América havia boas razões para isso - uma súbita crise financeira que deu origem à expressão: "estão a chover executivos" - no meu caso então, nem se fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que as segundas-feiras são o dia em que me faço à estrada com a triste convicção que vou enfrentar mais 5 dias de suplício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim tipo o caminho que a Maria Antonieta fez para a guilhotina, mas multiplicado por 52 vezes ao ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, dito assim até parece que sou um daqueles preguiçosos compulsivos, que pura e simplesmente não gostam de trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, como tal, seria o menos recomendável dos namorados ou companheiros amorosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada mais errado! Eu adoro trabalhar. Nada me dá mais prazer do que chegar ao fim do dia com a sensação de que produzi algo. Nem que sejam duas ou três páginas A4 cheiinhas de disparates, como é o caso destas linhas que as minhas queridas agora lêem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema está nos empregos que arranjo. Só porcarias com poucas perspectivas de evolução, em empresas com ainda menos perspectivas de evolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resumindo: sou um falhado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isto sim faz de mim o menos recomendável dos namorados ou companheiros amorosos. Sim porque o sonho de qualquer miúda é chegar ao pé das amiguinhas e dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah o Antero é sub-gerente adjunto lá no banco. E em princípio lá para Outubro vai ser promovido a sub-gerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, é certo que o pobre do Antero passa os dias e as noites fechado na agência, a ouvir berros de toda a gente (mulher a dias incluída) e até a dormir ele faz contas de como convencer o cliente que aquele spread é realmente muito bom, quando na verdade vai aumentar o preço do T0 para o triplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é claro que quando chegar a gerente já terá passado tantas horas longe de casa que mal conhece os filhos, quanto mais o antigo colega de escola que passa os fins de tarde na cama com a mulher dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, por muito mau que tudo isso seja, há-de ser sempre melhor do que chegar ao pé das amiguinhas e dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O meu namorado voltou a ser despedido. Já vai no 5.º emprego este ano... e se tudo correr bem, lá para Outubro há-de arranjar trabalho como repositor no Mini-Preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que as mulheres com quem tive a felicidade de partilhar nem que fossem uns míseros 10 segundos da minha existência passem o tempo a pedir-me para acreditar nas minhas capacidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditar! Pois, realmente é mesmo isso que me falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque a primeira conclusão que tiro, quando arranjo emprego é que a empresa não pode ser grande coisa. Para contratarem um tipo como eu, é sinal que estão mesmo despesperadinhos de todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas essa falta de crença não é o único defeito que me apontam. Há quem me atire à cara que tenho um curriculum fraquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que eu respondo que não tenho curriculum. O que eu tenho é uma lista interminável de passagens efémeras por locais de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E há também os empregadores que me acusam de ter horizontes limitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E daí, quem sabe não tenham razão. Afinal, eu sou daquelas alminhas que exigem apenas duas condições para o bom desempenho das suas funções:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- uma máquina de café&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- coleguinhas de trabalho giras e com propensão para o uso de roupas curtas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, uma volta tão grande para chegarmos onde eu queria. Às coleguinhas de trabalho!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou antes, às coleguinhas e às chefes, que eu cá não descrimino ninguém em função da raça, cor, condição social, posto na hierarquia laboral e diâmetro das coxas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabem todas na minha cama. Não ao mesmo tempo, porque aquilo é material da Moviflor e se com duas pessoas já range mais que um Range Rover, imagina o que será com 14.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porquê 14? Olhem, porque jurei a mim mesmo que não havia de morrer sem experimentar essa coisa do ménage a 14.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah é a "trois"? Pois, mas para mim as mulheres são como os apóstolos: sempre em grupos de 13, sendo que pelo menos uma delas me vai beijar, trair e levar aos céus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não necessariamente por esta ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, eu sei que os romances de escritório são uma prova inequívoca da minha falta de profissionalismo. Já lá dizia o meu saudoso tio Inácio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah seu cabrão. Não tens vergonha de fazer essas porcarias com a tua prima!?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera lá... não era bem isto que ele dizia. Quer-se dizer, ele até dizia isto, mas era noutro contexto que não é chamado para o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ele realmente dizia - quando não me perseguia com uma vergasta, depois de me ter apanhado com a filha dele, no meio do feno - era:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Onde se ganha o pão, não se come a carne".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a verdade é que aguentar 8 horas rodeado de mulheres bonitas sem fazer o gosto ao pénis... perdão, fazer o gosto ao pé, é penitência digna de uma PAS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De uma quêêê????&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma PAS: Prova de Acesso ao Seminário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convenhamos: se não pudermos a namoriscar a secretária, a telefonista, a contabilista ou a condutora de empilhadores, a quem é que vamos seduzir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À máquina de café?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não diga que não... mas e se as coisas aquecerem um bocadito e eu e a máquina chegarmos a vias de facto? Será que os colegas não vão reclamar que nesse dia o café sabe a "meia de leite".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ehhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BAIXO NÍVEL!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto, meus doces. Já fiz Undo e assim já não aparece no texto esta piada que me transformaria num sério candidato a autor das letras do Quim Barreiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, os romances de escritório são talvez a parte mais importante do meu trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais importante que o salário, mais importante que as comissões e até mesmo mais importante que os Ticket Restaurant mesmo que sejam a título meramente decorativo, uma vez que nunca encontrei restaurantes suficientemente parvos para os aceitarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses relacionamentos são, digamos, o complemento de salário que todos os dias me dão força para percorrer os quilómetros entre a minha casa e o local de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditem que a vontade de dar meia volta é grande. E nem o triplo separador central me impedia de fazer inversão de sentido de marcha e regressar à base.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que são 3 quilómetros de via rápida em contra-mão, comparados com os 28 que o meu tio-Bisavô Felisberto percorreu naquele belo ano de 2002? Pena que não o camião Man de 18 rodados não lhe tenha deixado seguir até ao quilómetro 29.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia ter acabado a carreira em beleza, batendo o recorde do Manuel da Bernarda, que um ano antes tinha percorrido 28 kms e meio de contra-mão em cadeira de rodas eléctrica, alterada por uma oficina especializada em tunning.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que verdadeiramente me incentiva a estar todos os dias no emprego às 9 da manhã - o horário de entrada é às 8h30, não pensem que sou pr'aí algum totó - é, ao fim e ao cabo, a possibilidade de progredir na carreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que eu esteja mortinho por subir de posto e assim passar de delegado comercial assistente para vice-sub-delegado-comercial-adjunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando falo em progressão, estou a referir-me à categoria profissional das colegas com por quem me apaixono dia sim, dia sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como trabalhador compulsivo que sou, acredito que é preciso subir a pulso, percorrendo todos os lugares na hierarquia da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo normalmente pelo pessoal de limpeza, depois avanço para as colegas da produção e em seguida preparo o ataque às colaboradoras do sector administrativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telefonistas, assistentes administrativas, chefes de secção, coordenadoras e, finalmente, a cerveja ;) no topo do bolo... a patroa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o corolário de anos e anos de trabalho duro (OK, anos não, talvez meses, que eu cá nunca passei mais que meio ano num emprego), de horas a fio no meu posto de trabalho (quer dizer, é mais na arrecadação, que não dá muito jeito fazer amor em cima da secretária, com os coleguinhas todos a espreitar), de muito suor derramado em prol da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque eu sou daqueles que sua os lençóis... quero dizer, sua a camisola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, foi numa segunda-feira igual a tantas outras que eu lá fui, em direcção ao suplício - doravante designado de emprego - sem saber que estava prestes a ascender ao topo da carreira indecente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era bem indecente, mas foi a coisa que tinha mais à mão para brincar com a expressão "topo da carreira docente".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o mais engraçado era que praticamente mal tinha começado. Se não estou em erro, acabara de me apaixonar pela miúda dos serviços externos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre um "olhe leve-me isto aos correios" e um "não se importa de deixar isto ao transitário" saiu-me um:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah quem me dera ser uma Modelo 3 para que me levasse assim, juntinho ao seu coração, até à repartição de finanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, o romance durou pouco. O tempo de ela voltar um dia mais cedo dos bancos e apanhar-me a fazer a corte à Guidinha do armazém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em menos de nada apresentou-me a rescisão unilateral de contrato. E, pior do que isso, foi fazer queixa de mim à patroa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que, nesse mesmo dia, a D. Carolina me chamou ao seu gabinete com uma voz doce, que fazia lembrar o suave chamamento das sereias:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha cá, imediatamente!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, fazia mais lembrar os berros de estivador, mas aos ouvidos de um apaixonado, pouca diferença há entre uma sereia e um peludo chamado Eugénio, que nas horas vagas faz uns biscates a rectificar o motor das traineiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chegou-me aos ouvidos que você adoptou uma conduta intolerável para um trabalhador desta casa!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encurralado e perante a perspectiva de ser despedido quando ainda tinha mais 16 funcionárias com quem tentar a minha sorte, não vi outra alternativa que não fosse a fuga em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois, confesso que não procedi da melhor forma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então admite que se envolveu em relações menos próprias com colegas de trabalho - a mulher estava fula, até se espumava de raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, apesar de não ostentar no BI o apelido Cardinalli, eu manifestava um invulgar talento para a amansar feras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada disso. Eu não procedi correctamente porque trabalho aqui há duas semanas e ainda não tinha dado conta que o seu rosto, assim iluminado pela luz da manhã assemelha-se às feições de um anjo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, a luz da manhã era igual à da tarde e à da noite. O pavilhão industrial não tinha janelas, por isso o que lhe iluminava o rosto era uma potente lâmpada fluorescente de 200 watts.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que ela precisava mas era de um holofote de estádio de futebol, que aquelas bochechinhas rechonchudas faziam sombra a tudo o que estivesse num raio de 50 metros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem... o melhor é continuarmos com esta conversa ao fim do dia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um ultra-congelado da Iglo, enfiado no forno a 220 graus - ventilados - a D. Carolina derretera-se toda ao ouvir as minhas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto! Em menos de nada tornei-me no principal candidato a Funcionário do Mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Candidato, mas só até às 6 e meia da tarde. Porque depois dessa hora o título estava no papo. Funcionário do Mês, com direito a foto e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou antes, fotos. Que além do retrato no quadro de honra, ganhava o direito a ter esta carinha laroca no desktop do PC da patroa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes da reunião que ia determinar o meu futuro ao serviço da Neves &amp;amp; Fogaça - Comércio de Artigos de Vestuário Lda. era preciso preparar caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, nada melhor que as palavras de um verdadeiro poeta do amor, para amolecer o coração de aço de uma executiva implacável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Porque eu morro&lt;br /&gt;Se passa um dia só e não te vejo&lt;br /&gt;Nem oiço a tua voz quando chamar por ti&lt;br /&gt;Como é que eu vou viver, viver assim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque eu morro&lt;br /&gt;Se acordo e tu não estás na minha vida&lt;br /&gt;Sem ter o que me dares, o que vai ser de mim&lt;br /&gt;Por certo vou morrer, morrer sem ti&lt;br /&gt;Sem ti "&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até tremo só de imaginar no calor que invadiu a alma - e a roupa interior - da D. Carolina ao ler o e-mail.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorte a minha que ela estava mais preocupada em analisar balancetes do que em ouvir a rádio lá da vila. Se não tinha topado que o poema apaixonado era, afinal, o refrão de uma música do Tony Carreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ela não me descobriu a careca - e atenção que isto não é nenhuma indirecta aos problemas capilares do cantor - restava-me contar as horinhas até ouvir novamente as doces palavrinhas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Importa-se de chegar aqui!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enroscada na porta e com uma vozinha lânguida - enfim, o tom era lânguido, mas a voz continuava a ser de estivador... o que não deixa de ser uma mistura interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, onde é que eu ia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah... enroscada na porta e com uma vozinha lânguida, a D. Carolina mirava-me de alto a baixo com um olhar guloso, que fazia lembrar aqueles dias em que abria um envelope e via lá dentro o cheque gordo de um cliente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora bem, no seguimento da conversa que tivemos há bocado, cheguei à conclusão que era melhor você ser transferido para outro departamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual? - era a pergunta que eu gostava de ter feito, se a patroa me tivesse dado tempo para isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A partir de hoje vai trabalhar directamente sob as minhas ordens, a testar os nossos produtos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, a esta altura convém esclarecer que eu trabalhava para o maior fabricante de roupas interiores da zona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franzi o sobrolho e preparava-me para explicar gentilmente que eu, que me apaixono por tudo e por nada, apaixonei-me pelo conceito de boxers e, por isso, não me agradava nada a ideia de andar por aí a laurear a pevide com cuecas de velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque, sendo uma empresa que teimava em não acompanhar o comboio do progresso - a começar pelos salários, que ainda estavam ao nível dos anos 70 -, a Neves &amp;amp; Fogaça dedicava-se quase em exclusivo a um modelo de roupa interior conhecido como as "cuecas da avozinha".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia eu todo lançado, a tentar, pelo menos, obter contrapartidas para a difícil tarefa de submeter as minhas virilhas aos efeitos hipoalergénicos da tirilene, quando a D. Carolina me voltou a cortar o pio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desta vez nem foi preciso abrir a boca. Bastou-lhe abrir a braguilha e baixar as calças de bombazine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Linda!!! - disse eu, deslumbrado pelas imensas cuequinhas azul eléctrico polvilhadas com estrelinhas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Linda não! Para ti sou a Lina... Caro..Lina. Anda cá meu principezinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, antes que tirem conclusões precipitadas, é bom deixar claro que a roupa interior - e respectivo conteúdo - era interessante, mas não tanto que justificasse o rótulo de "Linda".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até porque a palavrinha que eu deixara cair não era propriamente um adjectivo. Era mais um nome: Linda Carter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem??? - perguntam as queridas leitoras, já a olhar para mim de canto de olho, como a querer dizer "Arma-te em inteligente e vais ver que eu te troco pelas crónicas do "Sexo e a Cidália" com uma pinta dos diabos!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem não teve a sorte de viver nos saudosos eighties, a Linda Carter foi a actriz que deu corpo - e raramente a expressão "deu corpo" foi tão bem aplicada - à personagem da Wonderwoman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que em português foi traduzida como Super-Mulher, o que fez com que muita gente começasse a pedir "2 contos de gasolina Wonder" sempre que ia ao posto de combustível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(cliquem aqui se estiverem com dificuldades em chegar lá)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://images.allposters.com/images/71/039_35424.jpg&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, admito que as cuequinhas são, no mínimo, inestéticas. Mas a vida ensinou-me, à sua maneira, que não devemos julgar as mulheres pela sua roupa interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida e umas quantas incursões ao balneário feminino, durante as aulas de educação física, no 8.º ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais não digo, que eu e o Júlio da Serração fizemos um pacto de silêncio, para que mais ninguém sofresse o mesmo choque traumático que nós sofremos ao ver que a professora Manuela usava umas truces de homem, verde tropa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, roupa interior à parte, o importante é que a partir desse dia, a minha vida profissional mudou. E de que maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, passei a entrar às 7 e meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não por causa do serviço atrasado, mas porque a essa hora eu e a Lina - agora que fui promovido já posso chamá-la assim - estávamos à vontade para fazer amor no armazém, por entre rolos de fio e pilhas de tirilene.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em vez de me escapulir às 5 e meia, com o pretexto de ir levar "não sei o quê, a não sei onde", saía da empresa a alta noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque, se vocês julgam que é fácil sair do gabinete dos patrões quando eles não gostam de nós, imaginem o difícil que é fugir de lá quando eles gostam de nós. E muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resumindo: a minha carreira estava a subir em flecha... em flecha não, porque que eu saiba as flechas sobem na vertical. E a minha subida era mais na horizontal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esperem lá que a minha vida profissional não era só sexo! Além da componente lúdica, havia a parte laboral propriamente dita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram tempos em que trabalhei muito. Demonstrava interesse, tomava a iniciativa e pior que tudo, comecei a ter ideias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, já se sabe, quando eu começo a ter ideias, mais cedo ou mais tarde a coisa vai correr mal. Ò se vai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma dessas ideias foi criar um site para divulgar a marca de roupa interior "Wonderwoman", sendo que o nome da marca foi outra das minhas infelizes ideias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhava em expandir o negócio para o estrangeiro, aproveitando uma onda revivalista, que não existia. Mas que eu acreditava piamente poder lançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dia, todas as mulheres acima dos 40 vão usar umas cuequinhas "Wonderwoman" - dizia eu, enquanto me debatia para libertar o generoso par de nádegas da Carolina, de um par de "azulinhas com estrelas brancas" como também eram conhecidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E realmente, elas eram talhadas para "+ de 40"... quer estejamos a falar da idade ou da medida das coxas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava inebriado pelo aroma do sucesso. E nem me dei conta das nuvens negras que se aproximavam... quer-se dizer, até me dei conta, mas pensei que fossem as bochechas da Carolina a fazer-me sombra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho de me converter no Rei das Cuecas de Tirilene acabou, ironicamente, numa bela manhã de segunda-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bela sim, porque nessa altura já não havia depressão que me impedisse de chegar à fábrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até porque tinha boas razões para isso. Desde que me tornara no braço direito da patroa, o "bom dia" que habitualmente ia dar ao seu gabinete era muito mais que uma frase de circunstância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era mesmo bom. Tão bom que se prolongava até bem perto das 9 e meia. E em vez de um aceno, usava as mãos para outro tipo de movimentos. Bem mais estimulantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, nesse dia, em vez do tradicional "Principezinho, aos aposentos da Super Mulher", o que escutei foi a velha Voz de Comando Alfa... que é como quem diz, o chamamento em tom de estivador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha ao meu gabinete, e é já!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que ela adivinhou que eu hoje estava mesmo apetecer-me uma brincadeira de "patroa implacável vs. funcionário submisso, disposto a tudo para manter o posto de trabalho" - pensei eu, sem fazer ideia do que me esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez do azul eléctrico das cuecas, aguardava-me o azul raiado de vermelho dos olhos enfurecidos da Carolina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja isto - rosnou a patroa, ao mesmo tempo que me estendia uma folha de papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que, aquilo que eu chamo de folha de papel era, no fundo, o meu certificado de incompetência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, era mais uma notificação judicial. Mas lá que certificava a minha incompetência, isso era certinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que parece, a minha campanha de Marketing tinha dado resultados. Tão bons resultados que atravessara o Atlântico e chegara aos olhos dos advogados da Linda Carter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como já na altura a Economia Americana começava a dar sinais de fraqueza, acharam que era uma boa ideia sacar uns patacos aos parvos dos europeus, que até têm uma moeda forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, mas nós europeus só somos de nome. E moeda forte de nada serve em carteira fraca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- 10 milhões de euros de indemnização por violação dos direitos de imagem!? Mas onde é que você tinha a cabeça!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as suas pernas... era esta resposta que a Lina devia ter ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lina! Mas que abuso!!! Carolina... Carolina não! D. Carolina!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, lá se foi a minha carreira de estratega de Marketing pelo cano abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda antes da Carol... perdão, da D. Carolina ter tempo de me meter um processo disciplinar, já os americanos estavam a pedir a falência da Neves &amp;amp; Fogaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes isso do que a minha cabeça numa bandeja de prata. Coisa que eles efectivamente pediram, mas posteriormente recuaram ao aperceberem-se que a sede da empresa não ficava no Zimbabwe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ironias da Globalização, enquanto os americanos aliviavam um pouco da sua depressão (económica) - por pouco tempo, já que a comercialização das "Wonderwoman" nos States havia de revelar-se um rotundo fracasso - a minha depressão voltava em força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que estar sem emprego me deixasse deprimido. Já de lá vinha e sabia que era só uma questão de tempo até aparecer outro empresário parvo ao ponto de acreditar na historinha do "profissionalismo", "entrega total à empresa" e "disponibilidade para trabalhar aos fins-de-semana e feriados sem remuneração adicional".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também não era a vã glória de ter um cargo de chefia. Aprendera à minha custa que quanto mais se sobe maior é a queca... a queda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me deixava realmente triste era ter perdido para sempre a minha Wonderwoman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a heroína da TV quando rodopiava sobre si mesma transformava-se numa Super-Mulher. A Carolina, assim que apareceram os solicitadores de execução, fez um rodopio e transformou-se numa super-heroína completamente diferente: a Mulher Invisível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá fiquei eu a ver estrelas. Sim, estrelas. Brancas, estampadas num par de cuequinhas azul eléctrico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que foi a única coisa que restou daquela relação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:martimrosa@live.com.pt"&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-2176511617996152077?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/2176511617996152077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/2176511617996152077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/04/wonderwoman.html' title='Wonderwoman'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-831718957674321421</id><published>2008-03-06T14:52:00.000Z</published><updated>2008-04-07T16:30:08.926+01:00</updated><title type='text'>Lídia</title><content type='html'>Alguma vez tiveram a sensação de que estavam a viver dentro de um filme?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho. Pelo menos, sempre que ligo a TV está a dar o Armageddon. Ou é na SIC, ou no Hollywood ou mesmo no AXN. Não há maneira de lhe fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz lembrar o meu ex-colega de escola, o Nélson. Sempre que saio à rua já sei que vou apanhar uma seca de 3 quartos de hora a ouvi-lo falar do maravilhoso mundo dos materiais de construção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais voltas que dê, por mais obscuras que sejam as ruas ou por mais rápido que eu ande, não há maneira de fugir-lhe. Aparece-me sempre com aquele fato cinzento da Macmoda e uns 4 quilos de catálogos debaixo do braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o Armageddon é a mesma coisa. Por mais que eu saltite de canal para canal hei-de sempre tropeçar no filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, já sei que vão ser duas horas à espera que o Bruce Willis e amigos rebentem com o calhau ao meio e salvem a Terra de apanhar semelhante pedrada, daquelas que até a própria Amy Winehouse dispensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para as menos atentas ao fenómeno musical, a tal Amy Winehouse (que, traduzido à letra é qualquer coisa como Amy Adega) é assim uma espécie de Jorge Palma do Reino Unido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, minhas lindas, para vocês terem uma pequena ideia da quantidade de vezes que eu já vi o filme, eu conheço tão bem o argumento que no outro dia o Ben Affleck enganou-se numa das falas e eu tive de o corrigir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hum, que bem me soube. Sim porque o Ben estava-me aqui atravessado desde que andou a dar umas curvas com a Jeniffer Lopez e depois trocou-a pela escanzelada (e orelhuda) da Jennifer Não-sei-quantos. Aquela da Vingadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora perguntam vocês: então sempre é verdade que andas de namorico arranjado com aquela miúda da Galiza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera lá, não era bem isto que vocês deviam perguntar. Ai, que estas miúdas querem saber mais do que devem! Vá, o que vocês realmente perguntam é:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, ò palerma! Então se já viste o filme tanta vez, porque é que insistes em vê-lo sempre até ao fim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa pergunta. Muito melhor que anterior, diga-se de passagem. Ora bem, isso é coisa a que eu não vos sei vos responder. Ou por outra, não sabia, até há coisa de uma semana e tal, altura em que o Armageddon voltou a passar, desta vez no AXN.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu ali, todo concentrado, à espera que o Billy Bob Thorton se virasse para o Bruce Willis e dissesse "Tell me you never left anyone down", quando de repente, zás, fez-se luz no meu espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas só no espírito, porque a sala manteve-se na mais perfeita escuridão. Fundiu-se a lâmpada e não tinha mais nenhuma para a substituir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, isto é tal e qual aquela cena que se passou aqui há meia dúzia de anos num prédio onde eu morava!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que eu descobri porque é que não era capaz de descolar as retinas do ecrã sempre que passava o filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, inconscientemente, eu estava a rever, no Armageddon, aquela que foi, talvez, a situação mais assustadora da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, a segunda situação mais assustadora, logo a seguir aquela outra em que o Tony Armeiro se convenceu que fui eu quem engravidou a irmã adolescente dele. E sim, chamavam-lhe Tony Armeiro porque era ele quem abastecia a malta do Bairro com todo o tipo de caçadeiras, zagalotes, shot-guns e afins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o que interessa para o caso é que a tal situação em que corri risco de vida é, em tudo, semelhante à que é contada no Armageddon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digamos que em ambos os casos houve um problema. E dos grandes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, no filme, os heróis estiveram vai, não vai para serem esmigalhados por um asteróide do tamanho do rabo da Betty Feia, na vida real - se é que se pode chamar "vida real" a estas histórias que eu vos conto - eu e a minha rapaziada tivemos que lidar com um problema bem mais grave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corria o ano de 2002 e os reparadores de soalhos esfregavam as mãos de contentes. É que não havia piso flutuante que resistisse a tanta lágrima derramada em cada episódio da telenovela "Nunca Digas Adeus".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente lá no prédio onde um amigo emigrado no Canadá me fazia o favor de deixar viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À falta de cenas de violência doméstica - escassas, desde que o Tomé deixou de bater na Camilinha... depois de uma trombose lhe ter roubado a mobilidade nos membros - as miúdas lá do prédio contavam os segundos à espera do último episódio da telenovela da TVI "Nunca Digas Adeus".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas afinal, que raio é que isto tem a ver com o facto de eu ter corrido risco de vida????&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ò minhas queridas, uma coisa é a humanidade morrer calcinada depois de levar com um corpo celestial em cheio na tromba. Outra, bem pior, é gramar com 6 ou 7 meses de dramazinhos de caricacá para, no fim, ficar sem saber se a Lídia Franco ia ficar com o Nuno Homem de Sá ou com o Tozé Martinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que esteve na iminência de acontecer depois de, numa quente tarde de Maio, terem ido lá ao prédio os técnicos da TV Cabo desmontarem a ligação pirata que abastecia toda a vizinhança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pirata, alto aí! É que não estamos a falar de uma ligação qualquer. Aquela obra de electrónica caseira era o Jack Sparrow das ligações clandestinas à TV Cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um duro golpe. Suponho que, para as minhas vizinhas, aquele som do alicate a cortar o fio tenha sido o equivalente ao estrondo dos meteoritos que, no Armageddon, reduziram Paris a escombros. E deixaram o Hitler roidinho de inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim, num ambiente de histeria, que cheguei a casa. Os berros ouviam-se a três quarteirões dali, o que só poderia querer dizer duas coisas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A - A mãe acamada da minha vizinha de baixo morrera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;B - Deixara a herança à Santa Casa da Misericórdia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri para o meu minúsculo T1 e desatei a revirar as gavetas, à procura de uma gravata preta minimamente decente para levar ao funeral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como assim, as netas da velha era umas belas lascas e a voz da experiência insistia em recordar-me que as miúdas carentes ficam mais vulneráveis às investidas do malandrote do vizinho que passava o tempo a micar-lhes o decote sempre que elas vinham à varanda estender a roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu a ver se arranjava maneira de tingir de preto uma gravata cinza-debotado, quando me bate à porta do Sr. Gonçalves, administrador de condomínio e mestre-de-cerimónias lá do prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eia, c'um caraças! Ainda o corpo da velha não arrefeceu e o raio do homem já está a fazer peditório para a coroa de flores? - pensei eu, enquanto elaborava mentalmente uma lista de possíveis desculpas para não contribuir para a vaquinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, em vez de me estender o braço à espera que lhe caísse uma notinha, o homem pôs-me as mãos nos ombros e disse-me, com ar pesado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu rapaz, tenho uma missão para si!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora digam lá que o Sr. Gonçalves não faz lembrar o chefe de missão da NASA, lá do Armageddon?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz, não faz? E ainda vai fazer mais quando eu vos disser que o homem tem duas coisas em comum com a personagem do Billy Bob Thorton:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - É coxo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 - Já foi para a cama com a Angelina Jolie... se bem que o fez apenas em sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para aquilo ser uma réplica exacta do filme só faltou mesmo o homem mandar-me colocar um carga explosiva num asteróide. Em vez disso, o Sr. Gonçalves vinha incumbir-me de uma missão bem mais arriscada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Preciso de si para liderar uma equipa de voluntários, que não tenham medo de ir lá acima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O facto do homem estar a falar comigo há 5 minutos sem me pedir o dinheiro do condomínio em atraso deve ter mexido com os meus nervos. Só assim se justifica eu ter feito a pergunta mais parva que alguma vez deslizou pela minha boca fora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lá cima onde? Ao espaço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual espaço qual, quê! Ò homem, a gente precisa é que você vá lá acima ao terraço reparar a velha antena colectiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspirei de alívio! Confesso que, por uma fracção de segundos me passou pela cabeça que o velho tivesse escondido na arrecadação um vaivém espacial e me fosse pedir para entrar em orbita e tentar virar um satélite de telecomunicações aqui para o prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, a missão era bem mais terra-a-terra... he, he, nem de propósito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos vistos havia uma esperança para os meus vizinhos... a Esperança morava no 5.º andar e era uma boazuda do caraças. Mas isso, infelizmente, não tem nada a ver com o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra esperança - a que leva um "e" minúsculo - morava um bocadinho mais acima. Concretamente, no terraço do prédio. Sob a forma de uma velha e ferrugenta antena, que em tempos abastecera todas as 28 fracções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, não funcionava desde que um relâmpago lhe acertou em cheio, numa noite abafada daquele longínquo Maio de 79. Precisamente na altura em que o professor Herculano Quintanilha se preparava para adivinhar os números da lotaria dessa semana... sim, estou a falar dessa outra fábrica de lágrimas chamada “Astro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tanta coisa que mudou desde esses bons velhos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes 20 e tantos anos, a nossa TV ganhou mais não sei quantas cores, em vez das tradicionais 6 (preto, branco e cinzento, claro, escuro e assim-assim).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ganhou mais uma batelada de canais, em vez dos 1 e meio de outrora... sim porque abrir a emissão às 5 da tarde é coisa de meio canal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, e mais importante que tudo, ganhou uma infinidade de programas em directo das comunidades emigrantes de Toronto, New Bedford ou Lausanne. Quando antes tínhamos o Festival da Eurovisão em directo e era um pau!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, se vocês me conhecessem minimamente, já deviam ter percebido que eu estou aqui e engonhar com esta lenga-lenga porque o que se segue não é propriamente coisa que me agrade recordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque a esta altura havia uma dúvida que me atormentava o espírito. Não... não era saber o como é que eu havia de pôr aquela velharia a funcionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu queria mesmo saber era: "Com tanto inútil que pode morrer e não faz cá falta nenhuma, desses que andam à solta aqui pelo prédio, porque raio é que me foram escolher logo a mim?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que parece, corria na vizinhança o boato que eu era Engenheiro na fábrica de cabos lá da zona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, havia nisso uma pontinha de verdade: eu efectivamente trabalhava na referida fábrica. Se bem que trabalhar não era propriamente o termo mais adequado. Era mais: passar lá 8 horas por dia a contar os minutos até o salário cair na minha conta bancária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda tentei explicar-lhes que eu de cablagens não percebia pevide e que só arranjara emprego porque o meu padrinho salvara a vida ao chefe de pessoal, na Guerra do Ultramar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as minhas queridas desenganem-se se pensam que o meu Tio Zé andou a dar uma de Rambo, a puxar o homem para fora de um campo minado ou a tirá-lo debaixo de uma chaimite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque não há heroísmo nenhum em desencaminhar um camarada de armas para passar a tarde numa cubata com 3 mulatas, enquanto o resto da Companhia era dizimada numa emboscada em Vila Peri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixe-se de tangas! A gente já sabe que você não é desses caga-tacos que andam pr'aí a armar em bom, a dizer "eu sei, eu faço, eu aconteço". Amanhã ou depois, pode vir-me com essa história do seu padrinho... mas hoje não. Hoje precisamos de si! Olhe bem para eles! A felicidade destas 30 famílias depende dos seus conhecimentos de electrónica!!! - o Sr. Gonçalves não evitou que uma lágrima lhe rolasse pelo rosto abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe não estaria a recordar o episódio de ontem do "Nunca Digas Adeus". Até eu ia chorando quando vi o Tozé Martinho a fazer de conta que se ia amandar de um penhasco abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha sido uma pena... um carro tão bom, assim desfeito nas rochas da Boca do Inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bonito! Desta é que tu não te safas!!! - pensei eu enquanto subia os degraus, em direcção ao terraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, o meu medo não era propriamente que a missão corresse mal. O que eu receava era que a minha namorada da altura - uma calmeirona que jogava voleibol no Sporting de Espinho - descobrisse as marcas de baton que a Matilde me deixara na camisa, quando veio desejar-me boa sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ciumenta como era, havia de me espalmar a mão na cara com uma força que mais parecia que estava a bater naquelas bolas Wilson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda por cima, ciúmes infundados. Pobre Matilde, um doce de menina que eu sempre tratei como filha... apesar de ela ter idade para ser minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mais, estando ela noiva e de casório marcado com o Saraiva, o meu braço direito naquela expedição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Braço direito, é como quem diz. Que o rapaz desde que se atrasara 3 segundos a tirar a mão de dentro da guilhotina, lá na gráfica, ganhara a alcunha de "Saraiva Maneta".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêem, esta história está cada vez mais parecida com o Armageddon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma ameaça contra a humanidade (não ver o último episódio do "Nunca Digas Adeus"); há um gajo obrigado a ser herói (yours trully); uma filha que não quer perder o pai (a Matilde) e um namorado da filha que atrapalha mais do que ajuda (o Saraiva).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se isto não fosse o suficiente para tornar esta história num remake do Armageddon, havia por lá mais uns quantos "astronabos" que compunham o ramalhete:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- 1 tarado sexual (o Quinzé, que trocara o seminário por um lugar ao balcão da sex-shop lá do bairro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- 1 negro (que apesar de ter menos 2 metros que o Bear era igualmente propenso a fugir à bófia numa mota... se bem que tinha boas razões para isso. É que a mota não era dele. E a droga escondida na mochila também não)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- 1 russo (que não tinha nada a ver com o Cosmonauta da Mir mas bastava-lhe falar russo e andar sempre bêbado para ser parecido com o gajo do filme)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi na companhia deste belo punhado de azelhas que cheguei finalmente ao terraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que se abriu a porta senti cá um friozinho na barriga... OK, não era propriamente medo. Era mais dos rissóis fora do prazo que tinha almoçado na cantina da fábrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que a hora não era de desarranjos gástricos! Faltava menos de 20 minutos para começar o derradeiro episódio da saga da Lídia Franco e eu não fazia a mínima ideia de como reparar o raio da antena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desiludir aquela gente toda não me preocupava minimamente. Já o fizera antes, quando garantira que o meu primo advogado ia ganhar um processo contra o empreiteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele até podia ter ganho. Bastava para isso que os gajos lá da Ordem dos Advogados tivessem aceite a inscrição de um finalista de Direito... com metade das cadeiras do primeiro ano em atraso. Mas ainda assim finalista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me deixava realmente apreensivo era a possibilidade de desiludir o Sr. Gonçalves. É que, pelas minhas contas, eu já devia uns 40 ou 50 euros da mensalidade do condomínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tinha a consciência de que um simples fio mal ligado podia fazer a diferença entre um indulto e o despejo compulsivo, por incumprimento contratual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para complicar ainda mais as coisas, levantou-se uma daquelas tempestades de Primavera. Aquelas que aparecem quando menos se espera e nos dão cabo da resistência do frigorífico, precisamente quando acabamos de o encher de carne, comprada num saldo que o talhante fizera um dia antes de lá ir a Inspecção Sanitária (hoje conhecida por ASAE).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, pior ainda, daquelas que nos rebentam com o disco do computador quando nos faltavam 3 míseras linhas para acabar de escrever uma história quase tão parva como esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá bem, eu sei que há uma coisa chamada UPS que nos protege os computadores das descargas eléctricas. Mas também há uma coisa chamada "penúria" que todos os meses me impede de comprar o que quer que seja, a partir do dia 10... sendo que o pagamento do salário se faz aí pelo dia 8 ou 9.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto para vos mostrar que a coisa lá em cima não era famosa. Arrisco mesmo a dizer que metia ainda mais medo do que o cenário dantesco que o Bruce Willis e restante trupe encontraram no calhau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que isso não era difícil. Só a imagem das combinações da D. Adélia a secar no estendal era bem mais aterradora do que ver um colega a ser esmagado por 3 toneladas de ferrite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente a visão tenebrosa durou pouco tempo. Graças ao Quinzé que, fazendo jus à fama de pervertido, aproveitou a desculpa do "ah já estão secas, vou ali entregá-las à D. Adélia e venho já" para debandar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acabou por ser um exemplo inspirador para o Ruço. Não o cidadão de leste, mas sim o negro... assim chamado pela espessa camada de tinta amarela que lhe cobria a não menos espessa carapinha. Assim uma espécie de cruzamento entre o Abel Xavier e o Pietra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, aqui de cima é que reparei que deixei a mota mal estacionada. Eu volto daqui a nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltas, voltas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente a mota estava em cima do passeio. Mas isso só seria um problema se o Kawasaki fosse dele. O que não era, manifestamente, o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que havia de lhe pertencer. Mas apenas por 10 minutos. O tempo que levou até o Ruço se espetar contra um carro de polícia, quando voava a toda a velocidade, numa desesperada tentativa de chegar a casa do primo Kimbé, antes de começar o genérico da novela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além dos dramalhões televisivos, o primo guineense do Ruço cultivava o gosto pelas catanas e cães de raça pitt-bull. O que lhe assegurava imunidade às investidas dos técnicos da TV Cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A debandada só não foi geral porque o russo - este sim natural da República Russa - encontrou lá num canto uma garrafa de diluente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, ao que parece, 3 anos a estudar Engenharia Química na Universidade de Moscovo garantiam formação profissional mais do que suficiente para transformar uma garrafa de produtos altamente tóxicos num monumental pifo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Restava-nos o Saraiva. Que além de maneta era emocionalmente frágil. Só assim se compreende ele ter desistido da ideia de ir ver a telenovela para o café, bastando para isso eu ter ameaçado abdicar do privilégio de ser o seu padrinho de casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desgraçado! Daí a 6 meses, quando abrisse a caixa e descobrisse o conjunto de chávenas de café rachadas que havia de lhes oferecer, de prenda de casamento, havia de amaldiçoar o dia em que optara por se manter ao meu lado, como fiel carregador da mala de ferramentas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem fazer a mínima ideia do que estava a fazer, abri a caixa de ligações da antena e desatei a resmungar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Xiiii! Cambada de incompetentes!!! Ligaram o cabo de derivação à entrada de conexão UHF...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase - acabadinha de inventar - era acompanhada de um ar de entendido, como que a tentar tapar o sol com a perneira*.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Nah, isto da "perneira" não foi nenhuma gralha. Foi mesmo um trocadilho inteligente... pelo menos alguma coisa de inteligente tem de haver neste amontoado de "e foi assim"; "se bem que" e "sendo que".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E como é? Dá para resolver? - perguntou o Saraiva, enquanto se desviava de um relâmpago. Ou de uma golfada de vomitado lançada pelo russo. Já não me lembro qual das duas foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, não sei não! Se ao menos eu tivesse uma alicate corta-fio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;He, he! A clássica desculpa dos técnicos. Nunca falha! Não tinha o equipamento necessário, por isso regressava no dia S. Nunca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, para grande azar meu, inesperadamente o Saraiva decidiu que nesse dia os seus quatro neurónios haviam de entrar ao serviço, em vez de jogarem à sueca, como era seu costume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cá está ele!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante bem que me apeteceu mandá-lo para o raio que parta! Mas acabei por bem não o fazer... não era a coisa mais adequada para se dizer numa noite de trovoada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosga-se lá o homem! Olhando para ele, diria que era gajo para cortar a mão que lhe sobrava, se tentasse abrir uma porcaria de uma navalha. Mas então não querem ver que o anormal sabe o que é um caraças de um alicate corta-fio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, para disfarçar a coisa ainda andei ali às voltas com o alicate, a fazer de conta que descascava as pontas de uns cabos. Mas ao fim de duas unhas lascadas achei que o melhor era acabar com aquela farsa e enfrentar as consequências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atirei com o material para o chão, olhei o Saraiva nos olhos e disse-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puto, tenho que te contar uma coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, acabei por não contar mais nada porque nesse preciso momento fui atingido em cheio na testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um relâmpago? Quem me dera! Ao menos acabavam-se os meus tormentos de uma vez por todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada disso, o que me acertou foi uma valente chicotada, mesmo entre os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, uma chicotada. Aplicada pelo bêbado do russo, que não se cansava de abanar o cabo da antena de um lado para o outro, a berrar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu ser grande Cardinalli. Domador de feras!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ptaff! Mais uma chicotada, mas desta vez escapei. Desviei-me no último segundo e acabou por atingir o estandal do Fernandes, delegado de informação médica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Xiiiii, quem vai ficar uma fera é o homem! Quando ele descobrir que lhe rasgaram ao meio os boxers do Lexotan não há chicote que valha ao Dimitri!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas entretanto, o russo continuava a fazer o seu número de circo. E eu, o meu... cabendo-me o papel de palhaço. Só não fiquei com as costas piores que as da escrava Isaura porque entretanto o Saraiva lhe enfiou com o coto no nariz e consegui agarrar no cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então era isto que me querias dizer! - gritou o meu ajudante, sem conseguir esconder a alegria que lhe percorria a alma. À mesma velocidade que a dor lancinante me percorria o corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, o meu reino por uma garrafa de água oxigenada pela cabeça abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espectáculo! Quem diria que a antena não funcionava porque cortaram o cabo ao meio! És mesmo um engenhocas dos diabos!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, assim nascia um mito. Um não, três!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mito do Engenheiro das Antenas. O mito do herói do "Nunca Dias Adeus". E, melhor que tudo, o mito do caloteiro amnistiado, já que a extensa lista de pagamentos em atraso viria a ser apagada como reconhecimento pelos valorosos feitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se eu estava a ser subitamente elevado ao Olimpo da vizinhança, uma outra personagem havia de percorrer o caminho inverso, afundando-se no lamaçal da vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que parece fora o Sr. Gonçalves quem, em tempos, fizera uma incursão clandestina ao terraço de onde levara "emprestados" metro e meio de cabo, para fazer uma extensão à sua antena interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre homem. Queria ver a Dona Xepa sem chuveiro e como os intervalos - na época de 5 a 6 minutos - não davam tempo de ir à loja, a solução foi abastecer-se no terraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes de assistir à desgraça do Sr. Gonçalves ainda havia uma última tarefa a cumprir. Pôr a antena em funcionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso não custa nada. É só puxar uma ponta e juntá-la à outra... espera lá, falta aqui qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que faltava! Ai, Saraiva, Saraiva. Basta distraíres-te um bocado e lá vão os neurónios outra vez meter-se na jogataina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que faltava era o metro e meio de cabo que haviam de custar ao Gonçalves o mandato como Administrador de Condomínio e, consequentemente, um exílio num outro apartamento do prédio em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que para isso ele tivesse que interpor uma acção de despejo ao próprio filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Granda porra! Já estou a ouvir aquela gaja a cantar o "Nunca Digas Adeus". E agora, o que fazemos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa pergunta. Se fosse pelo Saraiva, tinha-se arrancado a antena da base de betão onde estava presa e chegá-la até à outra extremidade do cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, eu tinha passado tempo suficiente na fábrica para descobrir que, se há coisa boa para fazer passar a corrente, é o corpo humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O choque que o Nunes electricista apanhou, logo ao segundo dia de trabalho, tinha sido bem mais eficaz do que as 5 acções de formação às quais faltei para ir namoriscar com a Celeste da Contabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é que vocês julgam que eu recebia o salário sempre antes de toda a gente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante que se faz tarde e estas meninas têm coisas mais importantes a fazer. Por exemplo, ver o episódio do Desejo Proibido. Acho que é hoje que a moça consegue levar o Padre para o confessionário e... ora bem, adiante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembram-se daquela parte do Armageddon, em que descobrem que o comando da bomba não funciona e tem de ficar alguém para trás a detonar aquela porcaria à unha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, connosco aconteceu a mesma coisa. Naquela noite, um de nós teria que se sacrificar para que todos os outros conseguissem assistir, no conforto do lar, ao desfecho do drama de Vera, Lourenço e João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia era que alguém estendesse os braços, agarrasse nas duas pontas soltas do cabo e deixasse que o sinal da TVI lhe atravessasse o corpo. O que, tendo em conta o nível dos anúncios publicitários, era coisa arriscada. Podia muito bem apanhar uma doença durante os 25 minutos de intervalor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, tendo em conta que o russo era uma carta fora do baralho – com a piela que o homem estava ainda acabávamos todos a ver o resumo do CSKA contra o Zenith de São Petesburgo, na TV Moscovo – a coisa teria que se decidir entre mim e o Saraiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se no filme resolveram o assunto com o método do fio descarnado (perdia o que tirasse o mais pequeno) aqui teria que se recorrer a outra técnica. Sim porque, caso não se lembrem, foi a falta de material de cablagem que nos meteu naquela embrulhada. Assim sendo, todos os milímetros de fio eram indispensáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí eu, eu que até tinha apostado 5 contos em como a Lídia Franco ficava com o Tozé Martinho, arranjei maneira de passar a perna ao Saraiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, sendo assim temos que resolver isto pelo clássico “papel, pedra e tesoura” – disse eu, já careca de saber que o Saraiva ia escolher pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque um coto é um coto. Não há maneira de o transformar numa mão aberta ou em dois dedos em forma de tesoura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eia ganda bronca, o papel embrulha a pedra. Ganhaste!!! – o Saraiva não escondia o descontentamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda assim quis vender cara a derrota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou agora a ver que temos um problema… é que eu só consigo agarrar numa ponta do cab…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto da frase já ele não a disse. Porque nessa altura estava eu a esfregar-lhe à frente do nariz um rolo de fita-cola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inconformado, lá me estendeu o braço para que eu o colasse à ponta do fio. Mas quando lhe agarrei no coto fui subitamente invadido por uma dúvida desistencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti-me na pele do Harry Stamper. Não podia deixar que o meu AJ partilhasse aquele momento único na História da TV, longe da minha afilhada, Matilde…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que, no último momento, virei-me para o “puto” e resmunguei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah porra, esta fita-cola não serve. Preciso de fita de bobine. Pede ao Dimitri para ir contigo buscar um rolo ali abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que o Saraiva sabia melhor que ninguém que aquela fita-cola servia na perfeição. Era a que a Matilde usava para depilar o buço de “arame farpado” que a miúda ostentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas fez-se de anjinho e lá foi ele escada abaixo, acompanhado do russo. E continuou a armar em ingénuo quando eu tranquei a porta do terraço e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A tua missão agora é outra. Ver o final do “Nunca Digas Adeus” com a Matilde. Ela vai precisar de um ombro forte para a confortar e ajudar a suportar a carga emocional do último episódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que se fazia tarde, por isso o Saraiva não perdeu tempo com fitas do género “Harry, Harry! Don’t do that”. Qual quê… desatou a correr e só parou quando ouviu a voz da Isabel Campelo a cantar a parte final do genérico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, parece que somos só nos dois! – disse eu, virado para a antena, enquanto agarrava firmemente nas duas pontas do cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera lá! Quem disse isso foi o Harry Stamper, do Armageddon. O que eu disse foi qualquer coisa como isto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, fosga-se que esta merd… dá choque!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a dor física era insignificante, quando comparada com o turbilhão de sensações que me percorria o espírito. Não, não eram sensações… era mesmo a corrente eléctrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, talvez isto não tenha sido uma grande ideia… Agora sim compreendia o dilema da Lídia Franco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacrificar-me em favor da família e amigos (e estar casada com o Tozé Martinho há-de ser cá um sacrifício, daqueles…). Ou largar tudo em nome de uma aventura, ao lado de uma pessoa emocionalmente instável, rude e com fama de resolver as coisas à chapada…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou a falar da minha voleibolista. Não do Nuno Homem de Sá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu coração estava dividido, mas subitamente percebi que o meu destino era ficar ali. Porque há coisas das quais não nos conseguimos soltar. Por mais que tentemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais? Por exemplo, um cabo com corrente eléctrica quando temos as mãos húmidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:martimrosa@live.com.pt"&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-831718957674321421?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/831718957674321421'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/831718957674321421'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/03/ldia.html' title='Lídia'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-3738118270108297280</id><published>2008-02-14T18:14:00.000Z</published><updated>2008-04-07T16:32:39.642+01:00</updated><title type='text'>Epifania</title><content type='html'>Eu, que me apaixono por tudo e por nada, apaixonei-me de tal maneira, um dia, que ao fim de uma semana fiquei noivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas noivo a sério. De anel no dedo e casamento marcado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior ainda: de anel no dedo, casamento marcado, convites impressos, sinal já pago na Quinta dos comes e bebes e viagem reservada para Pipa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como é que eu me meti numa embrulhada destas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa da porra da bricolage!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confusas? Bem-vindas ao clube... mas não se preocupem que eu explico. Ou, por outra, vou tentar explicar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em regra sou aquilo que se chama "uma jóia de pessoa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais prestável do que um mórmon a tentar angariar alminhas, estou sempre pronto a dar uma mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja para carregar os sacos da velhinha que mora 5 ruas acima, seja para empurrar a carrinha da peixeira que voltou a ficar empancada - leia-se com a embraiagem queimada... é o que dá conduzir com socas e meias de montanhista - seja para aconchegar os lençóis à vizinha carente, que suspira pela ausência do marido, a trabalhar numa fábrica de segmentos em Lyon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está-me na massa do sangue... ou, como dizia o SpiderMan: "this is my curse, this is my gift".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o meu dom, é a minha maldição. E que maldição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa tarde de Primavera fui ajudar a prima de uma colega de trabalho a montar uns móveis e saí de lá noivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não comecem com insinuações sexuais de duvidoso bom-gosto... eu não montei a miúda em vez dos móveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, naquele apartamento ninguém montou nada. Pelo contrário, desmontei os móveis uma data de vezes até não aguentar mais e, num momento de perdição, ter transformado 10 quilos de contraplacado num amontoado de serradura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim descobri que há dentro de mim um pequeno hooligan, sempre pronto a escavacar uma mobília de sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passem-me para a mão meia dúzia de tábuas, um saco de parafusos e uma folha de instruções a dizer Moviflor ou IKEA e zás...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um momento para o outro estão vocês a assistir em directo e em exclusivo à transformação do Ghandi no Incrível Hulk.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não gostou mesmo nada da brincadeira foi a Eduarda. Com a mesma facilidade com que desmanchei a escrivaninha, desmanchou-se ela a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronto, desculpa-me por este passanço. Eu pago tudo - disse-lhe eu, enquanto fazia contas à vida, a ver qual dos meus pobres bens eu tinha que deixar na casa de penhores, desta vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é isso... eu fiquei assim porque me fizeste lembrar o Cajó, o meu ex-noivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, estava lançada a isca para o parvo do vosso amigo, qual tainha atrás de uma minhoca enrolada no anzol, se preparava para morder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que parece, a Dadinha estivera até há poucas semanas noiva. Aliás, parte dos 500 quilos que eu ajudara a acartar para o 9.º andar era o enxoval da miúda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, que saudades dos velhos tempos em que os enxovais cabiam dentro de uma arca. Nos dias de hoje, não chegam 2 Ford Transit de tecto alto para carregar com as "coisinhas" que as moças vão juntando com tanto carinho, para depois de casadas os maridos enfiarem na garagem, ao pé da máquina de musculação que nunca vão usar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que o Cajó não viveu o tempo suficiente para fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coitado, a três dias do casamento estava a montar os móveis do quarto quando, depois de uma martelada mal dada no polegar, se encheu de fúria e agarrou na mesinha de cabeceira, com o intuito de a amandar contra a parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, nesse momento, pisou o berbequim que usara para tentar - sem sucesso - pendurar o espelho na parede do quarto. Quer dizer, tinha nome de parede, mas naquele momento mais parecia a fachada de uma Sinagoga na Faixa de Gaza… tal a quantidade de furos que lá tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, como o berbequim estava ligado à corrente, bastou uma pisadela mal dada para... brrrrrrr... começar a furar o tendão de Aquiles do pobre Cajó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheio de dores, correu a acudir ao calcanhar, sem se lembrar que a um metro acima da cabeça os seus braços seguravam numa mesinha de cabeceira em mogno maciço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou poupar-vos os detalhes sórdidos... mas podem ter a certeza que a coisa não foi bonita de se ver, não senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que eu me vi numa embrulhada dos diabos, sem saber muito bem o que fazer com a viuvinha chorosa. E tudo por causa daquele maldito Déjà vu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu devia ter-me desculpado, saído de mansinho e depois mandado pelo correio um cheque sem cobertura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a ameaça de figurar na lista negra do Banco de Portugal e um terrível sentimento de culpa que me devorava as entranhas obrigaram-me a ficar... naquele dia e nos seguintes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando dei por mim, estávamos os dois a jantar numa marisqueira em frente ao mar. O cenário ideal para a Dadinha deixar cair aquela frase mortífera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes, tu tens sido muito importante para me ajudar a ultrapassar a perda do Cajó... não digo que possas tomar o lugar dele, mas acho que serias o marido ideal para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que eu temia. Até estremeci quando ouvi aquelas palavras, que preferia não ter ouvido. Quer-se dizer, o que eu preferia não ter mesmo ouvido eram as palavras do empregado, no final da refeição:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São 68 euros!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosga-se!!! 68 patadas por camarão a saber a mofo, um prato de cascas de conquilha (desalojadas por não pagarem a renda, suponho eu) e a carcaça de uma Sapateira recheada com mostarda e paté do Lidl?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamentavelmente não pude usar nenhum destes argumentos, porque o meu cérebro estava demasiado ocupado a tentar arranjar uma boa desculpa que me livrasse daquele convite envenenado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò amor, tu não vais querer passar o resto da tua vida com alguém como eu... um verdadeiro turbilhão de emoções... vou acabar por fazer-te sofrer sem querer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, estava com este paleio há 20 minutos e nada de lágrimas. Nem lágrimas nem palavras. E agora que falamos nisso, nem lágrimas, nem palavras, nem movimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dadinha estava ali imóvel. E, pior do que isso, a inchar a olhos vistos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao princípio, ainda julguei que estivesse inchada, dos elogios que ia metendo no meio da conversa, para minimizar os efeitos da tampa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas rapidamente percebi que não havia elogios neste mundo que transformassem a Olívia Palito no bonequinho da Michelin, em menos de 2 minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que me lembrei de perguntar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, tu por acaso não serás alérgica ao marisco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rebentar pelas costuras, a Dadinha respondeu com a única parte do corpo que ainda conseguia mexer: as pálpebras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao certo nunca soube o que ela quis dizer com aquelas cinco piscadelas de olho, mas a mim soou-me a qualquer coisa como:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois sou... que estupidez! Com a excitação de te pedir em casamento nem lembrei... às vezes sou mesmo parvinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem tempo para confirmar a resposta, arrastei-a... ou antes, rebolei-a para fora do restaurante, rebati os bancos de trás e enfiei-a como pude na bagageira do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procedimentos médicos? Qual quê! Foi mas é por questões logísticas! Não se esqueçam que na altura eu tinha um minúsculo AX, de três portas. E à velocidade com que a miúda inchava, quando chegasse ao Hospital só havia de a tirar do carro com material de desencarceramento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem foi feita em tempo recorde. Não que ela corresse risco de vida iminente, mas como o AX tinha a inspecção atrasada ano e meio, os travões praticamente não funcionavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve alguns sustos pelo meio, é certo. Mas o maior de todos aconteceu quando chegamos à Urgência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao verem a Dadinha naquele estado, os médicos pensaram que ela sofria de complicações resultantes da instalação da banda gástrica. E mandaram-na direitinha para a sala de operações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desfeito o equívoco, era tempo de esperar. E foi precisamente na sala de espera que tive uma Epifania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, tenham calma! Epifania não foi nenhuma miúda com que eu tivesse curtido na sala de espera. Nada disso, foi mesmo um daqueles momentos em que subitamente compreendemos a essência ou o significado de alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para simplificar: algo me dizia que o choque anafilático que a Dadinha sofrera… não sei se foi bem isso, mas há 10 textos que ando a ver se arranjo um pretexto para usar a expressão “choque anafilático”!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante. Algo me dizia que havia ali uma mensagem do destino a querer dizer-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pá, olha que já não vais para novo e feiinho como és, não arranjas melhor nem que te cubras de ouro dos pés à cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, vá se lá saber porquê, convenci-me que tinha ali a última oportunidade para fazer alguma coisa de útil à minha vida.&lt;br /&gt;Que é que querem, os hospitais nunca foram locais propícios à reflexão e à sensatez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fúria do momento irrompi pelas Urgências adentro, ignorando os gritos das enfermeiras, suplicando para eu não entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que se lixe! Eu só quero correr para os braços da minha princesa e declarar-lhe amor eterno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando entrei na enfermaria é que percebi porque é que me tinham pedido insistentemente para não lá entrar. Afinal, enganara-me na sala e dei de caras com um médico a lancetar a hemorróide de uma octogenária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente o par de estalos que a enfermeira-chefe me deu foi suficiente para evitar o desmaio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já recomposto, fui ter com a Eduarda, segurei-lhe na mão. Quer dizer, segurei-lhe no polegar - que por si só ocupava a minha mão toda - e disse-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens razão bebé... talvez eu não seja o marido ideal para ti... mas vou tentar sê-lo, todos os dias da nossa vida. Queres casar comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez nem precisei de contar o número de piscadelas de olho para perceber que a resposta era um sonoro SIM.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, tivemos de esperar umas semanitas até a Dadinha poder usar o anel de noivado. Além dos meus habituais problemas financeiros, havia ainda uma questão técnica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa da reacção alérgica, a minha noiva ficou 15 dias com uns dedos que faziam lembrar as Bratwurst, aquelas salsichas alemãs, tão grossas que só cabem na boca de um hipopótamo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois meses que se seguiram foram de uma felicidade indescritível... para ela. Porque para mim, foi puro sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde aquele infeliz incidente na marisqueira que não tinha passado um dia em que eu não me arrependesse do pedido em casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo aquilo me fazia aflição:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As roupas tipo "comunhão solene"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As recomendações do padre: onde é que já se viu um conselheiro matrimonial que nunca foi casado na vida e até está proibido de o fazer!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os convites: com o clássico "preferes creme ou pérola?", mas então eles não são iguais???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As Quintas para o copo de água e seu o eterno dilema: Cabrito, ou Vitela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E as alianças, de preferência com 10 centímetros de espessura e um brilhante no meio que é para toda a gente num raio de 15 quilómetros saber que temos dono&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por estas e por outras é que eu estivera vai-não vai para cancelar tudo. Mas havia ali qualquer coisa que me dizia para adiar a decisão por mais uns tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não era o sentimento de culpa. Era outra coisa qualquer. Ah, já sei... era a despedida de solteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A promessa de uma noite com álcool à bruta, strippers com ar decadente e de uma mais que provável doença venérea contraída no WC de um bar de alterne davam-me forças para suportar aquele suplício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esta altura as minhas queridas amigas - ou antes, as poucas que conseguiram sobreviver ao tédio que é ler este texto - já estarão a congeminar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não precisas de dizer mais nada que eu já sei como é que isto vai acabar. Contigo, no dia do casamento, a fugir na charrete e os convidados todos a correr atrás de ti. É isso, não é???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E respondo eu, com um arzinho sádico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Errrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!! Errado! Querem pedir a ajuda do público? Ou preferem o 50/50?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah pois é, meus doces, desta vez a coisa acabou por ser resolver naturalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente, o caraças! Resolveu-se, da pior maneira possível. A diferença é que eu não fui tido nem achado nessa decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo aconteceu uma semana antes da boda. A dois míseros dias da Despedida de Solteiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escaldada do que acontecera com o Cajó - que Deus tenha a sua alminha em descanso - a Dadinha decidira remodelar o mobiliário da sala (o tal que eu destruí quando nos conhecemos) recorrendo aos serviços do bom e fiel comércio tradicional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paga-se mais um bocado - é certo - se avaria uma gaveta quase que mudam a loja de sítio para não darem uma nova - ainda mais certo - mas tem uma vantagem se sobrepõe a todos esses aspectos negativos: mandam alguém lá a casa instalar os móveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso, não tem preço. Que o diga a Dadinha que perdeu um noivo e seguramente perderia outro se não tivesse entrado na loja de mobílias do Sr. Ferraz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um bocado de sorte, não só não perdia nenhum noivo, como ganhava outro. E foi isso que aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário da minha Epifania, que não era mais do que um efeito secundário da inalação de uma bomba de asma (que eu confundira com uma embalagem de Meentos), a Epifania da Dadinha era bem real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revelação surgira aos seus olhos enquanto observava o Virgílio, empregado da loja - ou antes, profissional de assemblagem de mobiliário - com a sua apurada técnica de montagem de dobradiças e o hábil manuseamento da chave de fendas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele instante, a minha noiva percebeu que o que fazia falta à sua vida não era um gajo podre de bom e com uma carreira promissora na venda de seguros - ramo vida (o Cajó) e muito menos um gajo porreirinho e com uma carreira promissora em coisíssima nenhuma (moi-même).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que a Dadinha precisava mesmo era de alguém, como o Virgílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém que conseguisse fazer todo o tipo de trabalhos de bricolage sem escavacar o armário da casa de banho, depois de perceber que estava torto e assim os medicamentos caíam todos para dentro da sanita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi isso mesmo que ela me disse quando me chamou nessa noite, para me comunicar o fim do noivado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceitei a decisão dela, não sem antes fazer a clássica cara de cachorrinho abandonado, que é para ela não perceber o favor que acabara de me fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se por um lado a Dadinha me tirara um imenso peso de cima, por outro, havia algo que me pesava, digamos, na zona pré-frontal. Na cabeça, para ser mais explícito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada disso, querido. Juro-te que entre mim e o Virgílio não houve nada de físico. Só uma grande cumplicidade afectiva!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, puseste-me os cornos e agora estás com essa conversinha mole a ver se me enganas. Tudo bem, eu consigo viver com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário da Dadinha e do Virgílio. Coitados, era tal o sentimento de culpa que me atafulharam de presentes. Então peças de mobiliário, ui, nem se fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, tive o bom-senso de o revender quase todo a um vizinho que comercializava lenha para lareiras e recuperadores de calor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei apenas com uma peça simbólica: um paneleiro... que é um armário de panelas. O que é que estavam a pensar, suas mentes pecaminosas!?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, uma peça simbólica, mas só até eu perceber que tinha montado as portas do avesso, de maneira a que, se eu quisesse tirar de lá uma frigideira, só as abria se estivesse do lado de dentro do armário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após mais duas tentativas frustradas para emendar o erro, não estive com meias medidas e decretei logo ali a sentença de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah paneleiro de merd... estás a fazer-te difícil mas eu vou partir-te em mil pedaços - gritei eu, longe de imaginar que no dia seguinte teria uma manifestação da Opus Gay à minha porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Munido de um machado que a malta tinha comprado para a despedida de solteiro - pelo vistos, a stripper ia vestir-se de lenhadora finlandesa - preparei-me para a matança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei balanço, olhei para o céu – fazendo de conta que não vi a mancha de humidade no tecto da cozinha - e disse bem baixinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esta é por ti, Cajó!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:martimrosa@live.com.pt"&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-3738118270108297280?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/3738118270108297280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/3738118270108297280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/02/epifania.html' title='Epifania'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-7265179600128072564</id><published>2008-01-30T09:39:00.000Z</published><updated>2008-04-07T16:31:39.398+01:00</updated><title type='text'>Carlinha</title><content type='html'>Alguma de vocês já passou pela estimulante experiência de dormir com um homem que fala durante o sono?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim daqueles que contam a vidinha toda entre duas valentes ressonadelas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dormir com alguém que, não só fala durante o sono, como diz palavrões, resmunga, insulta e dá a previsão do tempo para o dia seguinte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aposto que nunca fizeram isso! Acertei, não foi? Pois, mas isso é porque nunca foram comigo para a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, se foram, não ficaram o tempo suficiente para eu adormecer. E se foi esse o vosso caso, então, não sabem o que perderam minhas lindas. Porque, diz quem sabe, ao final da noite costumo também dar a chave do Euromilhões dessa semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que se possa imaginar, dormir com alguém que passa a noite a dizer palavrões não é uma experiência tão assustadora como possa parecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos, a julgar pela quantidade de vezes em que eu já acordei com a miúda toda lânguida, em cima de mim e a dizer-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai querido, adoro quando me chamas esses nomes feios. Vá, agarra-me pelos cabelos e possui-me como a fúria de um carpinteiro de cofragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, a parte do agarrar nos cabelos e do carpinteiro fui eu que inventei para dar um bocadinho de picante à coisa. Mas o resto é verdade, verdadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essas e por outras é que procurei ajuda profissional. Ou por outra, fui jantar com uma amiga psicóloga porque ela era mesmo muito boa. É claro que aproveitei a deixa para lhe expor o meu problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como profissional competente que era, não me deixou sair de casa sem fazer uma observação cuidada do meu corpo... ah e também do meu problema de saúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua opinião - se é que devemos dar crédito a alguém que aceita que eu pague as consultas com favores sexuais - eu sofro daquilo que se chama de Síndrome de Tourette.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é síndrome de trotinete, que eu cá nunca me segurei em cima de nada que tivesse menos de três rodas. É sim o Síndromea de Tourette, que era um francês que inventou esta doença só para justificar o facto de passar os jantares de família a chamar nomes à sogra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basicamente, uma das variantes do sistema, chamada de Coprolalia - livra, que eu quase que dava um nó na língua a tentar dizer isto - faz as pessoas repetirem involuntariamente palavras obscenas e insultos variados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O curioso da coisa é que, no meu caso, os sintomas só apareciam pela calada da noite. As únicas manifestações da doença registadas durante o dia aconteceram um vez, quando me cruzei na rua com o Sócrates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí fiquei preocupado, a pensar que a coisa podia ser contagiosa. É que, de um momento para o outro, toda a gente que estava ali na zona decidiu seguir o meu exemplo e desatou a chamar-lhe nomes do piorio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fosse o homem tão bom em atletismo e não se tinha livrado de uma carga de porrada à moda antiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, com estas e com outras perdi-me... Deixa-me só ligar o GPS e já apanho o fio à meada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "Bip... Você está à porta do Bar de Alterne "Pérola Negra"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ops... pois, sabem como é, minhas lindas... a máquina está descalibrada... confundiu um famoso estabelecimento de diversão nocturna com o barco do Capitão Jack Sparrow!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, é melhor não embrulhar mais a conversa que estas situações são piores que as areias movediças... quanto mais falo, mais me enterro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que interessa é que eu tenho um problema. E dos grandes. Aliás, quando falo nele aos amigos o pessoal fica logo apavorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, já viste a bronca que vai ser se, durante o sono, revelas os teus segredos íntimos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta, apesar de não os tranquilizar, pelo menos deixa-me sossegado. É que os moços, de tão espantados, param logo com as perguntas parvas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, se eu à luz do dia, bem acordadinho, revelo até os pormenores mais sórdidos da minha miserável existência, acham que vai sobrar algum "podre" para contar no calor da noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, lá está a conversa a resvalar outra vez para os bares de alterne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E os códigos do Multibanco? Não tens medo que a tipa descubra quais são e depois te roube o cartão e esvazie as contas? - questionam os amiguinhos mais materialistas. Ou escaldados, depois de terem sido algemados à cama e terem visto as duas brasileiras fugirem a meio de um show lésbico, com uma carteira recheadinha de notas de 500... e não estou a falar de ti, ò Tozé do Talho!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, a esses, eu respondo com a maior das latas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também, haviam de ir muito longe com os 6 euros e 35 cêntimos que eu lá tenho! Se não forem elas a sacá-los, há-de ser o banco a gamar-me os trocos, com a desculpa de que são "despesas de manutenção".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nisso, eu concordo plenamente com as sábias palavras do meu falecido avôzinho: Antes entregá-lo directamente às p... do que o meter nas mãos dos chulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que isto é apenas em sentido metafórico. Quer dizer, metafórico na parte das p..., que no que diz respeito a chulice, ninguém bate os amiguinhos da agência bancária cá do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10 euros por mês para "despesas de manutenção"? Quê, pagam a um gajo para estar lá o dia inteiro a segurar o meu dinheiro nas mãos é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o melhor é ficar-me por aqui antes que os gajos do banco fiquem com os azeites e se lembrem de cancelar o cartão de crédito. E aí, meus amores, vão ter que me gramar a almoçar, jantar e lanchar aí em vossas casas. Até ao fim dos vossos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, falar durante o sono é realmente uma coisa lixada. Mas há situações piores. Quais? Sei lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, estou a lembrar-me daquela vez que fui para a cama com uma cinquentona sexy, linda e com tudo no sítio. Havia só um problemazito menor, coisa quase insignificante: fumava mais do que a chaminé da refinaria de Leça. E de Sines. As duas juntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquem descansadas as minhas queridas leitoras que fumam, porque eu, apesar de ser não fumador desde que vomitei as tripas depois de duas passas num Kentucky “mata-ratos”, até nem sou dado a essas esquisitices - leia-se paneleirices - do anti-tabagismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, não era o fumo, nem o cheiro a tabaco que me incomodava. Era sim a respiração. Tão profunda e ofegante que acordei a meio da noite estremunhado, a pensar que tinha acabado de fazer amor com o Darth Vader.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E daí, se calhar isso não chega a ser tão mau como ir para a cama com um gajo que diz palavrões à fartazana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou ter que arranjar outro termo de comparação mais sumarento. Ah, já sei, sonambulismo! Isso sim é coisinha do caraças...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu próprio já tive uma crise dessas. Foi numa noite em que dormi em casa da Carlinha, secretaria da Junta de Freguesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, eu devia ter percebido que a moça tinha um ou dois fusíveis queimados na mioleira quando ela me apareceu à porta, vestida como se fosse a Agneta... a loira, dos Abba. Com calças brancas à boca-de-sino e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que eu, que me apaixono por tudo e por nada, lembrei-me que nunca tinha ido para a cama com uma estrela da pop. E achei que talvez tivesse ali uma oportunidade única de experimentar a coisa mais parecida com uma noite de sexo com uma cantora famosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torci um bocado o nariz quando ela me apresentou uma indumentária igualzinha à dela, mas em tamanho masculino. Estão a ver aquelas roupas parolas dos anos 70, com a camisa sem botões até metade do peito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nesta vida todos temos que fazer sacrifícios, por isso lá enfiei eu os trapos. Só me faltavam os caracóis para ficar tal e qual o Tom Jones. O segredo para não me rir de mim próprio foi evitar a todo o custo olhar para os espelhos da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao jantar propriamente dito, até não correu mal... partindo do princípio que a perna assada era mesmo de borrego e não de um cão que ela tivesse atropelado no caminho para casa. Que a rapariga tinha menos jeito para o volante do que para escolher o guarda-roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que para o bom ambiente muito contribuiu eu ter quebrado o gelo com a minha velha piada do champanhe indiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conhecem? Eh pá, sabem qual é a melhor marca de champanhe indiano? Monhê &amp;amp; Chandon...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hi, hi, hi, hi, hi... OK, já percebi que só eu é que me estou a rir, não é? Bem, vamos então andar com isto que vocês estão aqui estão a mandar-me à fava e a irem direitinhas pr’ó Youtube que lá é que se encontram coisas com piada, como os vídeos dos Gatos Fedorentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêm, a coisa até nem estava a correr mal. O pior foi quando ela começou a falar das músicas da vida dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até me arrepiei quando a ouvi falar no "Dancing Queen", dos supra-citados Abba; "Girl you know it's true" dos Mili Vanili; e "I would do anything for love" do Meatloaf.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguentei-me como pude e lá consegui levar para a cama aquele verdadeiro monumento ao mau-gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando acordei às duas da manhã com ela a cantar, durante o sono, "A total eclipse to the heart" da Bonnie Taylor, aí, minhas meninas, percebi que não era só a minha saúde mental que estava em jogo. Era mesmo a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vontade era sair disparado porta fora, mas achei por bem fazer a coisa com diplomacia para não magoar os sentimentos da Carlinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não magoar os sentimentos dela e não me magoar a mim, fisicamente. É que o irmão da miúda era campeão de Jiu-Jitsu. E ainda para mais, eu naquela época ainda estava muito sugestionado pelo filme "Atracção Fatal".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele em que, entre uma queca e outra, a Glen Close transforma-se de tal maneira que deixamos de a querer na nossa cama. Ou por outra, começamos a fantasiar com ela numa cama... do Conde Ferreira. Ou Júlio de Matos. Depende da nossa localização geográfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que me levantei da cama sorrateiramente, vesti-me, deitei para a lareira as calças à boca-de-sino e a camisa sem botões e lá fui eu, pé, ante pé, em direcção à porta da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estava escrito que eu não me ia safar daquilo assim tão facilmente. Devia estar pr'aí a uns 3 centímetros da maçaneta da porta quando... tlim!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobressaltada, com o barulho, a Carlinha levantou-se da cama ainda a tempo de me ouvir praguejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- F...-se, parti a m... do cão de porcelana com um biqueiro. C...alho de sorte a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só aí percebi as vantagens de ter ido para a cama com metade das mulheres da freguesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai meu Deus que ele está a dormir! Deixa-me estar calada antes que ele ainda me morra pr'aí de susto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, filha, mas se isso não aconteceu quando abriste a porta de casa e me apareceste nessa triste figura, não era agora que me ia dar uma coisinha má&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, o importante era que eu estava safo. Com aquele penteado horrível ninguém diria, mas afinal a Carlinha tinha passado tempo suficiente no cabeleireiro para ouvir os zun-zuns de que eu insultava as pessoas durante o sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, melhor do que isso, tinha lido suficientes artigos da revista Maria para saber que existia uma coisa chamada sonambulismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntou 2 + 2 e em vez do habitual resultado de 538 - que é que querem, não fui quem deixou cair a calculadora e descontrolou aquela porcaria - chegou à brilhante conclusão que eu estava a dormir em pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos vistos, até mesmo uma rapariga que armazenava dentro do crânio todas perturbações psicológicas conhecidas pela ciência tinha direito ao seu momento de lucidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai, livrei-me de boa. Se não tivesse saído de lá naquele momento estava mesmo f...dido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh grande ordinário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ò meninas, o que é que querem? Não vêm estou a dormir?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahn?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, ou já se esqueceram que eu sofro de Síndrome de Tourette e sonambulismo, ao mesmo tempo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai!!! Vocês não ligam nenhuma ao que vos digo e depois sou eu quem está a dormir? P... que pariu esta m..., c...lho!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:martimrosa@live.com.pt"&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-7265179600128072564?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7265179600128072564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7265179600128072564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/01/carlinha.html' title='Carlinha'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-3849914770097622715</id><published>2008-01-16T13:55:00.000Z</published><updated>2008-04-07T16:33:36.271+01:00</updated><title type='text'>Coração Dissidente</title><content type='html'>Há duas coisas de que me arrependo verdadeiramente nesta vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vá lá, três, se contarmos com aquelas acções da EDP que comprei no final dos anos 90 e que hoje, volvidos 10 anos valem menos do que um rolo de papel higiénico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que quer dizer que não servem nem para limpar... enfim, vocês sabem do que eu estou a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As outras duas são ter sido um fã incondicional dos Europe. Ao ponto de declarar publicamente que música da minha vida era "The final countdown".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ter sido, por umas breves semanas, militante do Bloco de Esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, não é nada disso que vocês estão a pensar. Bem sei que 90 por cento do pessoal só se junta a eles por causa da droga. Mas não foi esse o caso. Aliás, como é que eu podia conhecer o maravilhoso mundo das substâncias psicotrópicas, se só me apresentaram o Jorge Palma umas semanas mais tarde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, a minha incursão na militância política activa teve - à semelhança do que acontece com o resto da minha vida - motivações afectivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, na altura, eu estava mortinho por desfeitar a minha ex-namorada, a Leonor. Uma betinha do CDS que se fartou de ter um namorado pelintra e seguiu o exemplo das amigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, trocou-me por um namorado não menos pelintra do que eu, mas que pelo menos disfarçava a coisa com um apelido pomposo, tipo "D'Orey" ou "Vasconcellos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêm, fiz uma viragem de 180 graus. Nem a Zita Seabra faria melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ao contrário do que possa parecer, a minha conversão ideológica foi rápida, sem precisar cá de longas e demoradas introspecções filosóficas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem foi preciso "virar a casaca". Bastou-me virar a bóina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Virar o quê? - perguntam as minhas queridas, já um bocadinho fulas por não perceberem nada do que eu estou para aqui a escrevinhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virar ao contrário uma daquelas boininhas que os nossos avós usavam. Daquelas que o Paulo Portas enfia na cabeça quando quer apelar ao eleitorado rural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Leonor tinha-me oferecido uma para quando fossemos visitar as propriedades do avô, no Alentejo. Ou antes, as propriedades que os credores se preparavam para penhorar ao avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei a pala para trás e, tcharan... fiquei tal e qual o Che Guevara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, foi só virar a pala para trás e cortar à tesourada a etiqueta que dizia Burberry. Que a malta de esquerda só alinha em coisas de marca. E eram bem capazes de topar que aquilo era artigo de contrafacção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim - já repararam na quantidade de vezes que eu uso esta expressão? Vocabulário pobre... é o que dá ter estudado numa escola pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante... e foi assim que eu me vi envolvido com o pessoal do Bloco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando dei por mim estava a participar em manifestações anti-globalização, anti-touradas, anti-transgénicos, anti-bióticos e por aí fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como bom militante que se preze, a partir de certa altura comecei a pôr os meus interesses à frente dos do partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só assim se justifica eu ter ido parar, numa noite de tempestade, a um concerto do supra-citado Jorge Palma.&lt;br /&gt;Como eu já na altura trabalhava - quer dizer, trabalhar é um eufemismo... fazia de conta que trabalhava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adiante... como eu estava empregado numa empresa de comércio de produtos químicos que duvidosa qualidade, fui até lá na esperança de vender ao cantor uma embalagem de 5 litros do nosso decapante extra-forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito procurado pelos músicos decadentes pelas suas propriedades alucinogéneas, quando inalados directamente da embalagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, em vez de chegar à fala com o cantor, chegou-se ao meu falo uma morena linda de morrer, com um ar exótico que parecia acabadinha de sair da floresta amazónica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais impressionava era o arzinho de índia, com um cabelo negro, sedoso e brilhante. Daí o nome pelo qual ela era conhecida entre a malta do bloco: Pocahontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao certo não sei o que a miúda viu em mim. Um rebelde, lutador da liberdade, que vive segundo as suas próprias regras. Ou simplesmente um gajo com um garrafão de decapante potencialmente nocivo para sistema nervoso central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única coisa que sei é que eu e a Catarina - nome escolhido pelo pai, membro do Comité Central do PCP, em homenagem à heroína Catarina Eufémia - acabamos a noite em casa dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tocar djambé e a declamar poemas do Pablo Neruda... ou melhor, ela é que os declamava. Que eu, pouco conhecedor da cultura marxista, declamava as letras de músicas do Dino Meira, mas com entoação dos poemas do tal Neruda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, aliás, sempre pensei que ele era um gajo a quem o carteiro roubava os cheques da Segurança Social e, por isso, fizera um filme para denunciar o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse clima de amor e revolução que vivemos durante umas boas semanas. Até que - e se repararem bem, nas minhas histórias há sempre um "até que" onde a história muda bruscamente o seu curso.&lt;br /&gt;Lá está, pouca criatividade... claramente um efeito secundário do abuso de substâncias psicotrópicas. Como vêm, o raio do decapante era mesmo bom!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas onde é que eu ia? Ah, no "até que".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia ao remexer no correio da minha Pocahontas - um dos meus vícios secretos - houve algo que prendeu a minha atenção. E nem foi o facto de ela ser assinante do órgão oficial das Testemunhas de Jeová, a "Sentinela".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi, antes, a factura da água. Sim porque eu sou da opinião que se queremos conhecer verdadeiramente uma mulher devemos observar atentamente as suas facturas de consumo doméstico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, convenhamos, um consumo de água de 2,50 euros num mês não é normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa altura eu devia ter-me apercebido que algo não cheirava bem. E nem era pelo aroma intenso a refogado que exalava permanentemente dos seus sovacos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque esse, infelizmente, passava-me ao lado. Desde que na 2.ª classe o Nelinho Ferreira que acertou com uma bolada em cheio no nariz, que ficara com o olfacto reduzido em 90 por cento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mal dos meus pecados, esses 10 por cento que sobravam eram mais do que suficientes para eu sentir um outro cheio bem mais forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um odor que me invadia as narinas e punha as feromonas mais desorientadas que um senegalês à procura da caravana do Dakar 2008, cada vez que a Pocahontas se chegava a menos de 2 metros de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cheiro que eu consigo descrever apenas como... deixa cá ver... ah, um cheiro a texugo em avançado estado de decomposição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha primeira reacção foi, aliás, essa: a de perguntar se ela tinha algum bicho de estimação que tivesse desaparecido recentemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me garantia a mim que o raio do gato não tinha batido as botas depois de ter comido os restos do bife de tofu que eu, discretamente, deitara para debaixo do sofá, na noite em que a Catarina me apresentara aos (des)prazeres da comida vegetariana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digamos apenas que se eu comesse a embalagem de cartão em que vinha embrulhado o maldito bife teria seguramente muito menos vómitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, a miúda jurou a pés juntos que nunca tivera gato, rato ou cabra montesa de estimação. Engraçado, agora que falo nisso, quando ela juntou os pés para jurar deu-me a leve sensação que alguém tinha aberto um queijo da serra... fora do prazo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguiu-se uma rápida sondagem pelo prédio, a ver se algum dos vizinhos tinha morrido. E à falta de cadáveres, conclui que o cheiro a carne putrefacta vinha, efectivamente, do corpo da minha amada Pocahontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a miúda sofresse de alguma doença rara. Ou tivesse um trabalho fisicamente muito exigente, que a deixasse transpirada. Sei lá, estivadora no Porto de Leixões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não. Ou pelo menos, aparentemente não tinha. A Catarina trabalhava numa loja Natura, aquelas que vendem pauzinhos de isto e daquilo. E que têm aquele urso gigante à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E daí, às tantas é ela quem, no final do dia, tem de alombar com o raio do urso para dentro da loja. Coitada da rapariga, aquilo pesa tanta que ela fica toda transpirada - pensava eu, que me apaixono por tudo e por nada, e que às vezes parece que tenho escrito na testa a palavra OTÁRIO, em bold.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi dentro desse espírito de ingenuidade que decidi preparar uma surpresa à Catarina. Uma noite, quando ela regressou do trabalho, tinha à espera dela um ambiente "zen".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Velas aromáticas, música oriental, óleo de massagem e um bom banho de espuma. Estava eu a preparar os ouvidinhos para escutar qualquer coisa tipo "Ai, amor, estragas-me com mimos", quando a Pocahontas se saiu com esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, mas então eu lá sou alguma porca, para me enfiares na banheira mal eu chego a casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo eu, fazendo jus ao painel publicitário afixado na testa, que era electrónico, como aqueles dos jogos de futebol e entretanto mudara para a palavra "PARVO".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò bebé, eu pensei que ias gostar de relaxar depois de um dia extenuante lá no trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois, mas há outras maneiras bem mais ecológicas de relaxar! Ou não sabes que a água desta banheira dáva para matar a sede a uma tribo de refugiados no Darfur?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da minha boca saiu qualquer coisa do género: "Desculpa querida, foi um momento de egoísmo capitalista. Não se volta a repetir".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas cá dentro ficou aquilo que o Nicholas Sparks - ou antes, os tradutores portugueses do Nicholas Sparks - chama de "As palavras que nunca te direi".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois, mas os pretinhos do Darfur não têm o azar de morar no mesmo continente que tu. Porque se morassem, não se importavam nada de passar mais um mês a beber urina de vaca só para tu tomares um banhinho, que é coisa que precisas mais do que eles precisam de pão para boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como saia de casa manhã cedo, quando a Pocahontas dormia e não tinha provas de que, efectivamente, a rapariga fugia do banho como o diabo da cruz, a coisa morreu por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a dúvida ficou. Até ao mês seguinte, quando somei dois mais dois. Ou antes, 2 euros e meio, mais 2 euros e meio. Que era o valor da nova factura da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebendo que a coisa não ia lá com água, decidi atenuar o meu sofrimento - meu e de todas as pessoas que se encontravam num raio de 2 quilómetros - recorrendo a uma substância mágica, que ao longo dos séculos tem ajudado os malcheirosos do mundo a integrarem-se na sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não estou a falar da lixívia - se bem que, vontadinha não me faltou. Eu estou mesmo a falar de perfume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitando a passagem de uma data importantíssima no calendário socialista, os saldos no El Corte Inglés...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não é bem isso! Vamos lá tentar outra vez que as minhas queridas amigas de esquerda já estão a olhar para mim com cara de quem me quer mandar para o Gulag... ou para o raio que me parta.&lt;br /&gt;Qualquer um deles serve para o efeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, aproveitando a passagem de mais um aniversário da revolução cubana, decidi presentear a minha Pocahontas com uma caixinha de perfume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é óbvio não podia ser do bom. Se não a moça era capaz de resmungar, que eu estava a alimentar os vícios capitalistas de meia dúzia de senhores, que exploram o protelariado e blá, blá, blá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprei-lhe mas foi um daqueles perfumes falsificados que os ciganos vendem na rua. Assim como assim sempre dava um ar étnico à coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que desta vez eu já não fui apanhado desprevenido. Daí eu não ter ficado com cara de parvo quando ela se virou para mim e desatou aos berros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perfume? Quê, estás a querer dizer que eu cheiro mal, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não amor, é só para te dar uma fragrância mais exótica - respondi eu, apesar da minha vontade ser dizer-lhe "que é para ver se deixas de cheirar a lulas podres".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mal dos meus pecados, a Catarina manteve-se fiel aos seus princípios:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas tu julgas que eu sou uma dessas vacas fascistas que estão habituadas a não mexer uma palha e depois, basta uma corridinha lá no ginásio pr'a ficarem todas suadas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò querida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò querida uma ova! Fica sabendo que eu não preciso dessas coisas para cheirar bem. Faço uma alimentação 100 por cento biológica, por isso o meu corpo não produz toxinas. Eu lavo-me por dentro, percebes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perceber eu até percebi. Mas a experiência - e duas noites mal dormidas - dizia-me que a lavagem interna não estava a dar grandes resultados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque, o que ela chamava de alimentação biológica eu entendia como sendo uma ETAR ambulante. Minhas meninas, só quem não passou a noite com uma vegetariana é que pode elogiar esse tipo de alimentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digamos apenas que a quantidade de gases produzida - e, pior que isso, emitida para a atmosfera - é suficiente para encher à vontade uns 5 ou 6 camiões cisterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em adiantado estado de desespero, procurei ajuda junto da melhor amiga dela lá no partido, que me disse, com a maior das latas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então eu não te avisei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ahn? - este "ahn" era um misto de incredulidade com um respirar fundo, coisa que só podia fazer bem longe da Catarina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, se ela tem aquele nome por alguma razão é!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que mal é que tem o nome? Pocahontas é uma índia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta revelou algo verdadeiramente aterrador. Pelos vistos não era só o meu olfacto que estava a funcionar mal. Dois meses de batucada no Djambé, espanta-espíritos a tilintar e CDs com a selecção musical do La-vai-lama começavam a fazer estragos nos meus tímpanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só assim se explicava eu ter ouvido Pocahontas quando, afinal, o nome de guerra da miúda era PORCAHONTAS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, ao que parece, a fama da miúda era como a do Constantino... vem de longe. Já dos tempos em que ela militava no PCP.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque, ao contrário do que a Catarina me tinha dito, a sua saída do Partido Comunista não fora causada por "divergências ideológicas". E muito menos por "violar os estatutos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A não ser que os tais estatutos incluíssem algum artigo que obrigasse os militantes a tomarem banho pelo menos uma vez por trimestre. Se assim for, a Porcahontas é "guilty as charged".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se passou realmente foi que os camaradas tinham-se fartado dos hábitos (pouco) higiénicos da miúda. Hábitos que, aliás, lhes tinham custado bem caro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque o mau cheiro tinha atraído todo o tipo de bicharias rastejantes e deslizantes. Ao ponto do bar da sede do partido ter sido encerrado pela ASAE, por falta das condições mínimas de higiene.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa esteve feia e até motivou uma reunião extraordinária do Comité Central do PCP. Que determinou a sua expulsão imediata, seguida de uma desinfestação de todo o quarteirão, onde se situava a sede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, um exemplo que eu teria de seguir em breve: saneá-la da minha vida. Isto se não queria sofrer uma quebra de popularidade, seguida de uma derrota eleitoral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo que o meu eleitorado eram as mulheres por quem me apaixonaria nos tempos mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, na política, ter um candidato corrupto pode contaminar todo o partido com o clima de suspeição, na vida afectiva uma namorada malcheirosa pode contaminar-nos com o seu inconfundível aroma a bicho morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí - lá está outra expressão que eu repito até à exaustão - decidi ter com ela aquela conversa que todos nós pagávamos para que alguém a tivesse por nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vocês sabem do que estou a falar. Os clássicos: "Ò amor, acho que devíamos dar um tempo... talvez fosse melhor vermos outras pessoas... desaparece da minha vida sua cabra". E assim sucessivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes dela chegar a casa respirei fundo, aproveitando a última lufada de ar fresco da noite e acendi uns pauzinhos de incenso. Só para criar ambiente, porque se fosse para disfarçar o cheiro não me havia de chegar um pauzinho do tamanho de um tronco de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá fiz eu o meu discurso de despedida, como o mesmo tom que usava se estivesse a ler o editorial do Avante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora a Porcahontas, ignorando o espírito democrático da velha&lt;br /&gt;Europa de Leste, reagiu à boa maneira Palestiniana: com duas pedras na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tás-me a dar com os pés, não é! Eu já sabia... por muito que queiras não consegues esconder esses vícios pequeno-burgueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vícios quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É das roupas não é! Às tantas querias que eu me vestisse como essas badalhocas do CêDêéSSe!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, eu admito que até possa ser um bocadinho fútil. Mas não é coisa que me agrade sair à rua de mão dada com o camisolão do Evo Morales.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camisolão é como quem diz. Que aquilo era mais um amontoado de borboto com um pedaço de camisola por baixo. Sim porque aquele ponto já não havia máquina tira-borbotos que lhe valesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só mesmo a mão treinada de um tosquiador profissional, daqueles habituados a tirar a lâ à mais indomável cabra montesa, podia fazer a camisola boliviana voltar ao estado normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aqui entre nós que ninguém nos ouve, ambos sabíamos que não tinha nada a ver com a indumentária, digamos, alternativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, o meu coração de manteiga - ou antes, margarina, que leite está caro - não me deixou dizer-lhe que só tinha aguentado dois meses e meio com ela graças aos meus dotes de mergulho em apneia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou vocês julgam que é fácil aguentar 10 minutos seguidos sem respirar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim sendo, não tive outro remédio se não fazer aquilo que qualquer bom líder partidário faz melhor que ninguém: mentir descaradamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens razão, bebé. Acho que confundi amor com uma crise ideológica. Mas o que queres? Que culpa tenho eu de ser um coração dissidente?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A expressão deve ter batido fundo lá no coraçãozinho da Catarina. De tal modo que uma lágrima rompeu no canto do olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda fiz o gesto para a limpar mas acabei por deixar a lágrima rolar rosto abaixo. Afinal sempre era alguma água que passava naquela pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, acariciei-lhe o cabelo sedoso - ou seria seboso?, sempre confundi os "Bs" com os "Ds" - pela última vez, aproveitando o movimento para afuguentar uma mosca varejeira que, entretanto, lhe pousara na testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que parti, sabendo que, de acordo com a boa tradição comunista, naquela casa seria sempre recebido de braços abertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que eu preferia que fosse de braços fechados. Sempre abafava o mau cheiro dos sovacos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:martimrosa@live.com.pt"&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-3849914770097622715?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/3849914770097622715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/3849914770097622715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/01/corao-dissidente.html' title='Coração Dissidente'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-401132719582952776</id><published>2008-01-07T17:16:00.000Z</published><updated>2008-04-07T16:34:08.559+01:00</updated><title type='text'>Âncora</title><content type='html'>Já repararam que a nossa vida é um bocadinho como a dos Super-Heróis?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, o Super-Homem corre mais que um comboio. Coisa que na minha terra é banal: até o meu tio-avô Idalino consegue andar mais depressa do que a velha automotora a diesel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro caso: o Batman usa calças de cabedal justinhas ao corpo. Há um gay na minha rua que usa umas iguaizinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda mais outro. O Homem-Aranha tem a roupa cheia de teias. Lá na minha freguesia, consta-se que, por falta de uso do seu conteúdo, a roupa interior de algumas beatas está cheiinha de teias de aranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, a indumentária dos Super-Heróis é um caso paradigmático de mau gosto. Aposto que, por debaixo daqueles fatos todos catitas, está um par daquelas horrendas peúgas brancas, com as tradicionais riscas vermelhas e azuis, mais ou menos à altura do tornozelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falta-lhes mulher em casa, é o que é! Sim, porque se o Super-Homem fosse casado, de certeza absoluta que a esposa não o deixava sair à rua com aquelas pavorosas cuecas vermelhas, que tão mal combinam com as não menos hediondas calças azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas, espera lá! Que mal tem usar cuecas vermelhas e calças azuis? Ninguém nota!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém nota, se elas forem usadas devidamente. Agora, se for como o Super-Homem, que faz questão de usar as cuecas por CIMA das calças, aí, princesa, é capaz de dar um bocadinho nas vistas. Não achas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, adiante…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa malta dos super-heróis que ponham olhinhos nos vilões! Esses sim, andam sempre impecavelmente vestidos, com os fatos engomadinhos e as cores todas a condizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porquê? Olha, porque arranjam miúdas giras e de bom gosto, em vez de andarem embeiçados por aquelas parvas que passam o tempo aos gritos e a caírem do 148.º andar de um arranha-céus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já devem ter reparado, eu, que me apaixono por tudo e por nada, não resisto a um bom filme de super-heróis. Mas o que me fascina em tudo aquilo, não são as proezas dos bonzinhos, que passam a vida a salvar o mundo de tudo o que é calamidade e desastre natural, sem nunca despentearem aquele cabelinho à seminarista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim o que realmente me deslumbra é a eterna rivalidade com os vilões. Muito me divirto eu com esses confrontos entre inimigos lendários: Super-Homem vs Lex Luthor; Batman vs Joker; Pai Natal vs Menino Jesus e por aí fora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, a esta altura vocês já deviam saber que a minha vida parece tirada de um filme. E, certas partes, até o são... mas isso é um segredo fica só entre nós, ok?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, tal como qualquer boa personagem de ficção que se preze, eu tenho um arqui-rival: o César... Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr... só de falar no nome dele desperta logo o pitt-bull assassino que há dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque dentro de mim há 2 cães: um pitt-bull assassino e um grand-danois, se bem que este último só o solte na parte das lambidelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, vamos mas é avançar com isto antes que a conversa tome um rumo pouco edificante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizia eu que o César - Grrrrrrrr - é o meu arqui-rival. Se bem o que há entre nós não é propriamente uma relação entre super-heróis e vilões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, ao fim de tantas mijadelas no Actimel do César e de tantos telefonemas anónimos para o meu emprego a dizer que eu tinha Sida, ambos perdemos a noção do Bem e do Mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que há entre nós é mais... deixa cá ver... ah, uma relação tipo Marc Darcy vs Daniel Cleaver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem são eles? Ò, valha-me Deus, minhas lindas. Então vocês nunca leram/viram o livro/filme "O Diário de Bridget Jones"???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele em que o Hugh Grant faz o papel de um cagãozinho que passa a vida a roubar as namoradas do bonzinho, interpretado pelo Colin Firth.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única diferença é que entre nós não há nenhuma Bridget Jones. O que é pena, porque só o tamanho daquele rabo dela dava para criar entre mim e o César um cordão de segurança maior do que o campo minado entre as duas Coreias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é. Como vêm, a minha existência é ensombrada por um Daniel Cleaver que, volta e meia, aparece para me fazer a vida negra. Ou será que o mauzão do Daniel sou eu e o César é que é o bonzinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, agora estou confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ao menos isto fosse uma novela da TVI, era tudo muito mais simples: o António Pedro Cerdeira era o mau e o Tozé Martinho o bom. E não era preciso estar cá com conversas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também, quem é o bom e quem é o mau pouco importa para o caso. O que é realmente importante é quem começou. E aí, minhas queridas, não há dúvidas: foi o César!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi ele quem abriu as hostilidades quando seduziu a namoradinha com quem troquei juras de amor eterno tinha eu pr’aí uns 17 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo bem as coisas, sou gajo para admitir que a minha vingança foi um nadinha desproporcionada: fui para a cama com a mãe dele... e com a avó... no mesmo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não ao mesmo tempo, porque a velhota tinha que ir rezar o terço às 5 e a filha só voltava do emprego meia hora depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim começou uma longa história de retaliações e contra-retaliações que já dura há uma boa década e meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo desse tempo fizemos de tudo um pouco. Só faltaram as cenas de pancadaria. Ainda tentamos, um dia depois de eu ter enviado "acidentalmente" para o e-mail da esposa do César uma foto em que aparecia o meu arqui-rival, a entrar para a Pensão do Esteves na companhia da Nelinha Cabeleireira, cliente do banco onde o César - Grrrrrrrrrr - trabalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que o rapaz tinha um bom álibi - aquela hora estava a jogar futebol de salão com os colegas - mas a mulher nunca engoliu muito bem a desculpa do:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ò querida, essa marca nos calções não é baton, é sangue do Firmino. Ele fez-me um carrinho e eu cai-lhe em cima da boca".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dias depois ele veio ter comigo e tentou dar-me uma sova das valentes. Mas ao fim de 10 minutos chegamos à conclusão que já tínhamos feito suficientes figuras tristes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para vocês terem uma pequena ideia, até as cenas de chapada entre o Hugh Grant e o Colin Firth tinham mais emoção que as nossas. Pelo menos no filme da Bridget Jones alguém acertava um soco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que eu contasse, a única chapada que alguém realmente conseguiu aplicar foi o César... a um sinal de trânsito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, tantos anos de ódio e tudo por causa de uma mulher cujo nome eu já esqueci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, por causa de um mulher, na minha versão dos factos. Porque o César Grrrrrrrr... auf, auf - esse tem outra data para o início das hostilidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 de Setembro de 1991. Dia de regresso às aulas, lá na secundária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e o César éramos ainda bons amigos. Ou por outra, éramos ainda dois gajos a fazer de conta que são amigos. Mas há muito que não íamos à bola um com o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque o César – Grrrrrrrr… bem, vou mas é parar que já me começa a doer a mandíbula – tinha o estranho hábito de, quando saíamos os dois para uma caçada, atacar sempre as miúdas giras e com pais ricos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando-me, invariavelmente, com as menos bonitas – já sabem como eu sou, para mim não há feias, há as bonitas e as que têm uma beleza oculta – com as levemente desequilibradas (do género passar a tarde a falar na colecção de livros da Anita) e com as menos favorecidas financeiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se havia coisa a que eu nunca dei valor foi ao saldo bancário das mulheres a quem tive o privilégio de amar. Só assim se compreende o facto de estar já dentro dos 30, não ter casa própria, conduzir um carro cobiçado por tudo o que é sucateiro e de só aguentar mais de meio ano no mesmo emprego quando meto baixa, adiando assim o despedimento por mais alguma semanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do César, cuja frase de engate preferida era "o que é que faz o teu pai"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, a ambição dele nunca foi encontrar a mulher da sua vida. Foi, sim, encontrar o sogro da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E encontrou-o, na figura do 'Sôr Faria', um próspero suinicultor lá da zona. Como eu sempre disse: só alguém habituado a lidar com porcos poderia simpatizar com o César... ok, só mais uma vez... Grrrrrrrrrrrrrrrrr!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, tudo isto para vos dizer que eu e o César estávamos naquela fase em que as palmadinhas nas costas já eram dadas de mão fechada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, tínhamos acabado de conhecer duas filhas de emigrantes, recém-chegadas de França, ainda com o cheiro a Torre Eiffel nos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já depois de ter feito o estudo prévio de viabilidade financeira para o namoro, o César tentou enrolar a francesinha com um paleio tirado de uma telenovela qualquer que dava na época:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes, às vezes sinto-me perdido. Com necessidade de ter alguma coisa a que me agarrar. Sinto que ando à deriva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começava a despontar um brilhozinho nos olhos da miúda. Por muito calejada que ela estivesse com as séries juvenis da Sophie Marceau, era difícil resistir a um bom melodrama de inspiração sul-americana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa altura que eu não aguentei mais e deixei cair a piadola:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tás à deriva, César? Eh pá, às tantas precisas de uma âncora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que o objectivo não era ter graça, mas sim desmontar a estratégia do adversário. Por isso não esperava grandes gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esperava eu, nem esperava o Sérgio, quando duas horas depois se preparava juntar mais um par de cuequinhas à sua colecção... era esta a forma original que ele arranjou para contabilizar as suas conquistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bleughhhhh&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que o quarto da miúda tinha uma decoração no mínimo hilariante - os Modern Talking são sempre um pretexto para umas belas gargalhadas - mas não foi por isso que o César recebeu uma risada estridente, logo após ter aberto a braguilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que foi? Nunca viste uns boxers com os coelhinhos da playboy? - perguntou o César, ainda sem saber o que o esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é isso... eu estou-me a rir mas é da tua pilinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pilinha não, que isto aqui é tamanho XisXisXiséLe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu quero lá saber do tamanho. A mim o que me faz rir é a forma... assim fininho e com a cabecinha triangular parece mesmo uma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, o resto já ela não foi capaz de dizer porque se desmanchou a rir que nem uma desalmada, abrindo assim uma ferida na auto-estima do rapaz… ou antes, uma fractura exposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que parece, quando mandei a boca da âncora descobri, acidentalmente, a criptonite que iria anular os poderes do herói de meia-tigela que era o César.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi tudo um golpe de sorte. Ou azar... a verdade é eu, que não ando pr'aí a olhar para os órgãos sexuais alheios, não podia saber que o meu amigo tinha um pénis precisamente em forma de âncora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para piorar ainda mais a coisa, consta-se que, depois da humilhação em casa da emigrante, o César levou uma data de meses até finalmente conseguir... como é que eu vou explicar isto... levantar novamente a âncora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mim a coisa tinha morrido por ali. Até porque eu nem sou de andar a falar das partes íntimas dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de o César continuar a jurar a pés juntos que fui eu quem lhe lançou a terrível fama que o acompanhou para o resto dos seus dias. E, por causa disso, me ter dado a alcunha que ainda hoje perdura, sabe-se lá porquê: o Língua de Chicote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única coisa que eu vos posso garantir é que, nessa altura, eu usava esta pobre linguinha para fins meramente lúdicos. A vertente difamatória só surgiu uns anos mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que não restem dúvidas, da minha boca ninguém soube de nada. Até porque ela estava demasiado ocupada a percorrer o corpo da irmã que me coubera em sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se houve alguma boca que se abriu foi a da amiguinha do César. Que na altura dava os primeiros - e únicos - passos de uma carreira de jornalista que terminou no trimestre seguinte, quando engravidou e foi recambiada lá para o Quartier Latin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como boa aprendiz de Felícia Cabrita, a rapariga correu a publicar a novidade no órgão oficial lá da escola: a parede de trás do pavilhão vagimno-desportivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim, entre um e outro cigarro, fumado à pressa - não fosse aparecer o contínuo Sr. Venâncio - que todos ficamos a conhecer, em letras garrafais, a notícia do ano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O Cèsar é un pila d'âncora"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi também assim - na versão do César - que nasceu um ódio mortal que há-de durar até ao dia em que um de nós for enterrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, aquele de nós que sobreviver vai lá estar, na primeira fila. Não para se certificar que o outro realmente morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas para, depois de toda a gente ir embora, despejar uma bela mijinha para cima do defunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que nem me importava nada de estar eu dentro do caixão. Só para ter o prazer de abrir a tampa e gritar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com uma âncora desse tamanho e continuas à deriva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:martimrosa@live.com.pt"&gt;martimrosa@live.com.pt&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-401132719582952776?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/401132719582952776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/401132719582952776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2008/01/ncora.html' title='Âncora'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-1008808272121405383</id><published>2007-12-23T16:08:00.003Z</published><updated>2008-01-03T10:26:52.639Z</updated><title type='text'>Bom Chérie</title><content type='html'>Natal é tempo de paz e amor. Ou pelo menos era, até eu ter conhecido a família da Marta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, eu devia ter percebido que algo estava errado, quando olhei para o presépio e vi lá um Action Man no lugar do S. José. E que um dos Reis Magos estava montado num galo de Barcelos, e não no tradicional camelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que aos olhos de um apaixonado a liberdade criativa encaixa melhor do que a expressão "família disfuncional".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disfuncional é como quem diz. Porque esta gente apresentava níveis de desfuncionalidade que reduziriam a Família Adams à condição de típica família da classe média.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, a cinturinha de vespa da minha namoradinha da época era bem mais estimulante que o comportamento psicótico do pai Acácio ou da tia Olímpia. Vai daí, sem perceber muito bem como, dei por mim pendurado na varanda de um segundo andar, às 2 da manhã de uma véspera de Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, afinal, como é que eu lá fui parar? Perguntam as minhas queridas leitoras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a uma infeliz conjugação de factores, respondo eu, sem disfarçar a irritação por tanta curiosidade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.º Estava a trabalhar longe de casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.º Tinha acabado de conhecer a mulher da minha vida... ou, pelo menos, uma das 547987356474 mulheres da minha vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.º Fiquei, inesperadamente, sem dinheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo que o inesperadamente deve aqui ser entendido por "o parvo que ficou para trás, no jantar de Natal da empresa, à espera que trouxessem a conta".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque, como é normal na minha vida profissional, eu não trabalhava para uma empresa próspera e com grande implantação nos mercados mundiais. Antes pelo contrário, os meus empregadores eram um bando de tesos, cujo único objectivo era aguentar mais um mês sem ir à falência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, o patrão, Senhor Antunes, também conhecido como "aquele caloteiro do caralh...", decidiu organizar um jantar de Natal recorrendo à velha técnica do "Agora pisguem-se antes que os empregados chamem a bófia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que, no lugar onde 10 segundos antes estavam os 14 colegas de trabalho, apareceu uma factura de 487 euros. Do mal o menos, tive direito a levar para casa os despojos de guerra. Que é como quem diz, um perfume de mulher e uma caixa de Ferrero Rochet - da tradicional troca de prendas - que os coleguinhas tinham abandonado na fuga desenfreada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dinheiro para comer, quanto mais para gasolina e portagens, lá me vi eu forçado a passar a noite da consoada em casa, a trincar uma mísera pizza ultra-congelada da Buitoni e a ver um especial de Natal, na TVI, que de especial só tinha a decoração, à volta de meia dúzia de parvos fechados numa casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou pelo menos era isso que eu pensava. Até que, a meio de um telefonema de Boas Festas, ouvi as mais doces palavras que alguma vez a Marta me disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual casa, qual quê? Vens mas é jantar connosco que gente tem cá um bacalhau daqueles grossos. É cada posta que nem cabe na boca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente a fome nunca foi grande conselheira. Por isso, agi como um esfomeadinho do Zimbabwe que vai a correr a votar no Mugabe só porque ele lhe acena com um saco de arroz à frente do nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá fui eu, a grande velocidade, em direcção à casa da Marta. Ou por outra, a grande velocidade até apanhar à minha frente uma lesma dum "Mata-Velhos" que não atava nem desatava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosga-se! Como era possível um carro que não ocupa meia faixa, estar ali a açambarcar três quartos de estrada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era um monte de fibra de vidro com pneus de triciclo que se ia interpôr entre mim e a bela posta norueguesa que me esperava, duas ruas mais acima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o meu primo Marcelo, que é cego de um olho, consegue fazer daquelas ultrapassagens à tangente, eu, que só fiz de vesgo para não ir à tropa, também hei-de conseguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E consegui. Ou antes, quase conseguia, não fosse o raio do espelho acertar de raspão no cotovelo do condutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mal o menos, apesar de ter capotado, o homem saiu do carro a esbracejar, o que queria dizer que pelo menos não perdera a mobilidade dos membros superiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda mal refeito do susto - o espelho do AX era coisa para custar uns 5 euros -, cheguei a casa da Marta ainda a tempo de a apanhar em pantufas e avental. Mas confesso que a imagem dantesca se esvaneceu quando lhe senti aroma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hummmm... mesmo que entornasse por cima dela a embalagem de "Amour Amour" que lhe trazia de presente, dificilmente a Marta largaria aquele cheiro intenso a fritos, afincadamente conseguido após duas horas na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando trocamos aquele beijo, seguido de um abraço forte tive a sensação que me estava a agarrar a uma travessa de pataniscas de bacalhau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal tive tempo para saborear aquele raro momento em que a fome ultrapassara a líbido com a mesma destreza com que eu ultrapassara a carroça do velhote, minutos antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque entrou em casa, aos urros, o Sr. Acácio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assassinos! Iam-me estragando o Natal, estes filhos da p...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que foi paizinho? - perguntou a Marta, ainda comigo agarrado aos seus cabelos, extasiado com aquela mistura de filhós com petinga frita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, os truques que a miúda sabia! Foi de mestre essa ideia de usar o mesmo óleo em que fritara o peixe, ao almoço, para confeccionar os tradicionais doces natalícios. Um sabor exótico que não lembrava nem ao Jamie Oliver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um cabrão fez-me uma tangente ali atrás que se eu não me desvio a esta hora estava morto... coitado do meu Piaggio, ficou de perninhas pr'ó ar, ali de frente do Café Hilário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E viste ao menos a matrícula?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ver? Melhor que isso! Arranquei-a. O desgraçado teve a lata de estacionar mesmo aqui à porta. Ainda por cima no meu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, a esta altura já estava eu a suar em bica, mais branco do que a lasca de bacalhau que eu tomara a liberdade de ir metendo à boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah mas eu apanho-o. Nem que tenha de passar a noite acordado, eu juro que o apanho. Quando ele sair vai levar tantas... - ninguém diria que levara com um carro no cotovelo, tal a força com que o homem arrancou a travessa das mãos da mulher e a levou para a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò, deixa lá isso. Às tantas é de alguém conhecido - a esposa tentava pôr paninhos quentes. No marido e na mesa, depois da Tia Olímpia ter entornado o azeite, com a ganância de chegar à posta mais grossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E depois? Nem que seja o Pai Natal... vai levar duas bordoadas, que é para ele aprender a não se meter com as pessoas que vão na estrada, no seu cantinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um momento para o outro, a fome deu lugar ao desespero! Com um salto voei até à mesa do hall de entrada onde tinha deixado ficar a chave do carro. Antes que o sr. Acácio reparasse no símbolo da Citroen agarrei no molho de chaves meti-os no único sítio onde o diabo do homem jamais iria vasculhar: no bolso dos boxers.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bolso de quê? - perguntam as minhas amigas já alagadinhas de riso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, isso é uma história muito longa... mas já que insistem, vou tentar contá-la em dois parágrafos: farta de me ouvir reclamar, porque me gamavam trocos lá no ginásio onde eu ia exercitar as artoses, a mulher a dias da época - D. Filomena, se não estou em erro - lembrou-se de me coser uns bolsinhos nos boxers.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como na primeira tentativa fiquei com as moedas encharcadas e com aquele cheiro característico a virilha transpirada, a maravilhosa invenção revelara-se absolutamente inútil. Até aquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um carrinho tão jeitoso, económico. E espaçoso que era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito… principalmente para uma família de contorcionistas. Ora, como não estou a ver a velha caquética a dobrar-se em quatro, como um carrinho de bebé e arrumar-se na mala, sempre quero saber onde é que o cromo mete as 4 pessoas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos vistos, mete-os no novo modelo familiar. Sendo que o conceito de familiar é... enfim, vejam vocês mesmas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lá com esta porcaria toda agora vou ter de mudar de carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quê? Vais comprar o tal Passat que vimos no stand do meu primo? Ainda bem, porque com este, sempre vamos às compras tens de fazer 3 viagens. Para cada lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual Passat, qual quê? E depois, estaciono onde? Na paragem das camionetas? Eu vou mas é comprar um Smart!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazes bem - pensei eu baixinho - se com o "Mata-velhos" não te chegam as duas faixas, com o Passat precisavas de, pelo menos, mais duas bermas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o raio da conversa não saia andava nem desandava e eu estava a ver que ainda ia sobrar para mim - tipo "já agora, que carro é que você tem" -, decidi arriscar uma brusca viragem no rumo da conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, acabaria por ser uma viragem de 360 graus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso esquecer de entregar o presente à D. Olímpia. É uma caixa de Ferrero Rocher... daqueles do reclame do Ambrósio, que dá na televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperava eu, com isso, adoçar o bico à tia predilecta. Só que, pelos vistos, só seria a predilecta de alguém, no dia em que esse alguém lhe fechasse a tampa do caixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, a única coisa que impedia a Tia Olímpia de passar a véspera de Natal no Lar eram 6 mil euros em Certificados de Aforro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6 mil euros eram 6 mil euros. E mais valia fazer de criada da velha resmungona, do que ver o raio das Carmelitas Descalças estoirarem a massa em sandálias, bíblias, terços e cartões do bingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu disse fazer de criada. Porque a última mania da velha era cruzar os bracinhos e dar uma de Menino Jesus: ou seja, ficar a noite inteira sem mexer uma palha.&lt;br /&gt;Tudo porque há dois natais queimara as sobrancelhas enquanto fritava as rabanadas e, para sua grande pena, desde aí tinha que pintar o sobrolho todas as manhãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, pró ano compro-lhe uma daquelas canetas de tinta permanente. Arranja o sobrolho e a Marta aproveita para escrever o nome das músicas nos CD’s pirateados – era isto que eu devia ter dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não. Feito parvo comecei com a conversa dos Ferrero Rocher.&lt;br /&gt;Ora, para meu grande infortúnio, a velha tinha tanto de feia como de ingrata. Daí ninguém se ter surpreendido quando ela me olhou de canto de olho e disse, com desprezo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não gosto desses. As nozes ficam-me presas nos dentes e as que passam lá para dentro, ao outro dia saem-me inteiras nas fezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engoli em seco. Não só pela rispidez da Tia Olímpia, mas também porque o pouco azeite que havia entornara-se todo e que remédio tinha eu senão comer as batatas sem molho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu cá só gosto dos outros. Os Bom Chérie!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prudência aconselhava-me a ficar calado. Mas a verdade – e há sempre uma boa dose de verdade, nestas mentiras que vos conto – é que eu tinha sede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não era só por causa das batatas estarem uma pilha de sal. Eu tinha era sede de vingança. Ingénuo, achava que ia consegui-la ao corrigir a Tia Olímpia. E foi assim que me saíram da boca sete palavrinhas, das quais eu me havia de arrepender. Amargamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é Bom Chérie que se diz. É Mon Chérie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tivesse a velha os marcadores à mão e teria certamente mudado a expressão do sobrolho para a modalidade “furiosa”, antes de gritar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que mania de me contradizerem! Ainda tu não eras nascido, meu fedelho, e já eu comia Bom Cherries...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os segundos de silêncio que se seguiram fizeram-me crer que a coisa tinha ficado por ali. Mas a pausa ficou a dever-se a problemas técnicos: uma espinha atravessada na garganta da Tia Olímpia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvido o problema, com duas goladas de tinto, a velha voltou à carga:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O meu Euclides, que Deus tenha, quando vinha de França, passar cá o Natal, trazia-me sempre uma caixa. Das grandes. E quando eu comia os bonbons ele dizia-me sempre "É bom, chérie, não é?"!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma pausa para tirar medidas à grossura da próxima posta a ser devorada. E, lá voltou o choradinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai o Euclides. Sempre me tratou como uma princesa... eu havia de ter uma bela vida, sem precisar de estar às obediências de ninguém, se ele não tivesse morrido lá no campo de concentração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Campo de concentração era maneira simpática que o Euclides arranjou para chamar à cubata em que viveu os últimos anos da sua vida com duas "cabritas", algures no arquipélago de Mijagós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só mesmo a Tia Olímpia para acreditar que o marido, tinha abandonado um bom emprego nas "usines" da Renault, para ir servir a pátria na Guerra Colonial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante anos a senhora lutou para ter direito a uma pensão, mas ninguém lhe conseguia explicar-lhe que o Euclides rumara à Guiné-Bissau porque dera a banhada a um carregamento de pára-choques lá da fábrica. E, na mesma semana, fizera um desfalque nos cofres da Associação Recreativa da Comunidade Portuguesa em Lyon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De papo cheio, era normal que a velhota tivesse sono. Mas, para não dar parte de fraca, aproveitou a deixa para armar em desgraçadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, esta conversa está mais amarga que os grelos que o Acácio trouxe. Vou-me deitar que já estou incomodada que chegue!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ver a vida a andar para trás, o Sr. Acácio olhou-me com um ar ameaçador, tipo "Eh pá, se me lixas os certificados de aforro passo-te com o Piaggio por cima do dedo mindinho do pé".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um olhar que perdurou ao longo do resto da noite. E suponho que tenha continuado para além disso, porque ao fim de duas horas naquela posição, era difícil que os músculos da cara voltassem ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparava-me para sair, cabisbaixo, quando a Marta me puxou para um canto e sussurrou ao ouvido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então queres ir embora antes de começar a noite da consolada? Vá, toma a chave, espera nas escadas e daqui a 10 minutos anda ter ao meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, eu sempre ouvi dizer que o Pai Natal só traz presentes aos meninos obedientes. E como não queria ficar a seco, olha, que remédio teria eu senão obedecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados os 10 minutos da praxe, voltei a entrar em casa e lá fui eu, pé ante pé, corredor fora. Pelo caminho, não resisti a pegar na roupa de Pai Natal, pendurada no cabide.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora colocava-se um pequeno pormenor. Coisa insignificante. A Marta esquecera-se de me dizer qual era o quarto dela... e eu, com a gula, esqueci-me de perguntar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, teria que o descobrir por exclusão de partes: na porta número 1 estava o Sr. Acácio, ainda resmungar, que ia fazer a folha ao gajo do AX, que fazia e acontecia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na porta número 2, estava uma moto-serra Husqvarna a trabalhar à força toda. E, pela quantidade de bacalhau que a Tia Olímpia tinha engolido, só podia ser ela a ressonar assim, a plenos pulmões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, não havia nada que saber. O meu presentinho de Natal estava ali, na porta número 3, onde havia o mais absoluto silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no quarto, sorrateiramente, deitei-me ao lado da princesa que repousava debaixo de 3 quilos de lençóis de flanela. Beijei-a suavemente nos lábios e murmurei ao ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ho, ho, ho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, em vez do "Ò querido, dá-me lá o meu presentinho" o que ouvi foi mais aterrador do que encontrar os três fantasmas de Natal, ao mesmo tempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Euclides, filho, voltaste!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, confesso que a minha primeira reacção foi tentar sair do quarto e ir a correr lavar a boca com betadine. Mas controlei-me. Passar o resto da noite de natal na esquadra da PSP não fazia parte dos meus planos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, engoli a golfada de vómito que me veio à boca e fiz das tripas coração para lhe responder:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, chérie, sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai meu amorzinho, vá, possui-me como me possuíste naquela última noite, antes de embarcares para o Ultramar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se passou a seguir não me enche de orgulho. Pelo contrário, cobre-me de vergonha. Uma humilhação, até para alguém como eu, que semanalmente vos diverte com as mais humilhantes situações que vivi até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, como dizem os americanos: "What Happens In Vegas Stays In Vegas"... e mais não digo. Não digo eu, mas disse a Tia Olímpia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É bom, chérie, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, Mon Chérie, é... - respondi eu, assinando assim a minha sentença de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mon Chérie!? Mas tu não és o Euclides...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grito que se seguiu acordou toda a vizinhança. Aterrorizado, corri para a porta, mas dei de caras com o Sr. Acácio, armado com a catana que, alegadamente, o Tio Euclides enviara à viúva antes de embarcar na missão suicida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encurralado, vi na janela a minha última saída. Empoleirei-me no varandim e tentei saltar para a varanda da vizinha, mas uma dentada da velha, em cheio no tornozelo, desequilibrou-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, foi assim que me vi pendurado da janela da vizinha. Com o Sr. Acácio a tentar cortar-me às postas e a vizinha, entretanto acordada, a acertar-me vassouradas em cheio na mona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste fim o meu, assim numa noite de Natal, espancado pela vizinhança e esparramado no passeio, após uma queda-livre de três andares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu tão ocupado a ter pena de mim mesmo que nem me apercebi que chamavam por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pst, Pai Natal, aqui..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pai Natal eu? Queres ver que o puto cheira cola já com esta idade? Ah pois, com esta confusão toda nem me lembrava que estava vestido de Pai Natal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenha calma, nós vamos ajudá-lo! - gritou um menino loirinho, empoleirado da varanda de cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens a certeza que é mesmo ele? - perguntou o irmão mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro, não vês os dentes da rena, espetados no tornozelo? Até têm restos de nozes e tudo - respondeu o loirinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas então e onde é que está o trenó? – com tanta pergunta, o mais velho arriscava-se a levar uma bela chapada na cara. Não tivesse eu as mãos ocupadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sei lá! Deve estar na rua de cima. Às tantas o Pai Natal é como o Sr. Acácio, do 2.ª esquerdo... um nabo do caraças a estacionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indignados por ver o seu amiguinho tão maltratado pelos adultos, os manos decidiram salvar o velhote que nesse ano até tinha sido generoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tivessem eles recebido uma Playstation e, provavelmente teria eu morrido ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá, segure-se à corda - berrou o loirinho, enquanto me atirava uma daquelas mangueiras cheias de luzinhas de Natal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daquelas com que o pessoal normalmente cobre as fachadas das casas, ao ponto de serem confundidas com os neons dos bares de alterne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, num piscar de olhos o Pai Natal transforma-se em Tarzan e lá fui eu a voar, prédio abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando corria em direcção ao carro que dei graças à invenção da D. Filomena. Meti a mão aos boxers - para me certificar que não deixara nada esquecido na cama da velha - e descobri as chaves do AX ali, guardadinhas no bolso da minha roupa interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, D. Filomena, tenho que me lembrar de lhe dar uma prenda. Vou ver se lhe arranjo uma caixa de Mon Chéries... ou será Bom Chéries?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-1008808272121405383?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/1008808272121405383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/1008808272121405383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/bom-chrie.html' title='Bom Chérie'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-6077831712124518520</id><published>2007-12-23T16:08:00.001Z</published><updated>2007-12-23T16:08:16.998Z</updated><title type='text'>Estrelas</title><content type='html'>Tenho uma pequena tradição que repito religiosamente todos os anos por esta altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visto-me de Pai Natal e vou a casa da minha amiga que melhor se portou ao longo do ano e entrego-lhe um belo presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que em vez de ir dentro do saco, levo-o dentro da roupa interior. Ah, e há outra diferença: em vez de gritar "Ho, ho, ho" eu grito "Oh, oh, oh... ai que bom, querida".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera lá, acho que não era desta tradição que eu vos queria falar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois não, eu queria era falar-vos de um outro ritual que é levar a miudagem ao circo, uma semanita antes do Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai... aquele brilhozinho nos olhos das crianças enche-me de felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O brilhozinho nos olhos deles e o nos meus, quando olho para o rabiosque roliço das trapezistas ou para as belas mamocas da assistente do ilusionista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, com tanta mulher boazuda à volta dele nem sei como é que o David Copperfield foi virar gay... ai não sabiam? Eh pá, então cala-te boca que eu cá não vos contei nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, minhas lindas. Foi numa dessas idas ao circo que eu, que me apaixono por tudo e por nada, me perdi de amores por uma deslumbrante artista circense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual? Perguntam as minhas meninas, já a roerem-se de curiosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A deusa do trapézio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual quê? Então não sabem que eu morro de vertigens? Uma vez subi às cavalitas da basquetebolista Picha Tenicheiro... quero dizer, Ticha Penicheiro, e ia tendo um ataque de pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então foi a domadora de leões?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, não digo que não me tivesse passado pela cabeça. Eu sempre me derreti por uma mulher de chicote... mas sou alérgico a gatos e como os leões ainda são primos em terceiro grau, as únicas felinas com quem troquei fluídos foram as nativas do signo Leão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò diabo, não me digas que foi a mulher barbuda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosga-se que vocês não gostam mesmo de mim! É certo que o meu sex-appeal está um bocadito fora do prazo e até já chumbou a inspecção dos 150 mil quilómetros, mas eu com essa senhora a única coisa que gostava de partilhar eram as gilletes. E a rebarbadeira, para aquela parte do buço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então diz lá quem é! Não nos deixes aqui nesta ansiedade!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto, eu digo. A artista com quem eu vivi um tórrido romance foi a Florbela, que me seduziu com aquele olhar doce e uns lindos cabelos negros, aos caracóis, que lhe cobriam o corpinho até aos tornozelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não é difícil, tendo em conta que a Florbela era a principal atracção do número dos anões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, já sei que era uma relação condenada, logo à nascença, por causa da diferença de alturas. Mas não consegui evitar apaixonar-me por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi amor à primeira vista. Ou antes, ao primeiro impacto!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas garrafas de vinho ao almoço - e consequente erro de cálculo - foram o suficiente para que o shôr Ramirez, artilheiro de serviço, fizesse a Florbela sair disparada do canhão em direcção às bancadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais concretamente, em direcção ao lugar onde eu estava sentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, a aterragem forçada foi amparada pelo algodão doce dos meus putos. E pela farta carapinha do Jeremias Catana, a quem eu pagara os trabalhos de pintura lá na minha marquise com bilhetes para o circo, nos lugares da frente. Para ele e respectiva família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O negócio acabou por trazer-me um prejuízo valente. Não é que as entradas fossem caras. Só não imaginei é que o raio do homem tivesse 15 filhos. E 8 netos. A sorte é que dois deles estavam presos, o que acabou por minimizar as perdas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, o que interessa para o caso é que, de um momento para o outro, vi-me com uma bala humana no meu colo. Ainda a tresandar a pólvora seca, a miúda desfez-se em desculpas. E pediu-me para apontar o número de apólice, que o seguro dela pagava tudo e mais alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que eu estava mais interessado em saber o número de telefone dela, do que na apólice. E, claro, não perdi a oportunidade de tentar a minha sorte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esqueça o seguro e aceite lá o meu convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Convite para quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para irmos ali tomar um Coffe, Anã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É óbvio que a coisa tinha muito mais graça na altura, porque ainda era Secretário Geral da ONU o ganês Koffi Anan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para meu espanto, a Florbela até nem levou a mal a piadola parva. Mas também, convenhamos, ser disparado de um canhão é coisa para causar danos irreparáveis nos tímpanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que eu não me admirasse nada que ela não percebesse metade daquilo que eu falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas entendia o suficiente para saber que a viagem que começara no cano do canhão, não ia acabar à mesa do café. O destino era outra peça de mobiliário: a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha, obviamente. Ou vocês acham que um marmanjo de um metro e oitenta alguma vez conseguia caber num colchão de criança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nasceu o dia, acordamos os dois de um sono profundo. E acordamos para a dura realidade: a botija estava sem gás e tínhamos de tomar banho de água fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, e acordamos para uma outra realidade: que o ser humano não tolera a diferença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, não tardou muito até começarmos a ouvir as primeiras bocas: "Tem cuidado não vá a gaja tropeçar nos cordões do Tampax" ou "Eh pá, lavaste a miúda na máquina e ela encolheu, é?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior ainda, houve quem me denunciasse às autoridades, acusando-me de pedofilia, depois de me ver aos beijos com uma criança, num banco de jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mal entendido acabou por ser desfeito na esquadra mais próxima. Desfez-se o mal entendido e desfizeram-se os polícias de tanto rir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora não se esqueça que, abaixo do metro e cinquenta, tem de transportar o passageiro numa cadeirinha própria para crianças - disse o agente, pouco antes de se atirar para o chão e rebolar a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rir ou a chorar, porque na queda a arma disparou-se e o tiro arrancou-lhe um dedo do pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem tudo era mau. Por exemplo, comprar presentes tinha as suas vantagens. Podia oferecer-lhe uma peça de roupa todas as semanas, sem que isso implicasse abdicar de almoço e lanche até ao fim do mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a vantagem de fazer compras nas lojas da Cenoura e da Petit Patapon, em vez de ir deixar três quartos de salário no El Corte Inglés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo acontecia com as jóias. Se antes precisava de pôr no prego o livrete do AX cada vez quisesse comprar um anelzito razoável. Agora, com a redução do tamanho dos dedos, podia oferecer-lhe à vontade artigos de ourivesaria de marca. Se bem que estivesse limitado a meia dúzia delas, tipo Agatha Ruiz de La Prada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que havia cuidados que se deviam tomar. No sexo, por exemplo, as posições em que eu ficava por cima foram completamente abolidas, devido ao risco de esmagamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o ritmo tinha que ser mais moderado. Uma estocada mais forte poderia fazer a Florbela voar janela fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, apesar de tantas contrariedades, a pouco e pouco o nosso amor ia vencendo o preconceito e a sociedade começava a aceitar-nos. Só havia uma excepção: os colegas da Florbela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para eles eu fui sempre uma espécie de Gulliver a invadir o seu pequeno mundo. E minha pequenina levava por tabela. Entre os outros anões éramos conhecidos precisamente por Gulliver e a sua Liliputa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tal a rejeição que, no final do ano, quando o Circo se preparava para rumar a outras paragens, tentei convencê-la a deixar aquela vida e vir morar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que não há muita coisa que um anão possa fazer cá fora. Na época, quando muito, podia chegar a líder do PSD, mas o cargo já estava ocupado pelo Marques Mendes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda assim, depois de meia dúzia de telefonemas e de uma noite de sexo à bruta com a produtora, consegui arranjar trabalho à Florbela como duplo na série televisiva "O clube das chaves".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser mordida por um pitt-bull ou espancada com um taco de baseball, não se comparava às emoções fortes de ser disparada de um canhão ou usada como bola no número das focas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso a Florbela vacilou. Foi aconselhar-se com a Pepita, domadora de cobras e esta mandou-a ouvir a voz do coração... enfim, ao fim de uns anitos os veneno dos répteis acumulado no sangue começa a afectar o sistema nervoso central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, como se não bastasse, um dia quando a fui levar à roulotte, os amiguinhos fizeram-me uma espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com que então o gigantone quer-nos roubar a vedeta - rosnou o chefe do gangue, o Robertão, dois segundos antes de se atirar a mim, juntamente com os outros 10.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia percebi uma coisa: ser espancado por um grupo de anões é mais ou menos a mesma coisa que ser atacado por um Pinsher. Fazem um alarido dos diabos, mas no fim, vai-se a ver, não temos mais do que um arranhão e a bainha das calças descosida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sova - se é que se pode chamar sova aquilo - teve ao menos a vantagem de levar a Florbela a tomar uma decisão radical. Ia deixar o circo e ser feliz ao meu lado... ou antes, ao lado dos meus tornozelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas antes quero fazer uma última actuação. A minha despedida do circo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim foi. Na noite seguinte os cartazes anunciavam como grande atracção o último voo da "Florbela, a bala humana".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orgulhoso da minha namorada, fiz questão de um ir despedir dela com um beijo daqueles incandescentes. Coisa arriscada, sobretudo quando se está junto de tanta matéria explosiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, ajudei-a a entrar no canhão e ainda a vi lançar um sorriso lindo e dizer "Eu volto já, mor".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltas, voltas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, o objectivo era esse. Mas o malvado do Robertão tinha outros planos. Inconformado com a perda da artista que devolvera a glória aos anões, decidiu estragar a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez da habitual dose de pólvora, carregou a máquina com uma quantidade 5 vezes maior. Ou seja, o suficiente para disparar a Florbela direitinha até à lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamentavelmente, só me apercebi disso tarde demais. Quando olhei para o sacana do anão, segundos antes de apertar o botão, já só o ouvi dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se não és nossa, não és de mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se fosse num daqueles filmes do Jackie Chang, ainda tinha dado tempo para eu saltar e, no último segundo, enfiar um biqueiro na boca do Robertão, salvando a minha amada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na vida real não há essa coisa da câmara lenta… ou por outra, há, mas só do lado de dentro do balcão das Finanças. Por isso quando olhei para cima já só vi a Florbela a voar a grande velocidade, rasgar o pano da tenda e a desaparecer pela noite escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a última vez que ela foi vista à face da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os radares da Força Aérea ainda lhe acompanharam o rasto durante uns minutos, mas depois perderam-na. Perderam-na eles e perdi-a eu. Para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem diga que ela se desintegrou na atmosfera. Outros juram a pés juntos que a viram cair no mar. Mas para mim, a Florbela tornou-se naquilo que sempre foi. Uma estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, antes, tinha de ir ao circo para a ver rasgar o céu. Hoje basta-me ir à janela para a ver cruzar os céus, qual estrela cadente a iluminar a escuridão em que se transformou a minha vida, desde aquele dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espera lá, então e o final feliz? Não há?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Népias. Fui à loja comprar um mas estão esgotados…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o anão malvado, não teve castigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa pouca. Cinco anos de cadeia, mas só cumpriu metade da pena… não que ele tenha saído por bom comportamento, mas os primeiros dois anos e meio passou-os no Hospital, a recuperar dos graves ferimentos sofridos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, o tiro de canhão teve semelhante impacto que projectou o Robertão direitinho para dentro da jaula dos leões. E ao ver um humano daquele tamanho, os pobres bichos convenceram-se que lhes estavam a oferecer um aperitivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, se me dão licença, tenho de ir dar um presentinho a uma amiguinha que fez muito boas acções durante o ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, esta cabeça… onde é que eu arrumei aqueles boxers em forma de saco de presentes do Pai Natal?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-6077831712124518520?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/6077831712124518520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/6077831712124518520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/estrelas.html' title='Estrelas'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-8593933506413537674</id><published>2007-12-23T16:07:00.001Z</published><updated>2007-12-23T16:07:50.032Z</updated><title type='text'>Vizinhos</title><content type='html'>Há dois sítios onde nunca encontro aquilo que quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um é nas prateleiras do Mini-Preço. E o outro é dentro da mala das mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente bem que as abre com cuidadinho, à procura da chave de casa, mas sai-nos lá de dentro tudo menos o que interessa: caixas de Trifene 200, pouchettes de maquilhagem, embalagens de pensos higiénicos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tanta a tralha que lá encontramos que, a dada altura, pensamos que é o saco do Sport Billy e vamos tirar lá de dentro aviões, carros ou aquela prima gorda que mal cabe dentro de um smart.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sério, acho que as mulheres quando arrumam as coisas dentro da mala usam a mesma técnica que os egípcios aplicavam a construir as pirâmides: o labirinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que há diferenças. Há 2 ou 3 mil anos atrás armadilhavam as pirâmides que era para evitar que profanadores de campas e aprendizes de Indiana Jones fossem lá dentro sugar o Tutano ao Kamone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias de hoje, as miúdas transformam as suas Cavalinho ou réplicas de Louis Vuitton em pequenos labirintos que é para nos testar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se me amas verdadeiramente, o teu coração guiar-te-á por entre esse vale das trevas que é o interior do meu saco”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é quando se deparam com alguém como eu que além de se apaixonar, tem dias em que também perde a paciência por tudo e por nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, a solução mais simples para encontrar a porra da chave é virar o saco do avesso e espalhar tudo no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que aí, minhas lindas, entramos num verdadeiro campo minado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde um movimento mal calculado pode marcar a diferença entre o romantismo de sair de casa às 8 da manhã de domingo para ir à padaria buscar os croissants quentinhos de que ela tanto gosta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e o baixo nível de ser apanhado a remexer nas coisas dela, espalhadas pelo chão da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que é isto?! Eu abro-te a porta de minha casa e tu o que é que fazes???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò mor, eu posso explicar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que podes explicar. Explicar que és um agarradinho e assim que me apanhas a dormir esvazias-me o saco à procura de dinheiro pr'á droga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rua, antes que eu chamo a polícia!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, de um momento para o outro o D. Juan transforma-se em Al Capone. Ou, pior, em Manel Mocas, o drogado de serviço e arrumador oficial cá do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas enquanto as coisas se ficarem entre quatro paredes, é possível controlar os estragos. O pior é quando as coisas passam para lá da porta do apartamento e chegam aos ouvidos da vizinhança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse caso, de pouco nos adianta ter passado os últimos 2 meses carregar com as compras da vizinha de cima, que mais parece que mistura bolas de chumbo entre os "3 quilinhos de pêra-rocha que compra pr'ó lanche dos netinhos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou as hérnias que ganhei a ajudar nas mudanças do Shô Rafael. Coleccionador de móveis em madeira maciça - alguém o avise que há uma coisa nova chamada IKEA, com móveis levezinhos e fáceis de desmontar -, que de 15 em 15 dias lembra-se que não gosta dos vizinhos de cima e lá vai ele alugar outro apartamento. De preferência no 5.º ou 6.º piso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou mesmo das milhentas vezes que emprestei a garagem à Dona Umbelina, do 4.º F para guardar lá o carro da filha universitária, expondo o pobre AX a todo o tipo de actos de vandalismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que aqui o vandalismo é o nome giro que eu arranjei para descrever os riscos e mossas que a legião de ex-namoradas habitualmente fazia no carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada disso importa. Principalmente quando o vizinho do 6.º B se mudou depois de ser apanhado a arrombar as caixas do correio para roubar a reforma às velhas e não há mais ninguém há mão a quem lançar a tradicional dose de má-língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que me vi forçado a deixar aquele apartamento onde vivi momentos tão felizes. Como o dia em que me enganei no andar e tentei abrir a porta da vizinha do 2.º D... que, por sua vez, se fez de distraída e me mandou entrar, porque supostamente me confundiu com o amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai, belos tempos que em breve não seriam mais do que uma vaga recordação. E tudo por causa da porcaria dos croissants.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se em vez de croissants, lhe tivesses apresentado aquelas fatias de pão de forma cheias de bolor, é que tu eras esperto - disse para mim mesmo, enquanto arrastava para fora do prédio os meus parcos haveres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia dúzia de DVDs, um saco de roupa e a minha colecção de tupperwares "emprestadados".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual pão de forma, qual quê! Tu devias era tê-la obrigado a levantar o cú da cama e preparar-te um pequeno-almoço à patrão! Com ovos, salsichas e o que mais houvesse no frigorífico - resmunguei eu, no momento em que metia a chave na caixa do correio da senhoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chave e mais duas cuspidelas, como retaliação por ela me ter ficado com os 100 euros de caução, só por eu ter avariado a merda das persianas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas este meu momento Neanderthal havia de durar pouco. Só o tempo necessário até eu descobrir o tipo de vizinhança que me esperava na nova morada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, minhas lindas, voltei ao meu estado normal, ou seja, o Homo-erectus. Bem erectus, diga-se em bom abono da verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era só pela deslumbrante beleza das minhas vizinhas. Havia ali qualquer coisa, que eu não conseguia definir muito bem. Era como se o prédio em si, emanasse sensualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, não levei muito tempo a perceber porquê...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão a ver aquelas pessoas que dizem "Ah, no meu prédio damo-nos todos muito bem. Somos quase uma família".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, aqui era mais ou menos a mesma coisa. A diferença é que toda a gente se dava bem demais. Não podiam era ser uma família, se não corriam o risco de praticar incesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque neste lugar abençoado, a boa vizinhança não se media pelos bons-dias e caras alegres nas viagens de elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era na cama - ou mesmo no hall do prédio - que se decidia quem era bom ou mau vizinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, a velha história do "Ò vizinha, empresta-me sal" era o pão-nosso de cada dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não existia essa coisa do "sentido literal". Comunicávamos uns com os outros, através de metáforas, mais ou menos apimentadas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ò vizinho acabou-se-me o gás. Não me quer carregar na bilha?"; "Ajude-me a apanhar um rato que anda à solta no meu apartamento... ops, afinal era uma rata"; ou mesmo o clássico "A minha ex-mulher levou embora o fogão. Importa-se que eu ponha o meu rolo de carne no seu forninho"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por aí fora. Tudo convites para uma só coisa: sexo. A todo o momento e em qualquer sítio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só assim se compreende que, no lugar das tradicionais lâmpadas sobressalentes junto aos contadores da água, se encontrassem caixas de preservativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até as reuniões de condomínio eram diferentes daquilo a que estamos habituados. Em vez das usuais queixas sobre os latidos do cão da vizinha do 8.º esquerdo ou das escadas sujas, os condóminos apresentavam reclamações do género:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, as portas da garagem estão muito bem oleadinhas. E é uma chatice que eu queria aproveitar pr'a meter conversa com a loira do 2.º andar quando ela não conseguisse abrir o portão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, quando é que vamos ter uma lâmpada fundida? Eu ando há meses a ver se apanho um sítio escurinho pr'a fazer de conta que tropeço e caio nos braços do bonzão do 4.º Frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêem, neste prédio a vida era dura, para o administrador de condomínio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dura para ele e para todos nós, moradores, que tínhamos de suar a camisola todos os dias. No meu caso, suar tanto, que a dada altura deixou de ter a dureza habitual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dureza da vida? Claro que não. Não se armem em ingénuas, que vocês sabem muito bem do que estou a falar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, minhas queridas. Pela primeira vez em muitas décadas, comecei a dar mostras de exaustão sexual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vá, não gozem que o caso é sério!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez das habituais seis vezes ao dia, os meus índices de resistência foram baixando até atingir a miserável marca de 3 diárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E devidamente espaçadas no tempo, se não corria o risco de passar vergonhas como aquela que quase passei, num fatídico dia de Março.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a máquina de lavar roupa tinha avariado - há mais de sete anos - vi-me forçado a recorrer à ajuda da vizinha do 5.º andar, de quem se dizia ter uma lavandaria completamente equipada... e já agora, um respeitável par de mamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, entre um "Ò vizinho, porque é que não aproveita e lava também essa roupa que tem no corpo" e um programa de secagem que levou umas duas horas, esgotou-se-me por completo o plafond sexual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descia eu as escadas de mansinho, não fosse alguém lembrar-se de requisitar os meus serviços, quando sou surpreendido pela vizinha da frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ena tanta roupa. Vá, passe pr'a cá a bacia que ajudo-o a passar a ferro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencido pelo cansaço, ainda tentei arranjar maneira de me livrar de tão árdua tarefa, mas a mulher já me conhecia o fraco. Sabia que engomar roupas era das poucas coisas que eu encaixava na categoria de "antes beber a própria urina do que fazer isso".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a gota de água foi quando ela se saiu com esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E não se esqueça da camisola e das calças que tem vestidas. Estão todas amarrotadas!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem sei que não era original. Mas entre passar o resto da noite às voltas com o ferro de engomar e entregar-me - ou antes, deixar-me cair - nos braços da vizinha, não hesitei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para minha grande surpresa, o pequenote decidiu arrebitar ao fim dos primeiros beijos. E eu a pensar que ia ser preciso reanimá-lo com o desfibrilhador que eu esperava encontrar em casa da vizinha, não fosse ela médica do Inem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, com meio caminho andando, só faltava resolver o problema da... digamos... ejaculação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque uma mulher pode simular um orgasmo com facilidade. Bastam uns quantos dotes artísticos, uns “humms”; e uns “siiiiim” para nos convencer que estamos no caminho certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora um homem, para simular uma coisa dessas precisa de algo mais. De uma boa dose de criatividade... ah, e de pelo menos uma lata de leite condensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi precisamente isso que eu encontrei na mesa da cozinha, quando fui buscar os preservativos ao bolso das calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem tempo para pensar e com a reputação de "bom vizinho" em jogo, enchi a camisinha com o abençoado creme e lá fui eu, entregar-me de corpo e alma a um desempenho que, se não merecesse um Óscar, pelo menos dava direito a uma bacia de roupa bem engomadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo meio, a vizinha ainda arriscou a pedir-me para reparar a torneira do bidé. Mas eu, que fujo das artes de pichelaria como o diabo da cruz, fiz de conta que ia buscar uma chave inglesa a casa e voltava mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal sabia eu que estava, com isso, a assinar a minha sentença de morte. Ou antes, ordem de despejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convenhamos que um bidé faz muita falta a uma mulher. Principalmente depois de fazer amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, entre pendurar-se no lavatório, arriscando-se a cair de cabeça enquanto fazia a higiene íntima e pedir ajuda ao ex-namorado grunho, a doutora optou pela segunda. Já tivera a sua dose de traumatismos cranianos durante as 12 horas do seu turno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Artur, que morava no andar de baixo, era habilidoso com as mãos.&lt;br /&gt;O mesmo não acontecia com a língua, que ele usava apenas e só para lamber a colher de pau, quando uma das suas amiguinhas fazia um bolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso que a Dra. estranhou que ele estivesse vai para meia hora a fazer-lhe sexo oral. E então quando começou a ficar com as virilhas dormentes, aí, não teve dúvidas. Algo de muito grave se passava com o "ex".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, andas a fazer musculação com a língua ou quê?! Tá bem que estejas arrependido e me queiras agradar, mas não me apetece passar o resto da noite nisto!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que é que queres? Isto está tão bom que eu não consigo parar! - respondeu o Artur, por entre dois chleps, chléps.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom? Melhor que ninguém, os médicos conhecem a anatomia humana. Principalmente quando se trata da sua própria anatomia. E, no caso da vizinha, ela sabia perfeitamente que, tirando uma ou outra rara excepção, o adjectivo "bom" não se aplicava aos paladares vaginais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que nenhum de nós morre de amores por lamber as suas próprias partes íntimas. Mas nesta altura já a dra. estava por tudo e depois de uma passagem com o dedo pelos lábios vaginais, concluiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fosga-se! Esta merda é leite condensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E do bom! Não é daquela porcaria que costumavas ter cá em casa - concluiu o Artur, sem nunca se afastar mais de 10 cms da vagina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em menos de nada estava a mulher a remexer no caixote do lixo e a cheirar o preservativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, como era altamente improvável que, no lugar dos feios e peludos testículos, eu tivesse uma fábrica de derivados de leite, a senhora foi levada a concluir o óbvio: fora enganada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu simulara o orgasmo com tanta convicção, certamente não seria a primeira vez. Por isso, toca a chamar as amiguinhas todas do prédio e lançar o alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Temos um simulador entre nós!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não levou muito até que eu começasse a ouvir gemidos e outros sons orgásmicos cada vez que me cruzava com uma das minhas até aí simpáticas vizinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao princípio não liguei. Na época passava na televisão o célebre anúncio ao champô Herbal Essences e era normal ouvir aqueles gritinhos um pouco por todo o lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas depois a coisa evoluiu para uns risinhos e uns zunzuns. E isso no meu dicionário só pode ter um de dois significados: ou voltei a sair de casa com a braguilha aberta, ou então estão a falar mal de mim. À força toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia, a inquilina do 3º direito, fez questão de desfazer todas as dúvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com aquele ar de quem nunca deu um "ai" nem um "ui" só para agradar o marido, virou-se para e mim saiu-se com esta: "Ò vizinho, acabei de fazer uma tarte de leite condensado. Não quer vir cá lamber-me o tacho"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, foi aí que percebi que tinha o destino traçado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda pensei em aplicar uma lavagem a seco à minha reputação. Sei lá, tipo seleccionar meia dúzia de vizinhas para demonstrar a genuinidade das minhas ejaculações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas depois lembrei-me que a coisa ia sempre soar a filme porno de 5.º categoria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai, mas como é que eu posso ter a certeza que isso que te saiu do pénis não é leite condensado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chupa e logo verás?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que me num caminho que eu já tinha percorrido muitas vezes. Em excesso de velocidade e em contra-mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizia-me a experiência que a língua dos vizinhos é como o muco vaginal de uma antiga colega de escritório: deixa manchas que não se conseguem apagar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... principalmente nas calças de fazenda. Para mal dos pecados - e da vida conjugal - dos vários directores comerciais que foram passando pela empresa, naqueles anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá fui eu, novamente, de malas feitas, qual Adão e Eva, expulsos do Jardim do Éden. Ou antes, Adão sem a sua Eva. Ou Evas, que só naquele prédio havia duas. Cada uma melhor que a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinal dos tempos. Nesta minha infeliz recriação do episódio bíblico, em vez de uma maçã, a tentação chegou sob a forma de uma lata de leite condensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a minha perdição sob a forma de ignorância científica. É que, desconhecia eu, quando submetido a temperaturas elevadas, o leite condensado tem tendência a aumentar o volume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se houve coisa que subiu naquele fatídico fim de tarde em casa da doutora foi a temperatura. Assim sendo, não houve preservativo que segurasse o creme… mais parecia um fervedor de leite ao lume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, de tanto falar nisso, agora abriu-me o apetite! Ah porra, mas afinal onde é que é que estes cabrões guardam o leite condensado!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, quem me manda a mim vir às compras ao Mini-Preço!!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-8593933506413537674?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8593933506413537674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8593933506413537674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/vizinhos.html' title='Vizinhos'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-7815908352156934604</id><published>2007-12-23T16:06:00.000Z</published><updated>2007-12-23T16:07:02.700Z</updated><title type='text'>Bonecos</title><content type='html'>Há boatos dos quais não nos conseguimos libertar, por mais que tentemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja-se o caso do Marco e da Heidi!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveram em países diferentes - Suiça e Itália -, nunca estiveram a menos de 500 quilómetros um do outro e, ainda assim, se perguntar a qualquer pessoa quem é o Marco, a resposta é invariavelmente esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o namorado do Heidi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é uma chatice, e das grandes. Isto porque, enquanto a conversa andar ali no diz-que-disse, a coisa fica-se por uns risinhos nas costas e umas piadolas de mau gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, quando a história chega aos ouvidos de maridos e namorados, aí, minhas meninas, cuidado que a coisa pia fino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até parece que estou a imaginar o Pedro - o verdadeiro namorado da Heidi - uma bela manhã a entrar na tasca lá da aldeia, depois de uns 15 dias no meio dos Alpes Suiços a guardar as cabras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farto de passar os dias a falar para o parvo do cão, o rapaz está mortinho por abrir a goela. Primeiro para engolir uma copada de schnapps e depois para lançar a boca:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois é, shô Ziegler! Com que então o Servette lá deu outra cabazada ao vosso Neuchatel Xamax. He, he, este ano já ninguém nos tira o título.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É capaz... shleck - sendo que o "shleck" é o ruído de uma cuspidela discreta que o tasqueiro mandou para dentro do copo do Pedro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelos vistos vocês este ano ficam a ver navios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Antes ver navios do que um par de cornos em cima da cabeça... cof, cof – era suposto que as tossidelas abafassem a parte dos cornos, mas já não foram a tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada, nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem nada são os peixes. Vá, diga lá o que tem a dizer senão leva duas cabeçadas que fica 15 dias a cuspir Mateus Rosé!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, tem calma Pedro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem calma é o caralh... Vá, que história é essa dos cornos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, eu não sei de nada, porque passo o dia inteiro fechado aqui na taberna. Mas há pr'aí um falatório da aldeia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que falatório???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hum… o povo diz que não são só as tuas cabras que andam com a cabeça enfeitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso quer dizer o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò homem, eu cá não vi nada. Mas contaram-me que a tua Heidi anda pr'aí de namorico com um tal Marco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marco? Qual Marco? O do Big Brother?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, um gajo dos Apeninos. Parecido com o Conan, o Rapaz do Futuro, mas com o cabelo liso. E um bocadito mais atarrecado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, já sei quem ele é. Um cromo que anda sempre com aquele do choradinho do "vais-te embora mamã, não me deixes aqui"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse mesmo! Às tantas é com essa ladaínha que ele as engata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, lá saiu o Pedro porta fora, a caminho de ser tornar numa celebridade. Mais concretamente, na capa do 24 Horas ou na última página do Correio da Manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo dependia da hora a que ele conseguisse despachar o pobre do Marco, a golpes de cajado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que o mais certo era a coisa atrasar um bocado e ficar só para a edição do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo caminho impunha-se uma paragem em casa da Heidi, para aplicar-lhe uma valente carga de porrada. Só para o pessoal da aldeia ficar a saber que o Pedro pode ser corno, mas não é manso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, e para ir buscar o passaporte, que eles lá em Itália não gostam de penetras. Tirando a Cicciolina. Mas essa não conta que é húngara e put...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que, por esta altura, já o Marco sabia da história - o macaquinho era primo direito do dono da taberna - e, vai daí, o rapaz aproveita a desculpa da mãe estar na Argentina para sair de circulação durante uns tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, se a Mossad que é a Mossad, levou uma data de anos para descobrir os criminosos de guerra nazis, que se refugiaram na América do Sul, acham que um pastor semi-analfabeto é capaz de fazer melhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdido nas ruas de Génova, sem ninguém a jeito para fazer dar uso ao cajado, o Pedro lembra-se que conhece vagamente um puto lá da zona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tal Pinóquio, que com quem travara conhecimento ainda ele era um pedaço de madeira a caminho da serração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia era pedir-lhe umas massas emprestadas para pagar a viagem ao país das pampas. Mas o azar foi tão grande que o Pinóquio estava internado numa clínica, ou antes, numa carpintaria, com uma grave crise de caruncho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos isso era o que ele dizia. Porque, na verdade, o puto de madeira estava era escondido nas entranhas de uma baleia, com medo que o Pedro o transformasse numa caixa de palitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque fora o próprio Pinóquio quem lançara o boato, como vingança por a Heidi não lhe ter passado bola aqui há uns anos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não serves nem para arder na minha lareira - eram as palavras que continuavam a martelar na cabeça de pau do Pinóquio. Ou eram as palavras, ou então era o Gepeto a pregar-lhe dois pregos nas orelhas, que insistiam em cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal sabia ele que havia uma pontinha de verdade na história. O puto bem estranhou o nariz não lhe ter crescido tanto, mas pensou que fosse do novo verniz que lhe aplicaram nesse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só falhou foi no alvo. É que a Heidi com aquele ar de sonsa escondia um esqueleto no armário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não estou a falar do carteiro, cujos restos mortais apareceram anos depois no meio dos trapinhos de orfã que a miúda deixou de usar precisamente nesse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coitado, quase que era apanhado pelo avozinho na cama da miúda, mas no último segundo conseguiu enfiar-se no guarda-roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para grande azar dele, a Heidi trancou a porta e, como começavam nesse dia os saldos do El Corte Inglés, foi às compras e nunca mais quis saber dos farrapos antigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tal amor proibido que a Heidi viveu foi com um americano sardento, com arzinho malandro e uma estranha tendência para andar descalço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, a Suiça não é propriamente o Mississipi. Por isso, meia hora depois de desembarcar em Zurique, onde fora acompanhar a Tia Becky numa viagem de negócios... que é como quem diz, largar uma mala de dinheiro do tráfico de escravos numa conta off-shore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizia eu, meia hora depois de chegar a Zurique, o Tom Sawyer - assim se chamava o americano - já tinha os pés em sangue, de tantas frieiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valeu-lhe a ajuda da Heidi, que estava na mesma agência bancária para levantar o caroço do avozinho. Com o pretexto de "tratar dos papéis para a reforma" fizera-o assinar uma procuração que lhe dava plenos poderes para movimentar as contas bancárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia era pegar na massa e pisgar-se para Inglaterra, onde esperava ter sucesso como top model e casar-se com o Seal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que veio a acontecer, mas só quando mudou o apelido para Klum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o americano sardento trocou-lhe as voltas. Trocou as voltas e o saco onde a miúda guardava o dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, entre uma aplicação de pomada no dedão e uns beijinhos de olhos fechados, o Tom Sawyer roubou-lhe o coração. E a mala recheada de francos suíços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com esse dinheiro que, dias mais tarde, o puto comprou a carta de alforria do escravo Jim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não para o devolver à liberdade, mas sim para que o negro trabalhasse para ele e para o Huck Finn. O trio viria a ser pioneiro na prática de Boat-Jacking.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que consistia no roubo de barcos a vapor através de um método em tudo semelhante ao que hoje conhecemos por Car Jacking.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao corno... quero dizer, ao Pedro. Sem ninguém a quem pedir ajuda, lá teve o pastor que dar corda aos sapatinhos e zarpar rumo a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia que tratar dos ferimentos da cabrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isto não é nenhuma piada à Heidi. É que havia mesmo uma cabra que estava a precisar de uma ida ao veterinário, depois do macho lá do rebanho ter frustrado as suas ambições de chegar a casa com pura lã virgem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque em relação à Heidi, o único tratamento que a esperava era a segunda dose de porrada que ficara prometida, aquando da sua partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o espancamento teve de ficar adiado sine die. Devido ao cansaço da viagem. E aos múltiplos hematomas sofridos pelo rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, pelo caminho, o Pedro cruzou-se com o Vicky, o Viking e ao olhar para a cabeça do rapaz, saiu-se com esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, esse capacete com cornos é alguma piada, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, o Vicky que não era de levar troco para casa, respondeu-lhe logo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não pá! É moda. Ouvi dizer que usa-se muito lá na tua terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, lá foi ele de mangas arregaçadas, direitinho ao minorca para lhe acertar o passo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que o Pedro não se tornou pastor porque já não havia mais vagas em Medicina. A total falta de raciocínio lógico era um dos requisitos para função.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, pelos vistos, o moço tinha o perfil ideal para o desempenho das funções. Só assim se percebe ele ter desancado o pequeno Vicky ali à frente dos pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem não sabe, os vikings eram uma espécie de ciganos lá daquela época: sozinhos não valia a ponta de um corno. Mas em manada, cuidadinho com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destruíam uma vila romana com a mesma facilidade que uma família de "Lelos" desmonta uma loja de telemóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, quando o Pedro deu por ela já estava a família toda em cima dele. Só pararam quando o pobre pastor aceitou comprar-lhes uma T-Shirt de contrafacção da Puma e dois DVD’s dos Piratas das Caraíbas. Ou antes, duas caixas vazias de DVD.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda estiveram para lhe oferecer o capacete com os corninhos, mas acharam que não fazia falta. Os cornos já ele os tinha e o capacete de nada servia, porque não havia mais crânio intacto que corresse o risco de se partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, tirando mais uma ou duas cenas de porrada, umas quantas infidelidades e um punhado de burlas agravadas, viveram todos felizes para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai… agora me lembro porque é que as minhas irmãs me proibiram de contar histórias infantis aos putos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-7815908352156934604?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7815908352156934604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7815908352156934604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/bonecos.html' title='Bonecos'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-3492922864048913302</id><published>2007-12-23T16:04:00.001Z</published><updated>2007-12-23T16:04:51.635Z</updated><title type='text'>Shakira</title><content type='html'>Quase todos temos uma música especial, que associamos a determinada pessoa, tipo ex-mulher, ex-namorada, ex-empregada de limpeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela música que escutávamos quando trocamos o primeiro beijo, quando fizemos amor pela primeira vez, ou quando o leitor de cassetes do carro avariou e tivemos que nos contentar com a primeira coisa que passou na rádio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, pelo menos, tenho 2 ou 3 dessas músicas que me dão cá um aperto no coração, cada vez que as oiço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"My fist, my last, my everything" do Barry White; "She" cantada pelo Elvis Costello; e "Romaria em Honra de Nossa Senhora dos Remédios" do Rancho Folclórico de Santa Eufémia da Carriça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso mesmo que vocês acabaram de ler. Uma das músicas mais marcantes na minha vida é, precisamente, essa do Rancho Folclórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar é marcante porque, da primeira vez que a ouvi, levei com um tamanco de madeira na testa. E ainda hoje tenho a marca para o provar... uma bela cicatriz com 6 pontos mal dados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, ao mesmo tempo, é marcante porque foi do pezinho delicado da Sofia que voou o acima mencionado tamanco, durante um momento mais acalorado da sua actuação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O incidente, além de me ter valido uma bela mancha de sangue na camisa Gant, comprada na tarde anterior a um cigano, na Feira de Espinho, permitiu-me travar conhecimento com a única estrela da música que figura na extensa lista de minhas ex-namoradas ou romances ocasionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi fácil cair nas suas boas graças. Quando ela veio ter comigo no final do espectáculo, para pedir a soca de volta, armei uma ceninha tipo Cinderela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que eu posso saber que és tu a princesa a quem pertence este sapatinho? Vamos ver se serve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela resposta, deu para perceber que desde cedo a Sofia trocou os livros com histórias de encantar pela sachola e pelas embalagens de 605 Forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò morcão dá-me lá a p... da soca que eu tenho de me ir vestir pr'á "Modinha do Minho"!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por segundos pensei que estava tudo perdido, até que a salvação chegou de onde menos eu esperava: a minha actividade profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca pensei que ser vendedor de conglomerados de madeira tivesse alguma utilidade prática ao nível das técnicas de engate. Mas este era um daqueles momentos em que dava graças a Deus por ter lido mais do que as 3 primeiras páginas do Directório de Madeiras de Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hum, tamancos em carvalho!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro... em amieiro é só pr'ás amadoras, que se escacham todas em palco. Comigo só o melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi o que ela disse. Nem como ela disse. Foi o seu olhar, surpreendida pelo meu conhecimento na matéria, que me fez esperar por ela duas horas, à porta do camarim... pelo era esse o nome que davam à velha Renault Traffic, onde a prima-dona da companhia se trocava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As outras tinham que se contentar com uma barraca, nas traseiras da Igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperava uma reacção fria, típica das grandes estrelas da música. Mas uma vez mais a Sofia surpreendeu-me ao furar uma fila de 3 dezenas de fãs para vir ter comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai... por momentos senti-me como a personagem do Hugh Grant no filme Notting Hill. A Sofia era a minha Anna Scott e eu era um outsider, naquele mundo de luxo e glamour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos a noite a beber malgas de vinho tinto, daquele que nos deixa os lábios pintados e nos provoca diarreias dolorosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali ficamos, juntinhos, à espera que o céu se iluminasse com o grandioso fogo de artifício... coisa que só aconteceu depois da Comissão de Festas ter pago ao fogueteiro os 300 euros que ainda devia do ano anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi quando rebentou o primeiro morteiro que eu me apercebi verdadeiramente da beleza invulgar da minha nova amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seus longos cabelos tinham uma cor variável. Ora totalmente loira, ora loira com raiz preta, ora morena com as pontas loiras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com viria a constatar nas semanas seguintes, tudo dependia da altura do mês. E do atraso com que se pagavam os salários lá na fábrica de confecções onde ela trabalhava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali ficamos, até o céu voltar a cobrir-se de negro. A partilhar aquele breve instante, que seria só nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um instante em que a Sofia dançou o "Vira" só para mim. Presenteando-me com um movimento de ancas que a tornou conhecida como a Shakira da Carriça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sem dar por ela, aquela noite transformou-se numa semana. E a semana transformou-se num mês. E eu, sem me aperceber muito bem como, eu, que me apaixono por tudo e por nada, tinha-me tornado no namorado de uma celebridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era todo um novo mundo que se abria perante mim. E a Sofia seria a minha guia. Ensinou-me coisas que jamais esquecerei, como a posição do carrinho-de-mão, ou como fazer amor no campo de milho sem que as toupeiras nos confundissem o pénis com uma massaroca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao seu lado descobri as propriedades afrodisíacas da cebola com sal. E graças a isso, pela primeira vez em muito tempo estive à vontade para beijar uma mulher sem ter de me preocupar por ter comido três rodelas de salpicão da aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque não é fácil a uma mulher detectar este tipo de paladares quando a sua própria boca exala uma mistura explosiva de aromas: chouriço de sangue, alho picado e vinho verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram onze semanas, nas quais esqueci por completo a caixa de Trident...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais importante que tudo isso, com ela aprendi a amar uma arte até aí desconhecida. Um mundo à parte, com as suas regras próprias e com código de conduta rígido, que não admite falhas. Um mundo onde todos trabalham em prol da perfeição: o Folclore!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei ao certo o que me levou a interessar-me por uma actividade que até aí não me provocava outra reacção que não fosse uma imensa vontade de ser surdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez fossem as coreografias, mais sensuais que qualquer lambada ou kizomba. Ou os sons da concertina, a fazerem lembrar os velhos discos do Astor Piazzolla.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nah, nada disso. O que me fez apaixonar perdidamente pelo Folclore foram, definitivamente, as roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, aqueles trajes exalam sensualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual lingerie Victoria's Secret, qual La Perla ... se querem deixar o vosso homem mesmo doidinho de todo experimentem aparecer-lhe à frente com um traje típico de Alhos Vedros ou Aguiar da Beira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas cores vivas, aquelas rendas, os barretes, os folhinhos, o cheiro corporal intenso, depois de uma actuação em pleno mês de Agosto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, claro, as indispensáveis socas em madeira, que deixam a léguas qualquer sandália de cristal ou bota alta de tacão-agulha. Isto, desde que sejam acompanhadas de um acessório fundamental: as meias brancas, daquelas a fazer lembrar a Heidi ou o equipamento de futebol de salão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que me deixei seduzir por essa arte. E me envolvi nela com tal intensidade que em breve estava a frequentar a muito elitista Academia de Folclore da Carriça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí me tornei aprendiz de uma manifestação artística que está ao alcance de um grupo muito restrito de eleitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E trabalhei com afinco sob as ordens da professora Natália. Mulher robusta, típica trabalhadora do campo mas que, aos meus olhos, era uma espécie de reencarnação da professora Lydia, da série Fame.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembram-se dela? Era a negrinha que batia com uma vara no chão e dizia qualquer coisa do género:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"You want fame? Well fame cost, and right here is where you start paying, in sweat!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tiverem dúvidas vejam o link abaixo:&lt;br /&gt;http://www.youtube.com/watch?v=tNdJzrh5AsU&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A diferença é que, em vez de usar uma vara, a dona Natália usava um pau de marmeleiro. Ah, e havia outra nuance: em vez de bater com ele no chão, para marcar o ritmo, batia com ele nas costas dos bailarinos, sempre que nos enganávamos na coreografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vêem, a vida era dura nos ensaios, lá na Casa do Povo da Carriça. Tão dura que na aldeia o grupo era conhecido como Reich Folclórico, tal era a influência dos métodos de educação neo-nazis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lutei, dia após dia. Até finalmente conquistar o meu lugar ao sol. Não por mérito próprio, mas porque a estrela da companhia, o Adsdrúbal, caiu de um andaime quando estava a instalar a iluminação eléctrica na fachada de Igreja...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na altura houve muito falatório lá na aldeia, mas o certo é que nunca ninguém soube dizer ao certo se o carro que embateu no andaime imediatamente antes da queda era um AX ou um Peugeot 205.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim chegou o grande dia. Ou antes, a grande noite. Estávamos em plena Romaria em Honra de Santa Eufémia, o evento mais importante do calendário Folclórico nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jogar em casa, o nosso Rancho não era apenas obrigado a brilhar. Tínhamos que atingir a perfeição, ir para lá das estrelas. Fazer da concertina uma extensão do nosso corpo, para trabalharmos ambos em sintonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia margem para erros. Ainda para mais porque, para apimentar ainda mais as coisas, alguém se lembrou de instalar dois palcos e organizar uma competição de dançares ao desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa inédita, que não viria a repetir-se, por motivos que mais tarde irão compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lado a lado, dois Ranchos Folclóricos rivais actuariam ao mesmo tempo. E o público, esse feroz avaliador das artes rurais, havia de decidir quem era o melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque no Rancho, as coisas passavam-se um bocadinho como no filme "Highlander - Duelo Imortal": "Só pode haver um".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia os riscos que corríamos. Por isso, segundos antes do momento decisivo fechei os olhos e concentrei-me. Um movimento mais arrojado podia significar a glória... mas um passo em falso podia determinar a miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi, equilibrado nessa verdadeira corda bamba que eu entrei em palco. Tremia que nem varas verdes... não tanto por causa dos nervos, mas porque tinha assistido à montagem do palco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doze pessoas aos saltos numa estrutura assente em grades de cerveja fazia daquela actuação uma espécie de desporto radical&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando a música começou, todo o medo desapareceu. Dois meses de treinos bi-diários e três vértebras fracturadas a golpes de pau de marmeleiro tinham valido a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deslizei pelo palco com uma destreza, uma suavidade e uma elegância dignas de um Rudolf Nureyev. Os meus pés, esses, moviam-se com uma cadência a fazer lembrar o sapateado do Fred Astaire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas estavam a correr bem. Bem demais até. A única coisa que me fazia confusão era não encontrar, no meio das bailarinas, a minha Sofia. Nem ela, nem nenhuma das outras colegas do Rancho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pudera, não era propriamente fácil vê-las àquela distância. É que Sofia e todas as outras dançavam e rodopiavam nos seus trajes vistosos, mas no outro palco, instalado aí a uns 10 metros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, minhas amiguinhas. Com o nervoso miudinho nem dei conta que me enganara e estava a encher a noite de brilho, mas no grupo errado: os arqui-rivais do Rancho Folclórico da Carriça de Cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que eu era pouco conhecedor das rivalidades lá da zona e ainda por cima sofro de um leve problema de daltonismo que me impediu de distinguir o vermelho tripa de cabra (cores oficiais da Carriça de Cima) do vermelho sangue de boi (característico da Carriça de Baixo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas de pouco me valiam esses argumentos perante uma multidão em fúria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Judas! Traidor! Vais morrer, cabrão!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus novos colegas tentavam acalmar-me. Dizendo que no dia seguinte já ninguém se lembrava daquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, pois. Mas se 10 anos antes tinham ateado fogo à Junta de Freguesia só porque os da Carriça de Cima lhe desviaram o padre, imaginem o que fariam agora por terem roubado a nova vedeta do rancho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O público exigia um encore e eu ainda vacilei. Mas quando ouvi a multidão gritar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos enfiar-lhe a cabeça dentro da ceifeira-debulhadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, minhas meninas, percebi que os meus dias de "vira" e "malhão" tinham chegado ao fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como escapar de um palco rodeado de lavradores, tomados da pinga, e com o orgulho bairrista ferido? Ainda para mais, armados de varapaus e forquilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer-se dizer, a forquilha era de um cromo que se tinha perdido a caminho de um baile de Halloween e que achou que não seria má ideia passar o resto da noite numa romaria de aldeia, vestido de Morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi aí que me lembrei que a Sofia, como qualquer super-estrela da música que se preze, guardava sempre um traje extra para surpreender o público na segunda parte da actuação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi só esgueirar-me até à Renault Traffic e a partir daí o Travolta do Rancho Folclórico transformou-se em Belle Dominique. Naquele que viria a ser o único caso registado de travestismo no mundo do folclore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De socas na mão, consegui correr até à paragem de camionetas, a tempo de apanhar a última carreira de Auto-Viação Carricense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Troquei a fama e fortuna pela minha vida. E confesso que não fiquei de todo arrependido do negócio... mas sentia um enorme buraco no meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a camioneta me levava dali para fora, fiquei a olhar para as labaredas que entretanto se erguiam lá para os lados da Carriça de Cima, enquanto segurava nas mãos o tamanco de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe um dia não voltaria a encontrar a minha Cinderela para enfiar o sapato no seu pezinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E daí, talvez não. Às pratadas de massa à lavrador que a miúda comia, daqui a meia dúzia de anos mal lhe vão servir nas orelhas, quanto mais nos pezinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque nesta história de desencantar, quem se transforma em abóbora não é a carruagem. É a própria princesa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-3492922864048913302?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/3492922864048913302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/3492922864048913302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/shakira.html' title='Shakira'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-5932165329094046378</id><published>2007-12-23T16:02:00.003Z</published><updated>2007-12-23T16:02:59.974Z</updated><title type='text'>Pé-de-cabra</title><content type='html'>Às vezes amo tanto que chego a ficar com o coração em carne viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sério, não estou a dizer isto para o estilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou mesmo assim. Aliás, só um amor assim tão intenso me poderia levar a fazer disparates como fazer-me sócio do Desportivo das Aves, entrar no sub-mundo do crime ou então andar com uma dessas malinhas que os homens agora usam a tiracolo e que fazem lembrar o saco onde os cobradores da Rodoviária guardavam os trocos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, já sabia... uma piada tão boa como esta da malinha e ficou em segundo plano só porque antes disso eu falei no submundo do crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1150 primeiras páginas do 24 horas e do Correio da Manhã deviam ser mais do que suficientes para eu saber que se quero atrair a atenção de uma pessoa basta-me falar em crime, sexo e nas noitadas do Cristiano Ronaldo. Não necessariamente por esta ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, enfim, se eu ajoelhei já vi que vou ter que rezar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade, minhas lindas, este anjinho com ar de quem não parte um prato...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este "escuteirinho" que ajuda sempre as velhinhas a atravessar a rua, por muito que elas implorem para não o fazer porque só estavam na berma da estrada a ver se descobriam quem era o amante da vizinha da frente que sai todas as noites aquela hora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta jóia de pessoa que na sua infância chegou a ajudar na missa e graças a isso passou metade da sua vida enfiado em reuniões dos acólitos anónimos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, eu, que me apaixono por tudo e por nada, já vivi uma vida de crime sem castigo, num mundo sem lei nem ordem, onde a sobrevivência é determinada pela rapidez com que apertamos o gatilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, também não foi assim tão metido no crime... digamos que tentei forçar a porta de uma farmácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Forçar, mas ainda assim com o intuito de roubar. Dinheiro não, mas sim preservativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vindo de mim, que mais podia ser?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se arrependimento matasse, teria morto à pancada a mulher que me levou a cometer esse acto tresloucado. Mas o amor é louco e às vezes também é rouco... sim porque a Lúcia tinha cá uma voz que era tal e qual a Alexandra Lencastre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual Alexandra, qual quê. Era mas é igualzinha à do Joe Cocker!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, a Lucinha! Muito ela me fez penar até finalmente se deixar levar pela canção do bandido, cuja letra não andava longe disto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Anda lá a casa, bebé. Sabes que nas noites de luar a vista da minha varanda é deslumbrante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que ela sabia que a vista era sempre a mesma. Fosse uma noite de luar, ou mesmo numa noite de temporal, como era o caso, a única coisa que se via era a parede castanha da fábrica de calçado que um vereador qualquer deixou construir a meio metro do meu prédio, a troco dos 800 contos do costume. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Lucinha, que de parva não tinha nada, terá achado que cinco jantares, três idas à discoteca, um passeio a Fátima com a família e cinco idas à pesca com os irmãos eram provas mais do que suficientes do meu amor incondicional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que ela me abriu as portas do seu coração. Enquanto eu me esforçava por abrir, sem sucesso, a porta do meu T 1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sempre assim. Bastava chover mais um bocadinho para o soalho inchar e a put... da porta ficar empancada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valeu-me a vizinha do lado. D. Fernandinha, já experiente em questões relacionadas com as deformações de madeira. Tão experiente que guardava sempre um pé-de-cabra junto ao contador da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal imaginava eu que arrombar a porta da minha própria casa seria uma espécie de estágio para aquilo que se seguiria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mal o menos, a abertura do fecho do soutien revelou-se bem mais fácil do que abrir a porta de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas corriam bem. Bem demais. Ao contrário do que acontece com as equipas portuguesas que jogam nas competições europeias, passei com distinção nos jogos preliminares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única coisa que me podia atrapalhar era a abertura da embalagem dos preservativos. Nada que uma boa dentada não resolvesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até a Lucinha agarrou na embalagem dos meus fiéis amigos Zig-Zag e saiu-se com esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò, estes não servem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai isso é que servem. O Júnior parece grande demais mas como isto é latex alarga até quase aos 30 centímetros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é isso. Eu estou a dizer que não servem porque eu não me dou com essa marca. Deixa-me os lábios todos esfolados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda a tentei convencer que passava muito bem sem o sexo oral, mas levei com uma data de burro. E quando a miúda finalmente se acalmou, dos lábios que não corriam o risco de esfolar saiu a explicação: a vagina sofria uma reacção alérgica a tudo o que não fossem preservativos Durex Extra-Sensitive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um momento para o outro, o universo ficou de pernas para o ar. Não foi a miúda... foi o universo. Nada de confusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo eu, que me orgulhava de dos rigorosos critérios de qualidade que impunha em todas as compras que fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fossem eles preservativos, cremes hidratantes, marcas de fiambre ou mesmo detergentes, todos eles obedeciam ao mesmo nível de exigência: ser o mais barato possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda inventei à pressa uma teoria médica, segundo a qual 90 % das alergias cutâneas tinham por base uma fortíssima componente psicológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Lucinha, que tão bem se deixara ir na canção do bandido, desta vez não se deixou ir na canção do "dermatologista auto-didacta".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semi-nua e sem vontade nenhuma de passar o resto da noite a ver o “Armageddon” pelo 9.ª vez em meio ano, a Lucinha ainda sugeriu que fizéssemos amor sem preservativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a proposta foi chumbada por unanimidade... não é que eu não confiasse na miúda, mas naquela altura ainda estava muito&lt;br /&gt;sugestionado por uma frase que ouvira nos primeiros tempos de tropa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu a tentar tapar-me do frio só com as minhas truces azul bebé, à espera de levar a minha dose de vacinas, quando reparei que a enfermeira estava a injectar toda a gente com a mesma seringa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos vistos a coisa era perfeitamente normal, lá no campo de refugiados zairense onde a Furriel Carolina prestara serviço umas semanas antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas até tinhamos entrado para a CEE, por instantes convenci-me que não estava no terceiro mundo e perguntei à Enfermeira Arame Farpado, nome por que era conhecida lá no quartel:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhe lá, não sabe que há doenças que se transmitem quando partilhamos uma agulha? Podia ao menos passar um algodão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta deixou-me marcas para o resto da vida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para quê algodão, quando pode ter sida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excluída essa possibilidade, havia que enfrentar a noite escura, rumo à Farmácia Antunes. Longe como o raio que os parta, mas a única de serviço essa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Antunes? Nem pensar!!! Então não sabes que é o meu primo que faz as noites?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de lançar a pergunta semi-cerrei os olhos, com medo do que aí vinha. Mas ainda assim, decidi arriscar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual primo? O Toninho Megafone?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o nome indicava, o Toninho era absolutamente incapaz de manter a boca calada. Não havia registo de alguém se ter aproximado a menos de 100 metros e ter conseguido escapar à sua temível má língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ver a vidinha a andar para trás, fui colocado perante um terrível dilema. Ou ia expor a minha doce Lucinha ao maior difusor de boatos da zona Norte, ou submetê-la aos efeitos nocivos do latex de má qualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ambos os casos ela ia sair magoada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse instante que tive uma visão que eu agora sei ser comum a todos os desesperados, que por força das circunstâncias se vêem empurrados para o caminho da perdição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vesti-me à pressa, beijei-a com doçura e fiz o olhar mais malandro que os nervos me permitiam. Ou seja: uma cara típica de quem acabou de aplicar botox.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À saída passei pelo contador e levei o pé-de-cabra da D. Fernandinha. Mas nem foi nada premeditado. Com o azar que estava o mais certo era precisar dele para abrir a porta do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando cheguei ao local do crime é que me lembrei de um pormenor que fazia toda a diferença: faltava-me um plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso não me ia impedir de chegar a casa com a maldita embalagem de Durex Extra-Sensitive, ou lá como é que se chamava aquela porcaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, pus-me a pensar... a solução mais rápida e eficaz seria meter a traseira do AX pela montra dentro, estender o braço e tirar da prateleira o produto do roubo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que a marcha-atrás nem sempre entrava e eu achei por bem encontrar uma alternativa. Que se apresentou aos meus olhos sob a forma de pé-de-cabra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Munido da arma, digna de um Bonnie sem a sua Clyde - ou seria ao contrário? - cheguei-me à porta, como quem não quer a coisa, e comecei ali a escarafunchar a fechadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei um, dois apertos, até que passou um carro e lá tive eu que fazer de conta que não era nada comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei à carga logo a seguir, mas a pausa em nada contribuiu para melhorar os resultados. Dei mais dois ou três apertos mas o raio da porta não havia maneira de ceder. Até que entalei um dedo e a coisa descambou por completo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei cair um sonoro "Fod...-se". E, pior que isso, deixei cair também o pé-de-cabra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não levou nem 10 segundos até apareces um vizinho à janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh ladrão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual ladrão, qual quê, amigo! Não vê que eu estou só a dar uma mijinha!? - respondi eu, como se não fosse nada comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o pé-de-cabra é para quê? Pr'a segurar na gaita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, chefe. É pr'a abrir a braguilha! O fecho éclair está encravado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esta tirada eu esperava que o homem ficasse para ali a rir-se até perder os sentidos. Ou, pelo menos, estivesse entretido até eu completar o meu grandioso assalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas talvez o estilo dele fosse mais os "Malucos do Riso" porque em vez de uma sonora gargalhada a única coisa que ouvi foi um:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Judite, chega-me o telemóvel que está ali um cabrão a gam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto da frase já não deu para ouvir porque nessa altura já devia estar a meio caminho de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá no Bairro a polícia tinha fama de levar pelo menos meia-hora a chegar ao local do crime. Mas naquele momento não me estava propriamente a apetecer fazer uma auditoria ao estado de prontidão das forças da ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso optei pela solução mais sensata: colocar um ponto final na minha carreira de mastermind do crime desorganizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto corria em direcção a casa disse para mim, baixinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, parece que esta noite, além do teu coração há mais alguma coisa que vai ficar em carne viva.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-5932165329094046378?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/5932165329094046378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/5932165329094046378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/p-de-cabra.html' title='Pé-de-cabra'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-7386162268517154542</id><published>2007-12-23T16:02:00.001Z</published><updated>2007-12-23T16:02:27.637Z</updated><title type='text'>Gabriela</title><content type='html'>Os dias em que fui verdadeiramente feliz contam-se pelos dedos intactos da mão de um serralheiro... ou seja, 2 ou 3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deles aconteceu vai fazer agora precisamente 5 anos, 8 meses, 11 dias e não sei quantas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse glorioso dia que vivi o amor mais longo desta sucessão de dias a que chamam vida. Ao todo devem ter sido as melhores 2 semanas desta triste existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irra que eu hoje estou cá com um choradinho... acho que fiquei assim depois de ter visto um&lt;br /&gt;episódio daquela novela da TVI em que a neta do Raul Solnado tem uma personagem a tentar imitar a Gabriela! Ela bem se esforça, mas falta-lhe o realismo de uma Sónia Braga e respectivos 5 quilos de esterco nas unhas dos pés!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensem que estou aqui a meter conversa só para vos entreter enquanto vou inventado o resto da história... este pormenor da Gabriela entra aqui porque, efectivamente, a miúda em causa chamava-se Gabriela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha o encanto selvagem da personagem de telenovela. Excepto quando estava à mesa... aí, meu menino, parecia que o mundo se ia acabar amanhã... pervertendo a música do Marco Paulo, ela era "uma lady na cama e uma louca na mesa".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obstante esse pequeno pormenor, quase insignificante, ela era um mulher verdadeiramente deslumbrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente aqueles olhinhos claros e os longos cabelos loiros. Ainda hoje me lembro dela sempre que dão na TV os jogos do Sporting e vejo a correr, lá pelo meio, o Miguel Veloso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, mau exemplo. Não era bem como o Miguel Veloso. Ela era mais tipo a Diana Chaves. Mas sem tanta vontade de mostrar as mamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecia-a num jantar em casa de amigos e percebi de imediato que estava ali uma mulher que mexia comigo. Quanto mais não fosse, eu tinha que me mexer de um lado para o outro, se não queria levar com salpicos de comida, tal era a voracidade que a miúda aplicava em cada mastigadela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminado o tiroteio... quero dizer, a refeição, atirei-me à Gabriela com a mesma determinação com que os vendedores de cartões do Citibank se atiram aos desgraçados que andam a passear o fato de treino pelo Shopping, ao sábado de manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sem grande sucesso, devo admiti-lo. Quando me ofereci para ser o seu amigo colorido a resposta revelou uma outra faceta da sua personalidade que eu preferia desconhecer. A compreensão lenta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá, lindo. Amigo colorido já tenho, é o Tony Missangas, que é apanha-copos na discoteca Luanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a alertei para a baixíssima esperança-média de vida de um funcionário de discoteca africana, ela insistiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se algum dia tiver de trocar, há-de ser pelo Nélson Évora ou pelo Pacman, dos DaWeasel. Não fiques triste... mas a verdade é que tu nem com solário lá vais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esgotada a opção "frontalidade", decidi adoptar outro tipo de abordagem. Quando não dá para estacionar de frente, olha, estaciona-se de marcha a ré? Confusas? Eu já explico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duas coisas que uma mulher deve ter sempre à mão: uma embalagem de pensos higiénicos e um amigo gay.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira toda a gente sabe para o que serve... excepto o meu tio Natércio que não dispensa uma embalagem de Evax para ocupar o lugar dos obsoletos guardanapos de papel.&lt;br /&gt;Então se forem daqueles super-absorventes, não há melhor para limpar dos cantos da boca o molho da feijoada à transmontana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto aos segundos, ninguém sabe muito bem para o que eles servem, mas toda a gente recorre a eles para nos cortar o cabelo, dar conselhos sobre decoração da casa ou ensinar-nos danças de salão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, na impossibilidade de dobrar o corpo em dois, meter-me numa saqueta às cores e pintar na testa as palavras "extra-fino" e "com abas" lá tive eu que me aproximar da Gabriela na qualidade de amigo gay.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que a parte das roupas até nem me fez grande confusão. Não que os tons fúcsia ou pêssego me agradem, mas sim porque sou daltónico. Aos meus olhos, usar uma camisa rosa-choque ou uma camisola castanho-sujo é exactamente a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que realmente me custou foi a parte da depilação. Aí, minhas queridas, é que a porca torceu o rabo... e isto não é nenhuma piada ao facto da esteticista ter uma nádega maior que a outra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há coisa que este corpinho tem com fartura é pêlo! Ao pé de mim, o Tony Ramos é um campo de golfe. Daqueles com a relva muito bem aparadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para terem uma ideia, quando olhou para o meu peito, a dona do salão de beleza ficou na dúvida se havia de tirar a primeira camada com um apara-sebes ou simplesmente pegar fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente a senhora não tinha antecedentes familiares no mercado da exploração de madeiras, por isso optou simplesmente por aparar a réplica da Floresta Amazónica que crescera no meu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior foi quando chegou à hora da cera! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fosga-se! Em que escola de depiladoras é que você tirou o curso? Na Gestapo? - gritei eu após o primeiro puxão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, a técnica para arrancar as camadas de cera tinha sido aperfeiçoada anos a fio, a esfolar carcaças de vitela na fábrica de Cortumes Inácio &amp;amp; Filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabei por desistir ao fim do terceiro grito, o que fez com que o meu peito ficasse às riscas pretas e brancas. Da próxima vez que fosse à praia todos me iriam perguntar porque é que eu insistia em andar com a camisola do Nacional da Madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como tinha pago o serviço completo, não saí do salão sem antes experimentar a especialidade da casa: a depilação brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorei mais que uma convidada do programa da Oprah mas o esforço compensou. E de que maneira. Descobri que, afinal, sem a vegetação selvagem que o rodeava, o meu pénis tinha pelo menos mais 5 centímetros do que eu imaginava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso acabou por revelar-se decisivo para a conquista da Gabriela, quando nos voltamos a encontrar em casa de amigos. Ou, por outra, na casa de banho de uns amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que aquele meio metro quadrado fosse um espaço nobre para o convívio social. O nosso encontro ficou a dever-se, digamos, a um mal-entendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao certo não sei bem que parte da frase "está ocupado" ela não percebeu. Mas a verdade é que ela entrou por ali dentro, desesperada, com um desarranjo intestinal. Ao que parece por ter engolido um ramo de tomilho que só estava no meio do frango para fins meramente decorativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como bom cavalheiro que sou cedi-lhe o meu lugar na sanita e continuei a fazer o meu serviço no bidé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terá sido na transição entre uma e outra peça de loiça sanitária que a Gabriela descobriu que havia em mim algo capaz de empalidecer até o mais colorido dos seus amiguinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a vi olhar para mim com aquele ar guloso, a primeira coisa que me veio à cabeça foi dizer-lhe: "Eu nasci assim, vou ser sempre assim Gabriela".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que a miúda ficou deslumbrada, mas foi sol de pouca dura. Quinze dias depois o pêlo cresceu e, olha, o meu pobre pénis ganhou um bigode ainda maior que o do "Seu Nacib".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tal como aconteceu no livro do Jorge Amado, uma vez domesticada, a Gabriela nunca mais quis ver mato à frente dela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-7386162268517154542?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7386162268517154542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7386162268517154542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/gabriela.html' title='Gabriela'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-4818089654870362486</id><published>2007-12-23T15:57:00.000Z</published><updated>2007-12-23T16:01:42.774Z</updated><title type='text'>Coyote</title><content type='html'>Há duas coisas que eu gostava de ver antes que a morte fizesse o favor de me levar daqui para fora: a Monica Bellucci na minha cama e o Coyote a apanhar o Bip-Bip.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mal dos meus pecados, a concretização de ambas é igualmente improvável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ò, quem é que eu estou aqui a enganar!? Até o desgraçado do Coyote tem mais hipóteses de enfiar o dente no pássaro estúpido do que eu tenho de encontrar a boazuda italiana a rebolar-se entre os meus velhos e remendados lençóis de seda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que isso é coisa que não me deixa de todo frustrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que eu morra de amores pelo Willy Coyote, um bicho parvo, peludo e com uma dentadura que faz lembrar a de uma sogra que tive em tempos. Ainda por cima, burro o suficiente para ficar obcecado por uma coisa que mais parece o cruzamento entre a Wanda Stuart e a Naide Gomes... o penteado da primeira e os dotes atléticos da segunda, entenda-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu contentamento em vê-lo a transformar o bip-bip em espanador depenado tem outros motivos. Obviamente relacionados com amores antigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou daqueles que acredita piamente que, na vida de todos os homens, há um Bip-bip que, volta e meia, passa por nós a correr e deixa-nos com cara de parvo, queimados por uma bomba que nos explodiu nas mãos, ou debaixo de um daqueles pedregulhos do deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para vos dizer a verdade, a relação do Coyote com o Road-Runner (o nome verdadeiro do eterno fugitivo) é em tudo semelhante à relação que eu tenho com uma velha colega dos tempos em que partilhávamos os bancos da catequese, aos sábados à tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando há anos a tentar de tudo para a apanhar e nada. Ela escapa-me sempre com aquele sorrisinho nos lábios, que parece dizer-nos: "Nha, nha, nha... não me apanhas!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai... as coisas que eu fiz para tentar deitar a unha aquela miúda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu me lembro que até no grupo coral eu me inscrevi. Sim, logo eu cujos dotes vocais fazem inchar de orgulho até aqueles cromos mais cromáticos que alguma vez passaram pelos ídolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estou a falar mesmo dos piores, tipo o indiano que foi para lá cantar aquele cena do Seal... "Para rá rara rá ra rara ra rará"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, o desenrrasque é uma arte comum a todos os nabos. E, por isso, ainda me safei nos primeiros ensaios, recorrendo à mesma técnica que consagrou estrelas do mundo da música, tais como os D'Zrt, as Spice Girls e o Britney Spears: o playback!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo se desmoronou no dia da grande estreia, quando a plateia de fiéis se calou para ouvir o meu prodigioso solo: "Gamar como Jesus gamou..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ò miúdas, não reclamem que eu sei perfeitamente que a letra não é esta. Só não sei é onde é que estavam vocês, senhoras doutoras, com a vossa sabedoria musical há 20 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se andassem lá pelas minhas bandas tinham-me humilhação do caraças. E um puxão de orelhas do Padre Mesquita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto para não falar daquela vez em que ingressei nos escuteiros, só para passar os domingos de manhã ao pé dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nome do amor lá fiz o sacrifício de aprender não sei quantas combinações de nós e ataduras, desfilar pela vila com aquela roupinha que parece ter escrito nas costas "encham-me de porrada, se faz favor" e andar porta-a-porta a vender calendários com dois anos de atraso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tudo isso eu passei, a muito custo. Até que chegou o dia do juramento e, zás, confundi o Baden Powel com os Baden Meinhoff e nunca mais me deixaram aproximar-me a menos de 2 quilómetros de um acampamento de escuteiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, eu sei que esta foi um bocadinho pr'ó subtil e a algumas de vocês deve ter passado ao lado. Por isso eu vou repetir em câmara lenta, tipo nos truques do Luís de Matos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Baden Powell foi um senhor que fundou o movimento escutista, um homem bom, defensor dos valores humanistas e com uma ligeira propensão para a pedofilia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- os Baden Meinhoff tinham nome de banda rock progressivo, mas o único som que produziam eram o dos tiros de metralhadora e das explosões nas ruas da Alemanha dos anos 70.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com vêem, tem tudo a ver um com o outro... e daí... os Baden Meinhoff eram um grupo terrorista de inspiração marxista e a ser verdade que essa gente come criancinhas ao pequeno almoço, quem sabe algum dia não terão partilhado a mesma refeição com o pai do escutismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante que já estou a desconversar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que interessa é que, sempre que eu vejo a Noémia ao longe faço a mesma coisa que o Coyote quando vê levantar-se no horizonte a poeira típica das correrias do Papa-léguas: começo logo a fazer planos para lhe enfiar o dente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi isso mesmo que aconteceu da última vez que nos encontramos, em pleno funeral de um amigo comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quis o destino que nos reencontrássemos duas décadas depois, lado a lado no mesmo banco onde ouvimos não sei quantas homilias sobre Jacob, Malaquias, Paulo, Saulo e companhia. Todas elas com dois pontos em comum: a sonolência que provocavam e o facto de começarem invariavelmente por "naquele tempo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali estávamos nós reunidos novamente: eu, a Noémia e a velha que sabia a missa de trás para a frente, mas nunca percebera muito bem onde encaixar a "Salve Raínha".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados 20 anos não só a velha continuava viva, como mantinha aquele hábito irritante de se sentar ao pé de nós. Partilhando connosco o suave aroma a naftalina, quem sabe convencida que as calças rotas no joelho da minha amiguinha fossem provocadas pela traça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um usa as suas armas como pode. E se o meu amigo Coyote usa uma parafernália de produtos Acme eu, à falta de melhor, uso a lágrima fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim, lavado em lágrimas - patrocinadas por uma cebola que gamara horas antes, precisamente na mercearia do Sr. Antunes - que me virei para a Noémia e lhe confessei que aquela morte mexera muito comigo e estava a precisar de um ombro amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez aqueles olhinhos tristes, típicos de uma veterinária habituada a ver-lhe morrer nos braços muito caniche chamado Fifi. E convidou-me para irmos tomar café, logo a seguir ao serviço fúnebre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não tinham caído as primeiras pazadas de terra em cima do caixão e já estava eu, à porta do cemitério à espera de ver a poeira levantar-se no horizonte quando, oiço atrás de mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bip-bip... vroam!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bip-bip, em causa, era a buzina do Clio da Noémia. E o "vroam" era ela a acelerar rua abaixo, enquanto espreitava pela janela do carro e lançava aquele olharzinho tipo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nha, nha, nha... não me apanhas!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo farto de saber como aquela história ia acabar – ou comigo ou com o Coyote todos chamuscados e a cair por um desfiladeiro abaixo - meti na cabeça que a podia alcançar. Bastava calçar uns patins, enfiar um foguete no meio das costas e chegar-lhe lume para sair disparado como uma bala atrás dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda liguei a Nélio Fogueteiro, antigo colega de escola, hoje dedicado às artes pirotécnicas, para ele me dispensar uns quantos morteiros que estava a preparar lá para um arraial da aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedido a que ele acedeu. Só não o fez com um sorriso amigável porque uma explosão lá na oficina, há uns anos, lhe tinha reduzido o lábio inferior a 50 gramas de carne picada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia eu já a caminho da fábrica quando me lembrei: "Eh pá, então tu já não te lembras que nunca conseguiste entrar para a equipa de Hóquei porque estavas sempre a cair dos patins"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse instante que eu me decidi pela solução mais sensata: ir à procura do número de telemóvel da Mónica Bellucci.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-4818089654870362486?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/4818089654870362486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/4818089654870362486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/coyote.html' title='Coyote'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-6955930989019331129</id><published>2007-12-23T15:55:00.000Z</published><updated>2007-12-23T15:56:18.148Z</updated><title type='text'>Bondade</title><content type='html'>Volta e meia dá-me para me armar em culto e falar dos filmes que fiz de conta que vi, mas que na verdade só li o resumo na parte de trás do DVD.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é um desses dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como lá no Clube de Vídeo é a semana dos clássicos, o primeiro filme que me apareceu à frente foi "Um eléctrico chamado desejo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das passagens mais marcantes é já no fim, quando a Blanche Dubois (em português, Branca dos Bois) diz isto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"I've allways depended on the kindness of strangers"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em português: "Sempre dependi da bondade de estranhos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma frase que faz muito sentido, principalmente para alguém, como eu, que:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - Gosta muito de sexo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 - Não foi propriamente bafejado pela beleza. Ou por outra, bafejado até fui. Mas, pelo meio do bafejo, essa tal D. Beleza deixou fugir uns borrifos de ácido sulfúrico e o resultado foi a catástrofe que se vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fora a bondade de tantas estranhas e estaria este pobre palhaço ainda mais virgem que o Zezé Camarinha pr'aí aos seus 3 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò, lá está ele outra vez a exagerar - dirão as minhas queridas amigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, efectivamente estou a ser demasiado injusto comigo mesmo. Até porque não sou assim tão horrendo. Diria que sou uma mistura de Rowan Atkinson com Pierce Brosnan... mais precisamente a cara do Rowan Atkinson e as unhas dos Pés do Pierce Brosnan!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, adiante... como vêem, depender da bondade de estranhos sempre foi a minha especialidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas houve um dia da minha vida em que essa dependência ultrapassou os limites do razoável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o dia em, viria mais tarde a saber, a minha namorada da altura se preparava para me pedir em casamento. E o meu sogro para me oferecer sociedade na próspera vacaria lá da aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como devem ter reparado pelo uso do tempo verbal, nada disto se veio a concretizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porquê? Erro de cálculo, dirão uns. Outros dirão que foi por excessiva confiança nos conselhos de falsos amigos... gente que me convenceu que 5 euros de gasolina davam à vontade para fazer 100 quilómetros e, afinal, só deram para 98.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caminho de casa da Margarida para aquilo que eu esperava ser mais um jantar com a famelga, o velho AX começou a gaguejar e, a meio de uma subida..., prás, ficou mudo. E paraplégico, já agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do nada, sem rede de telemóveis que me valesse e a amaldiçoar o dia em que me apaixonei por uma miúda de "Conamaím de Cima", não tive outra alternativa se não passar a fazer o mesmo que a Blache Dubois: depender da bondade de estranhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que, neste caso, a estranha não era assim tão estranha quanto isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, por ironia do destino, o AX pifou mesmo a meia dúzia de metros da curva onde atacava todas as noites a Laidinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Putéfia lá da zona, mais rodada que o Mercedes 200 do taxista Amaro, olhou para mim e disse, com ar de entendida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bateria ou junta da colaça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diga! - perguntei eu, ainda a tentar perceber se era mesmo a Laidinha ou se era o Herculano chapeiro com uma mini-saia em cabedal e sapatos com tacão tipo "tubo de inox".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se for bateria eu tenho os cabos ali no carro. Se for junta, tás lixado que o Herculano tá de cama com uma infecção na gaita e só lá pr'a terça-feira é que deve abrir a oficina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma curta descrição dos ruídos e do comportamento do AX imediatamente antes da avaria, a Ladinha não teve dúvidas. A experiência de anos a aviar mecânicos, camionistas e condutores de reboques foram essenciais para o rápido e preciso diagnóstico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Falta de gasolina, palhaço. Julgas que esta merda anda a água?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutro tipo qualquer aquilo teria sido equivalente a uma fractura exposta na auto-estima. Mas eu, que me apaixono por tudo e por nada, nunca me apaixonei pela mecânica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para vos ser sincero, tirando a parte de ligar a ignição, mexer o volante de um lado para o outro e carregar nos pedais, pouco mais aprendi em 15 anos de condução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá, anda daí que eu atestei o depósito ontem e dispenso-te 3 ou 4 litros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim fui eu, mato dentro atrás da Ladinha. Estivesse alguém a ver - e infelizmente estava - diria que eu me preparava para recorrer aos seus serviços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa que viria a acontecer. Não propriamente aos seus serviços, mas ao know-how próprio de quem ganha a vida graças aos seu poder de sucção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim porque, enfiar a mangueira no depósito do velhinho Renault 9 não era problema. Até um nabo como eu era capaz disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, puxar a gasolina cá para fora, tá quieto. Ao fim da primeira aspiração já estava eu a cambalear com os gases do combustível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá, enconsta-te lá ao carro e segura na mangueira que eu chupo! - resmungou a Laidinha já meio arrependida daquele momento de fraqueza em que se decidiu armar em Madre Teresa de Calcutá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, de um momento para o outro ali estava eu, no meio de um matagal, com uma prostituta velha ajoelhada aos meus pés e eu, meio a cambalear, enquanto segurava na mangueira. E puxava de uma nota de 5 euros para pagar o reabastecimento, esmola prontamente recusada pela Laidinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em vez de um coelho, estivesse uma pessoa ali atrás a abanar com as moitas, eu era gajo para estar metido num lindo sarilho, era sim senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensava eu nisto e mal imaginava eu que o coelho que, à distância, espreitava a cena com a pata a acariciar a genitália era, afinal, o Sr. Coelho, meu (em breve) ex-futuro-sogro. Respeitável chefe de família, caçador nas horas vagas e mirone nas horas que a mulher pensava serem vagas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi, precisamente, o Sr. Coelho quem eu encontrei, uma meia hora mais tarde, quando finalmente cheguei à casa da minha noiva... só por mais alguns segundos, mas ainda assim, noiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é que vai às meninas e não paga? Só um gajo que já é cliente habitual - gritava o homem para a mulher, enquanto enfiava à pressa três cartuchos na arma de caça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E pensar que iamos nós entregar a nossa Guidinha a esse bandalho! - a pobre senhora dizia isto lavada em lágrimas. Lágrimas ou saliva do marido, que encharcava tudo à sua volta com as cuspidelas embrulhadas em palavras furiosas e ódio em estado puro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí as coisas aconteceram depressa demais para eu perceber ao certo o que se passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal acabara de dizer o "boa noite" da praxe (com o sorrisinho forçado, à mistura), já o ramo de flores que levava na mão era despedaçado pelo primeiro tiro de zagalote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah seu cabrão! Vens directo das putas, cá para casa!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que mesmo depois dessa recepção, digna de um chefe de estado Palestiniano em Israel, continuei sem perceber que a minha vida corria perigo iminente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ò Sr. Coelho, tenha cuidado que ainda aleija alguém com isso - à reacção parva não seria alheia a acumulação de gases de combustível nas minhas fossas nasais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostas que te chupem é? Mas fica sabendo que a minha filhinha só chupa gelados. E não é qualquer um! Só Magnum e do branco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tiro que se seguiu despedaçou o vidro de trás do AX. Mas antes disso, passou-me à frente dos olhos devagarinho, como naquela cena do Matrix em que as balas passam a rasar a testa do Keanu Reaves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosga-se! A moca de gasolina afinal bateu mesmo a sério! Tivesse eu conseguido dobrar o corpo todo para trás, como no filme, e teria ficado agarradinho ao vício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como não contribuiu em nada para a minha elasticidade corporal, olha, lá tive eu que dar à sola que morrer jovem e belo não estava nos meus planos mais imediatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito menos morrer jovem e feio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi pena não estarem pelas redondezas os fiscais da Federação Internacional de Atletismo. Se assim fosse teriam registado um novo recorde dos 100 metros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E uma nova prova: os 100 metros obstáculos. Primeiro saltei por cima de uma galinha que passava, depois desviei-me de uma foice que a mãe da Guidinha lançara na minha direcção - por 2 vezes, porque aquilo funciona como um boomerang - e, finalmente, mergulhei pelos ares, tipo campeão de triplo salto, para entrar no carro, pelo tecto de abrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que esta última foi mais para o estilo, porque a porta do condutor até estava aberta e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma fuga à moda do Jackie Chang tem os seus custos. E aterrar em cima da moca das velocidades pode ser uma experiência de todo desagradável. Se não tivermos a rodagem de um Elton John.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E já que estávamos em noite desportiva, a fuga que se seguiu foi uma verdadeira aula de condução desportiva, que faria corar de inveja o cadáver enegrecido de um Ayrton Senna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acelerei estrada fora e, à semelhança do que aconteceu uma vez ao campeão brasileiro, parou já perto da meta, quando a gasolina se acabou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente não estava longe da curva da Laidinha. Por isso, bastou-me pôr o AX em ponto morto e deixar-me ir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai... isto de depender da bondade de estranhos é como os vapores a gasolina. Vicia e de que maneira!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-6955930989019331129?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/6955930989019331129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/6955930989019331129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/bondade.html' title='Bondade'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-7736794428187234381</id><published>2007-12-23T15:52:00.000Z</published><updated>2007-12-23T15:55:39.664Z</updated><title type='text'>Clooney</title><content type='html'>Praticamente todos nós já passamos pela experiência do Déjà vu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns mais do que outros, como é o caso do meu primo Amâncio, que a toda a hora se despede do velho avô com um sonoro "Até já, vu"!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, parvoíces à parte, o meu Déjà vu é coisa para deixar qualquer um com os cabelos em pé. Até mesmo os cabelos do capachinho do Tony Carreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa envolve-me sempre a mim e uma miúda (que é a única parte que varia na história), com o George Clooney lá pelo meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confusas? Então já somos dois, que eu estou perdido desde o início do texto e só não apaguei tudo para não dar parte de fraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, o que me acontece com uma frequência assustadora é mais ou menos isto: estamos os dois agarradinhos no sofá, a ver televisão e eu, feito parvo, descaio-me e desato a dizer que determinada miúda que aparece numa publicidade é gira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, nessa altura a moça vira-se para mim indignada e grita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostas? Então olha, fica com ela, que eu não preciso de ti para nada. Não tarda nada tá aí a aparecer o George Clooney.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E zás, não é que aparece mesmo o diabo do homem, a fazer reclame às máquinas de café ou a bebidas alcóolicas (de que não me lembra agora o nome mas que podia muito bem chamar-se "Cirrose Engarrafada")?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é limpinho! Acontece todas as semanas. No mesmo dia e à mesma hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pior disto até nem é o homem estar a meter-se no meio das minhas discussões "pré-noite de sexo até ficar em carne viva". O que me chateia é as miúdas dizerem a coisa como se me estivessem a fazer-me a maior afronta deste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque ser trocado pelo Clooney não é bem a mesma coisa que ser trocado pelo mete-nojo que serve às mesas no café aqui de baixo e que deixa as miúdas derretidas só porque tem um rabo que mais parece uma abóbora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda para mais, sendo o George Clooney um daqueles raros gajos com quem eu realmente simpatizo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simpatizo? Fosga-se, o que é que estou pr'aqui a dizer. Eu adoro aquele tipo... idolatro-o ao ponto de estar disposto a entregar-lhe, de cara alegre, a virgindade das minhas filhas que um dia poderei ter. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virgindade? Qual quê! Eh pá, eu se fosse gaja era mas é homenzinho - ou melhor, mulherzinha - para me deixar seduzir por ele, caraças!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, alto lá. Uma coisa é idolatrar, outra é alinhar em esquemas de panasquice aguda!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui bem claro: "deixar-me seduzir". Mas só até ao ponto em que ele me convidasse para passar férias na Villa dele, na Toscânia, junto com mais 5 amiguinhas... e aí, minhas queridas, era cá um fartote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque eu se fosse gaja, podem ter a certezinha absoluta que havia de ser lésbica. E daquelas beeeeem assanhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esta altura estarão as minhas lindas a pensar: "aqueles sapatos do Manolo Blahnik ficavam-me mesmo a matar".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, estarão a pensar nisso e, se sobrar tempo, a pensar nesta outra coisinha: "porque raio é que este palhaço gosta assim tanto do bonzão do George?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao certo, não sei muito bem. Mas, olhando para o homem, nota-se que ele não faz o género de DiCaprios, Gianecchini e outros que fazem aquele ar de cagão tipo: "Eu como as gajas todas e vocês não servem nem para ficar com os restos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois, há os amigos que temos em comum:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Martini&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... OK, há bocadinho eu lembrava-me do nome da bebida, mas armei-me em esquecido porque precisava de um pretexto para enfiar a piada da "Cirrose Engarrafada".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um dos meus companheiros inseparáveis naquela fase da vida em que o nosso organismo mais parece uma unidade de transformação de fígados em paté.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, fui a tempo de cortar o fornecimento de matéria prima na altura em que a fábrica começava a produzir iscas de fígado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nespresso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simplesmente adoooooro estas maquininhas. É certo que o café que fazem não vale a ponta d'um corno, mas podemos sempre pegar aquelas recargas com embalagens coloridas e comê-las como se fossem bombons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posta de parte a produção de doses de cafeína, não há grandes razões para se gostar de uma máquina de café. Mas, no caso do Nespresso, sou praticamente obrigado a gostar delas porque todas as minhas amiguinhas têm uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sempre que elas a põem a trabalhar, aquele barulhinho é música para os meus ouvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer dizer que eu ultrapassei com sucesso mais uma das etapas desta prova de resistência que começa na mesa da sala e acaba no quarto... ou no hall de entrada. Depende da nossa prestação desportiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Animais de estimação&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Pouca coisa nos une com tanta intensidade como essa invulgar amizade pelos animais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cães, gatos, piriquitos, hamsters... para quê contentar-se com estes sacos de pêlos (e penas) quando podemos ter um bochinho de estimação a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como invejei o Clooney quando me apercebi que o homem andava a passear pela vizinhança com um porco de 150 quilos preso na trela!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só uma ligeira diferença nos separa. Enquanto o actor prefere acomodar o porquinho aos pés da cama, já eu preferia distribuir a sua presença pela casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De preferência aos pedaços, pendurado nas vigas do sótão, ou em fatias, enfiado na secção de charcutaria do meu frigorífico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, o George é um porreiraço. Ainda por cima com bom gosto para as mulheres: Lucy Liu, Pamela Anderson, Renee Zellweger... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostas? Então olha, fica com ela, que eu não preciso de ti para nada. Não tarda nada tá aí a aparecer o...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ahhhhhh! Outra vez nãããããooo!!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-7736794428187234381?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7736794428187234381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/7736794428187234381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/clooney.html' title='Clooney'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-8916665748097812244</id><published>2007-12-23T15:49:00.000Z</published><updated>2007-12-23T15:50:49.175Z</updated><title type='text'>O amor é cego, ou faz-se?</title><content type='html'>Eu, que me apaixono por tudo e por nada, sou uma pessoa de hábitos rígidos e inflexíveis. Como é normal num gajo com tendência para o maníaco-depressivo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mani... quê? Não que digas que matas as miúdas e depois as enterras no quintal!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que não. É de mim ou as minhas queridas leitoras andam a ver muitos episódios do CSI?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maníaco-depressivo é um indivíduo que sofre de... Nah, isto assim é muito complicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos pela versão simplificada: é um daqueles tipos tão meticulosos que depois de fazer amor não saem do quarto da companheira sem fazer a cama. Nem limpar o pó. E, já agora, sem aspirar a casa e lavar a roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, esta última parte é nadinha exagerada, mas no essencial é mesmo isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isto vem a propósito de quê???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, já sei! Da minha técnica de engate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, sendo eu um gajo ligeiramente a fugir ao maníaco-depressivo, faço sempre as coisas de forma mecânica, seguindo à risca os procedimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por isso que eu, quando saio à noite, uso sempre o mesmo método de abordagem às fêmeas: entro num bar, olho à minha volta e fixo as 10 miúdas mais "boas" que estejam por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, olho-as fixamente e digo para mim, baixinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esquece-as! A estas nem a cor dos olhos hás-de ver, quanto mais a cor das cuecas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, pronto, a partir daí desato a meter-me com as miúdas que sobrarem. De forma aleatória, sem nenhuma ordem específica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim há quase duas décadas e há-de continuar a sê-lo até à minha velhice, quando ainda usar este método, nos bailes lá do Lar de Reformados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E só não foi assim naquele Outono de 1998 devido a um momento de fraqueza. Uma fracção de segundo na qual me deixei deslumbrar por um par de olhos expressivos. E por um ainda mais expressivo par de mamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite de Novembro entrei no barzinho da moda e, como de costume, olhei à minha volta. Fiz a minha tradicional selecção de boazudas só que, desta vez, a lista incluía apenas 9 desejáveis mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A actriz principal deste triste episódio foi excluída do "top ten", não por falta de qualidade, mas por gula. Digamos apenas que tive mais olhos que braguilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se a primeira barreira (a cor dos olhos) foi ultrapassada graças ao voluntarismo de uma colega de trabalho que nos apresentou, em troca do número de telemóvel do Vítor Baía, o segundo (a cor da roupa interior) exigiria algo de bem mais rebuscado do que um papel amarrotado com o número de um bate-chapas amigo, cujo sonho era ser confundido com o guarda-redes do Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou melhor, isso pensava eu. Estava já eu a suar que nem um Nuno Gomes - não durante o jogo, mas sim no cabeleireiro, quando lhe alisam o cabelo à força do secador - a ver que estratégia havia de adoptar, na abordagem à miúda, quando ela se sai com estas duas palavras que jamais hão-de sair-me da memória:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queres dançar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que a minha reacção foi olhar à volta, a ver se descobria a câmara oculta e a equipa dos "apanhados". Mas a única coisa que vi foi um pastor alemão a salivar, juntamente com um data de outros cromos, com cara de cão e língua de fora. Mas em vez de saliva, saia-lhas espuma daquelas bocarras... espumavam-se de raiva com o mulherão que me coube em sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, de um momento para o outro, lá estava eu prestes a abdicar de uma estratégia que tinha dado frutos - uns mais maduros que outros - ao longo de vários anos, em alguns dos mais conceituados bares da especialidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uma fracção de segundo pensei mesmo que podia finalmente jogar na mesma divisão que os garanhões que, anos a fio tinham troçado das minhas conquistas na segunda e terceira ligas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já via as luzes da ribalta. Sentia o calor dos holofotes a bater-me na cara. Quando, de repente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boazona saca de uma bengalinha branca extensível, tipo "ponta e mola", puxa a trela do pastor alemão e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adoro esta música. Vamos lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto. A núvem onde me tinha colocado, para olhar de alto para o resto dos mortais, desfez-se em mil pedaços e lá vim eu por aí abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que podia ter continuado com aquela farsa. Quanto mais não fosse, em nome de uma política que o governo da época estava a lançar e que visava dar mais oportunidades às pessoas com deficiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, por outro lado, não fui capaz de tamanha sacanice. Se a miúda tivesse olhos na cara - que-se dizer, ter até tinha, mas não funcionavam - teria certamente reagido de forma menos cordial à minha ofensiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aposto que em vez do "vá, Brutus, dá a patinha ao amigo da dona", ter-lhe-ia saído da boca qualquer coisa como: "Shhhh ataca, ataca. Mata, esfola, trinca"!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mal o menos, consegui cumprir a segunda parte do meu objectivo: ver-lhe a cor da roupa interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não porque tivesse chegado a esse adiantado estado de intimidade. Mas porque as cuecas e o soutien estavam ali, por cima das calças e da blusa, à vista de toda a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre miúda! Não lhe era difícil arranjar alguém que a ajudasse a despir-se todas as noites. Mas, pelos vistos nunca encontrava ninguém ao seu lado, de manhã, para a ajudar a vestir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida às vezes é triste...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-8916665748097812244?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8916665748097812244'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/8916665748097812244'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/o-amor-cego-ou-faz-se.html' title='O amor é cego, ou faz-se?'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-1603481351195218809</id><published>2007-12-22T22:53:00.000Z</published><updated>2007-12-22T22:55:29.448Z</updated><title type='text'>Dedos</title><content type='html'>Eu, que me apaixono me apaixono por tudo e por nada, tive uma época na minha vida em que... digamos... me entusiasmava por tudo e por nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não perceberam? Eu explico: estão a ver o coelhinho das pilhas Duracell? Eu era mais ou menos isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que em vez de ser da Duracell, era o coelhinho da Aerocell, que é uma versão barata das pilhas, que se compra no Lidl por uns dois euros e tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, basicamente a mesma a coisa. A diferença é que, enquanto na Duracell dura, dura, dura, dura, dura... (e por aí fora), com as outras é mais do tipo: dura, dura, mole, mole, mole...!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuam sem entender?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh pá, eu era aquele tipo de gajos que fervem em pouca água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também não vão lá assim? Irra, que estou a ver que vos preciso de fazer um desenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ver se é desta: se eu fosse gigolô, em vez de ser pago à hora, tinha que ser pago ao minuto. Ò, a quem é que eu estou a tentar enganar. Pago ao segundo e era se não queria morrer à fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem assim!? Ò meninas, vá lá isto já é complicado só de abordar o assunto, quanto mais ter que explicar… olha, seja o que Deus quiser: eu sofria de ejaculação precoce.Mas precoce, tipo quê? Perguntarão as minhas queridas amigas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem, alguma de vocês já viu uma corrida do Obikwelu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, as minhas relações sexuais eram do género, mas sem as falsas partidas. É que eu, nestas coisas, depois de ouvir o tiro de partida disparo por ali fora e só meto travão à coisa 10 a 12 segundos mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou pura e simplesmente não meto, se o tiro de partida for, afinar, o tiro de caçadeira do marido da senhora com quem partilhasse aquela prova de velocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como devem imaginar, foram dois meses terríveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei tudo o que era remédio caseiro e solução milagrosa: atar a base do pénis com um atacador, ouvir músicas do Elton John ou imaginar que a minha companheira era irmã gémea da Cesária Évora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo em vão. Em desespero de causa cheguei até a ponderar uma solução radical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garantiram-me que ir para a cama com a Vanessa Fernandes havia de resolver o problema. Mas tive a presença de espírito suficiente para não o fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, o objectivo era curar a minha ejaculação precoce. Não era ficar impotente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dada altura, pensei ter encontrado a chave do problema. Um velho amigo dos tempos da universidade sofrera do mesmo mal e tratara-o graças a um método simples. E aparentemente eficaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eh pá, quando estiveres quase lá, enfias um dedo no cú e zás. É radical!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim o fiz. Da próxima vez que tive sorte, pus o plano em prática. Sem grande sucesso, diga-se em bom abono da verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou-te a dizer, meu. Na horinha certa enfiei o indicador no rabinho da miúda, só que em vez de acalmar fez o efeito contrário. Ela ficou toda maluca e eu, olha, deixei-me ir - expliquei eu, coberto de vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta não me trouxe a tranquilidade que eu esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ganda animal. Não era no rabo dela. Tinhas que enfiar o dedo, mas era no teu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora essa! Então eu peço ao gajo uma maneira de acabar com a ejaculação precoce e ele a querer ensinar-me a fazer um auto-exame à próstata!? Grandes amigos que eu fui arranjar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente o problema viria a resolver-se por si só. E não graças às mezinhas da avozinha (neste caso, mezinhas do avozinho).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E muito menos aos conselhos inúteis de certos indivíduos que se diziam meus amigos e aos quais, desde aí, recusei terminantemente apertar a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não por qualquer rancor em especial, mas sim por razões de higiene pública, entenda-se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-1603481351195218809?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/1603481351195218809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/1603481351195218809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/dedos.html' title='Dedos'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6231928983601327205.post-5246276589092002284</id><published>2007-12-22T22:51:00.000Z</published><updated>2007-12-22T22:52:57.034Z</updated><title type='text'>Curvas</title><content type='html'>Diz-se que o amor não escolhe idade. Nem peso, acrescento eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E digo-o com a autoridade de quem viveu uma das relações mais marcantes da sua vida ao lado de uma linda mulher. E dos seus 89 quilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, para as mais mal intencionadas, quero desde já esclarecer que a relação não foi marcante por causa das três vértebras deformadas, à custa deste meu irritante hábito de carregar ao colo todas das mulheres que amo perdidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digamos apenas que foi marcante pelos instantes de felicidade que passamos juntos. Arrisco mesmo dizer que dava um testículo aodiabo para reviver alguns deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Principalmente aquelas intermináveis noites de paixão incandescente. Se bem que o conceito de interminável incluia uma paragem de meia hora, para eu ir a correr ao MacDrive buscar 2 Happy Meals.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não olhem para mim com essa cara, meus amores. Eu posso ser imaturo, mas já não tenho idade para me entreter com brinquedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os brindes eram para os sobrinhos dela. Até porque eu já tinha a minha bonequinha para brincar... até ao amanhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, ai, que momentos inesquecíveis passamos. Como aquela tarde em que, semi-nus, no escuro da minha garagem, esfregamos o capôt do meu velho AX durante um bom par de horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não para pôr em prática algum fetiche que envolvesse sexo e trabalhos de mecânica. Mas sim na esperança de apagarmos as manchas de sangue deixadas pelo corpo do cabrão que atropelei a alta velocidade, depois de ele se ter virado para a minha menina e dito, com uma vozinha a armar em cruel:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve lá, sabias que com menos cú também se caga?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E com um triplo traumatismo craniano, também se mandam bocas foleiras? - gritei eu, enquanto via, pelo retrovisor, o corpo do engraçadinho a rebolar na estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gastei uns 40 contos no bate-chapas, mas valeu a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, homem que se orgulhe da sua condição faz questão de lavar a honrada sua dama com sangue. E massa encefálica. E osso, ou lá que raio era aquela coisa esbranquiçada que ficou incrustada na chapa do AX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o momento alto dos nossos dias era a logo a seguir ao banho. Quando ela se olhava ao espelho durante um bom quarto de hora, enquanto passava as mãos por aquele corpo roliço que só apetecia agarrar e não mais largar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, virava-se para mim e perguntava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mor, não achas que eu tenho peso a mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que eu respondia com este meu tom meigo, que só as pessoas que convivem comigo há mais de 1 ano percebem ser tão verdadeiro como as etiquetas da minha camisa Sacoor, comprada aos ciganos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, meu doce. As outras é que têm peso a menos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6231928983601327205-5246276589092002284?l=euquemeapaixono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/5246276589092002284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6231928983601327205/posts/default/5246276589092002284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://euquemeapaixono.blogspot.com/2007/12/curvas.html' title='Curvas'/><author><name>Paulo Jorge Dias</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='25' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_uBqx4udT7lY/S1B753Cjh2I/AAAAAAAAAFA/zZIQE2g32yw/S220/j.jpg'/></author></entry></feed>
